Operador sugere que o esquema para abrir os cofres de fundos de pensão ao Master também envolvia ‘pessoas do Banco do Brasil’
“Para que isso seja feito, seja liberado, a gente tem todo o roteiro. Inclusive as pessoas no Banco do Brasil já estão instruídas a esperar e receber o que a gente encaminhar. A coisa já está totalmente montada”, diz operador a emissário de Vorcaro (Marcelo Camargo/Agência Brasil)
No fim de 2023, o operador Hamilton Buselin — ligado a Júlio Cezar, o lobista do grupo do ministro Alexandre Padilhanos fundos de pensão estatais — enviou um recado a Daniel Vorcaro, por intermédio de um parceiro do banqueiro.
Segundo Hamilton, a Previ tinha, naquele momento, 2 bilhões de reais liberados “no Banco do Brasil” para o bilionário captar.
“A informação que eu tive é de que o Master está tentando fazer uma operação muito grande (de captação nos fundos), mas estão tendo algum problema… Para aquisição de letras, não há limite e a disponibilidade hoje da Previ é de 2 bilhões de reais”, disse ele ao emissário do Banco Master.
17/07/23 – Ministro de Relações Institucionais da Presidência da República Alexandre Padilha, recebeu em audiência, os chefes dos fundos de pensão PREVI – Joao Fukunaga POSTALIS – Camilo Fernandes dos Santos FUNCEF – Ricardo Pontes PETROS – Henrique Jäger. (Gil Ferreira/Ascom/SRI/Divulgação)
O caminho até o dinheiro, segundo a mensagem, passava por algo surreal: uma encenação seria criada para legitimar a operação do fundo de previdência dos servidores do BB com o Master. O Banco Master teria que “provocar” – ou seja, mostrar interesse – de captar e aí todo o resto já estava combinado com a direção da Previ, então dominada por indicados da cúpula do PT, entre eles o famoso ex-tesoureiro João Voccari Neto, citado na delação de Vorcaro – rejeitada pela PGR por ‘fala de provas’ – como operador de propinas para o Instituto Lula e para um filme sobre o presidente.
“A gente pode patrocinar essa entrada. É por isso que eles (dirigentes da Previ) querem fazer a visita pessoalmente. A gente só tem que provocar essa visita, fazemos uma reunião, o presidente da Previ vai junto com a diretoria e a gente já conversa e acerta possíveis operações”, diz o operador.
Além desses 2 bilhões de reais do fundo dos aposentados do BB, o operador mostra que o esquema, se desse certo, não teria limites:
“A essência da história é a gente fazer com que o Master vá para dentro do circuito (dos fundos) de forma direta e objetiva e não dependa dos intermediários que hoje estão intercedendo por ele. Essa é uma operação de entrada. A gente precisa fazer com que entre, porque, quando chegar em maio, por exemplo, a Previ pode estar com uma liberação de valores muito superiores e aí o Master já vai estar em condição de fazer aceitação”, diz Hamilton mostrando que o céu era o limite.
Além da jogada ensaiada com Vorcaro e com a cúpula petista da Previ, o operador garante que o esquema já estava acertado também com o pessoal do próprio Banco do Brasil — o que agrava o caso.
“Para que isso seja feito, seja liberado, a gente tem todo o roteiro. Inclusive as pessoas no Banco do Brasil já estão instruídas a esperar e receber o que a gente encaminhar. A coisa já está totalmente montada”, diz Hamilton.
Ao levar o recado a Vorcaro, o parceiro do banqueiro garante que o interlocutor do grupo de Padilha tinha mesmo influência no fundo de pensão ligado ao Banco do Brasil:
“Ele está bastante dentro da Previ e eles estão com apetite pra comprar letras financeiras e os limites lá são bem altos”, disse numa mensagem.
Trecho do anexo da proposta de delação de Vorcaro que foi rejeitada pela PGR por “falta de provas” (./Divulgação)
O operador cita, nessa mensagem, o próprio Júlio Cezar. Na proposta de delação de Vorcaro revelada por VEJA, as mensagens do celular do banqueiro e os registros de entrada do Palácio do Planalto mostram que a figura maior, nesse conjunto de operadores de Júlio Cezar era o ministro Alexandre Padilha, que naqueles dias despachava na Secretaria de Relações Institucionais do presidente Lula, a metros do gabinete presidencial.
Nesta semana, o Radar revelou registros do próprio Planalto que confirmam que Vorcaro e o lobista do grupo de Padilha foram ao palácio em pelo menos duas ocasiões, tal qual revelado pelo banqueiro na delação rejeitada pela PGR por “falta de provas”, mesmo tendo ele oferecido até recibos de propina paga ao petismo.
Com a ajuda de Padilha, do braço-direito dele no palácio, Olavo Noleto, e de Júlio Cézar, Vorcaro conseguiu reuniões com os presidentes dos fundos de pensão de servidores da Caixa, do Banco do Brasil, da Petrobras e dos Correios. Um áudio revelado por VEJA nesta semana mostra que Júlio prometia colocar Vorcaro “na boca do gol” no Banco do Brasil.
As negociações fizeram com que o Master conseguisse até entrar na concorrida “lista exaustiva” da Previdência, uma espécie de passaporte oficial do governo para que o banco tivesse credenciais aceitas ao captar recursos nos fundos.
Vorcaro conta na proposta de delação premiada que o esquema, que renderia 10 bilhões de reais ao Master com retorno de 1 bilhão de reais em propina aos petistas, só não deu certo porque a operação vazou para a imprensa.
“Com as matérias difundidas na imprensa em julho de 2024 sobre a suposta perda de cargo de gestores da Caixa Asset que teriam sido contrários ao investimento em LFs do Banco Master, o grupo de Padilha e os dirigentes da Petros, Postalis e BB preferiram segurar a decisão de fazer o investimento”, diz Vorcaro num anexo revelado por VEJA.
Em tempo, Alexandre Padilha, Olavo Noleto e outros citados nas investigações e na tentativa de delação de Vorcaro já negaram, em nota, qualquer envolvimento com o banqueiro. Eles também negam o recebimento de propina ou a atuação em favor do dono do Master, apesar das mensagens obtidas pela PF.
ATUALIZAÇÃO, 8H05 — O Banco do Brasil e a Previ enviaram notas ao Radar sobre a fala do operador ligado ao grupo do ministro Alexandre Padilha:
Banco do Brasil
O Banco do Brasil repudia veementemente as declarações atribuídas a terceiros na veiculação. O Banco ressalta que não tem nenhuma relação comercial ou institucional com empresas do grupo Master. Destaca, ainda, que é completamente falsa a alegação de que haveria empregados ou estruturas do Banco do Brasil instruídos a atuar na facilitação de tais negociações com o Banco Master. O Banco rejeita categoricamente suposições levianas que tentam vincular a imagem de uma instituição secular a narrativas de bastidor desprovidas de veracidade. Inclusive, que não há e nunca houve qualquer concessão de empréstimos ou compra ou distribuição de papéis relacionados ao Master pelo Banco do Brasil e Previ corroborando a lisura e competência técnica das instituições. Todas as atuações do Banco do Brasil seguem rigorosos critérios de governança, compliance e legislação vigente. A instituição destaca, ainda, que a própria Previ, que possui total autonomia administrativa e governança própria, já se manifestou mais de uma vez publicamente esclarecendo os fatos e demonstrando a lisura de seus processos. O Banco do Brasil adotará todas as medidas necessárias para resguardar sua reputação e integridade jurídica contra ilações infundadas.
Previ
A Previ repudia as informações publicadas em reportagem pela imprensa em 16 de outubro de 2026. A matéria veicula alegações graves e inverídicas sem que a Entidade fosse procurada antes da publicação para apresentar sua versão dos fatos. A Entidade nunca realizou análise de investimento no Banco Master e jamais aprovou, reservou ou autorizou recursos para aplicações na instituição. O Banco Master sequer foi considerado como possível parceiro de investimento. Anteriormente, a Previ já havia esclarecido publicamente que o Banco Master nunca foi habilitado nem analisado para operar com a Entidade e reafirma seu compromisso com critérios rigorosos de governança e com a gestão responsável dos recursos de seus participantes. Todos os nossos investimentos podem ser consultados na aba Transparência do site da Previ.
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