Os mais antigos têm 92% das obrigações relacionadas a benefícios já concedidos
Devanir Silva, da Abrapp: “Com queda dos juros, reinvestimento dos recursos poderá ocorrer a taxas menores, exigindo maior diversificação das carteiras” — Foto: Ana Paula Paiva/Valor
A perspectiva de novos cortes de juros no país e a alta concentração de renda fixa na carteira, especialmente títulos públicos, serão um desafio adicional para os fundos de pensão no país. Em planos de benefício definido (BD), são R$ 694,6 bilhões em investimentos, sendo que 91,8% das provisões matemáticas – valor que uma fundação calcula que precisaria ter hoje para pagar todas as aposentadorias e pensões que já estão sendo recebidas e as que ainda serão concedidas, até o fim da vida dos beneficiários – já correspondem a benefícios concedidos. Os dados estão em relatório da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), com dados até junho.
Dessa forma, as fundações terão que administrar carteiras cada vez mais maduras, preservar os retornos contratados durante o período de juros elevados e garantir liquidez para honrar benefícios que continuarão sendo pagos por décadas. Devanir Silva, diretor-presidente da Abrapp, afirma que a elevada proporção de benefícios concedidos exige uma gestão rigorosa dos ativos e passivos, diante do aumento da longevidade.
Para ele, embora a concentração em renda fixa, especialmente em títulos públicos indexados à inflação, seja compatível com a necessidade de previsibilidade e segurança no pagamento dos benefícios, a perspectiva de redução dos juros aumenta a importância da diversificação dos investimentos. “As taxas elevadas dos últimos anos permitiram aos fundos contratar rentabilidades atrativas, frequentemente superiores às metas atuariais, com riscos relativamente baixos. Com a queda dos juros, o reinvestimento dos recursos poderá ocorrer a taxas menores, exigindo maior diversificação das carteiras.”

Embora representem cerca de um quarto dos planos de previdência complementar fechada, os BD concentram 51,9% dos investimentos. Os planos de contribuição variável (CV) administram R$ 419,4 bilhões, ou 31,3%, enquanto os de contribuição definida (CD) reúnem R$ 225,5 bilhões, equivalentes a 16,8%. O grau de maturidade dos planos BD aparece na distribuição de suas obrigações. Dos 243 planos com informações disponíveis, 200, ou 82,3%, já têm pelo menos três quartos de suas provisões matemáticas relacionados a benefícios concedidos.
Outros 31 estão na faixa de 50% a 75%, sete entre 25% e 50% e apenas cinco têm menos de um quarto das provisões comprometidas com aposentadorias e pensões em pagamento. A concentração é superior à observada na composição da população desses planos, na qual aposentados e pensionistas representam 66,2% dos participantes e assistidos. Nos planos CV, essa proporção é de 17,6% e, nos CD, de apenas 5%.
O índice médio ponderado de solvência dos planos BD alcançou 102% em junho, segundo a Abrapp. O indicador mostra que, no agregado, os recursos considerados no cálculo superavam ligeiramente os compromissos atuariais, embora a situação varie entre os planos. O envelhecimento dos planos torna mais importante o casamento entre os fluxos de recebimento dos investimentos e os pagamentos de benefícios. Em muitos planos fechados à entrada de novos participantes, as contribuições correntes já não são suficientes para cobrir os benefícios pagos.
Segundo a Abrapp, a quantidade de planos com déficit passou de 138, em dezembro de 2025, para 184, em junho de 2026, alta de 33,3%. O déficit agregado, porém, cresceu em proporção bem menor, de R$ 20,9 bilhões para R$ 22,2 bilhões, avanço de 6,2%. No total geral, o sistema mantinha resultado líquido positivo de R$ 19,2 bilhões em junho. Devanir explica que essa diferença sugere que parte dos planos que passaram à condição deficitária apresenta desequilíbrios relativamente pequenos, mas também já é sinal da perspectiva de juros menores, diante da revisão das premissas atuariais.
Os fundos de pensão devem ter uma parcela maior de ativos de risco, para reduzir a volatilidade da carteira”
— Tiago Calçada
Grandes fundações, como Previ, dos funcionários do Banco do BrasilCotação de Banco do Brasil, Petros (Petrobras) e Funcef (Caixa Econômica), ampliaram a compra de títulos públicos de longo prazo para proteger suas obrigações futuras, na chamada “imunização de carteiras”. Tiago Calçada, diretor da área de Investments & Retirement da Marsh Brasil, explica que boa parte dos gestores aproveitou o período de juros elevados. Muitos desses papéis estão marcados “na curva”, ou seja, sem atualização diária dos valores negociados no mercado secundário.
“Os fundos de pensão são grandes compradores de dívida pública. Quando se compara a meta atuarial com a rentabilidade, essa questão me preocupa menos, porque grande parte dos ativos já está imunizada”, avalia. De acordo com ele, as parcelas não imunizadas estão relacionadas aos benefícios a conceder ou a componentes de risco, como invalidez e morte. Ele diz que um plano pode apresentar rentabilidade negativa em determinado período sem que isso necessariamente signifique déficit. “Se o gestor fez corretamente o trabalho de casar os ativos com os passivos, não vejo hoje um problema estrutural no segmento.”
No entanto, ele destaca o risco dessa alta concentração em títulos públicos. “Mesmo quando os passivos estão imunizados, os fundos devem ter uma parcela maior de ativos de risco, não necessariamente para aumentar os ganhos, mas para melhorar a diversificação e reduzir a volatilidade da carteira como um todo.” De acordo com Calçada, mesmo olhando isoladamente a rentabilidade, a estratégia atual pode parecer adequada, mas há espaço para mudanças.
Segundo dados da Abrapp, a renda fixa representa R$ 589 bilhões, ou 84,8%, dos investimentos dos planos BD. A renda variável soma R$ 51 bilhões (7,3%), e imóveis respondem por R$ 29,3 bilhões (4,2%). O restante está distribuído entre operações com participantes, investimentos estruturados, aplicações no exterior e outros ativos. A concentração acompanha uma tendência mais ampla da previdência fechada. No conjunto do sistema, a participação da renda fixa passou de 75,7% dos investimentos em 2021 para 86,1% em junho de 2026. No mesmo período, a fatia da renda variável recuou de 15,8% para 6,7%.
“O Brasil é um ponto fora da curva. Fundos de pensão de diversos países mantêm alocações relevantes em ativos internacionais, enquanto os brasileiros têm uma exposição muito mais tímida”, diz Calçada. Ele conta que tem defendido entre fundações clientes da consultoria a alocação em ativos alternativos, como private equity, crédito privado, “hedge funds”, fundos imobiliários e ações.
Grandes fundações, como Previ, Petros e Funcef, ampliaram compra de títulos públicos de longo prazo para proteger suas obrigações futuras
Mesmo quando o fluxo de caixa está bem casado com os pagamentos, explica, os fundos continuam precisando reinvestir recursos provenientes de contribuições e administrar eventuais ganhos e perdas que ocorram nas carteiras. “É nessa parcela sujeita a ajustes e recalibragens que temos discutido a possibilidade de reduzir a concentração em títulos públicos de longo prazo e buscar outras classes de ativos. Já percebemos maior interesse dos fundos de pensão por essas alternativas.” Como o setor é caracterizado como por tomar decisões em ritmo lento, ele prevê mudança mais significativa somente em dois anos.
A Previ se desfez, entre 2024 e agosto de 2026, de R$ 31 bilhões em participações acionárias e aplicou cerca de R$ 41 bilhões em NTN-Bs marcadas na curva, aproveitando os juros elevados para adequar os investimentos ao pagamento futuro de benefícios. A fundação afirma que a imunização continua sendo ampliada. Seu Plano 1, o mais antigo de benefício definido da fundação, fechado a novas adesões, tem 104.367 participantes, sendo que 97,5% aposentados ou pensionistas. O plano tem R$ 265 bilhões em ativos sob gestão, sendo 71,8% em renda fixa e 60% marcados na curva. Segundo a Previ, a probabilidade de necessidade de equacionamento de déficit é zero no horizonte de sua política de investimentos, até 2032.
Já a Vivest, antiga Fundação Cesp e quarta maior entidade do país em volume de investimentos, segundo o ranking da Abrapp, praticamente concluiu a imunização. Foram R$ 28 bilhões abrangidos pela estratégia, equivalentes a 87% dos recursos garantidores dos planos BD. Atualmente, 66% estão aplicados em NTN-Bs e NTN-Cs marcados na curva. Segundo o diretor de investimentos, Paulo Werneck, as metas de rentabilidade foram atingidas, mas ainda há parcelas de alguns planos cuja imunização está em avaliação, com decisão prevista até o início de 2027.
Na Petros, por sua vez, os planos mais maduros, como os PPSPs, já têm quase a totalidade dos participantes recebendo aposentadorias e pensões. Segundo a entidade, todos já atingiram suas metas de imunização. Considerando todos os planos da Petros, a carteira de imunização somava R$ 71,87 bilhões em setembro de 2026. Segundo a Petros, a estratégia permanece adequada mesmo diante de uma eventual queda da Selic, mas imunização continua sujeita a revisões periódicas.
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