Brasil não tem espaço para novas refinarias, dizem especialistas

Investimentos em refino no país devem se voltar a aumento de capacidade e produtos ‘verdes’, dizem especialistas

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A perspectiva de crescimento no consumo de combustíveis no Brasil nos próximos anos e a transição energética abrem espaço para novos investimentos no refino de petróleo, tanto no aumento da capacidade quanto na produção de biocombustíveis. Entretanto, especialistas ouvidos pelo Valor dizem que é improvável a construção de novas refinarias do zero no país mesmo no novo governo do Partido dos Trabalhadores (PT), que tem defendido a redução das importações de derivados. Hoje, as refinarias nacionais conseguem produzir volume suficiente para atender 70% da demanda doméstica. Os outros 30% dependem de importação. As compras externas de produto suprem sobretudo os mercados do Norte e Nordeste uma vez que as maiores plantas nacionais concentram-se no Sul e Sudeste.

As dificuldades para novos projetos de refino se relacionam, segundo os especialistas, ao longo tempo para amortização dos investimentos e à mudança para uma economia de baixo carbono, que tende a reduzir a vida útil dos ativos de combustíveis fósseis. Analistas indicam, porém, a possibilidade de que novos modelos de investimento no refino surjam no país, em especial os relacionados a produtos menos poluentes. Os investimentos, portanto, devem se concentrar na expansão, conversão e modernização das unidades existentes, dizem os técnicos.

A partir de janeiro, o novo governo e a administração da Petrobras também terão pela frente obras de refino inacabadas e que foram alvo de investigações da Operação Lava Jato, caso da Refinaria Abreu e Lima (Rnest), em Pernambuco, e do Polo GasLub Itaboraí, o antigo Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). Ontem, a Petrobrasinformou que aprovou o projeto de engenharia para implantar unidades para produção de combustíveis e lubrificantes no Polo GasLub.

Um eventual aumento da capacidade de refino no país poderia se justificar uma vez que o consumo de combustíveis líquidos, em especial o diesel, ainda segue crescente no Brasil. O sócio da consultoria Leggio, Marcus D’Elia, afirma que a demanda por gasolina deve crescer até atingir o pico em 2038, enquanto a queda do consumo de diesel deve começar apenas na década de 2040. “Temos dois problemas: um é como financiar uma refinaria que vai produzir combustível fóssil. Não é um financiamento barato e toda a visão de financiamento de projetos está voltada para a transição energética. O segundo ponto é o horizonte. Em alguns casos, o retorno do novo projeto não ultrapassa o horizonte que se espera de crescimento da demanda de combustíveis fósseis”, diz.

Outro ponto que dificulta o avanço de novos projetos de refino no Brasil é a indefinição quanto ao papel da Petrobras no segmento. A estatal é o principal ator do setor, mas tem acordo com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para a venda de oito refinarias, que correspondem a cerca de metade da capacidade de processamento. Até agora, entretanto, apenas três unidades tiveram a venda concluída: a antiga Rlam (atual Refinaria de Mataripe) na Bahia, a Isaac Sabbá (Reman), no Amazonas, e a SIX, no Paraná. Há incertezas sobre a continuidade dos demais processos de venda, dado que o presidente eleito afirma ser contra as privatizações.

A diretora de downstream (abastecimento) do Instituto Brasileiro do Petróleo e do Gás (IBP), Valéria Lima, diz que a venda de ativos da Petrobras e a entrada de novos agentes no país facilita a atração de investimentos, tanto na expansão das refinarias existentes, como em refinarias menores, para o processamento de produtos específicos. Ela vê espaço para a construção de plantas dedicadas ao “diesel verde”, produto coprocessado com óleos vegetais, menos poluente: “Existem novos agentes querendo entrar no Brasil para fazer biorrefino. A questão é o quão aberto estará o país para atrair esse investimento. Num mercado com múltiplos agentes, existem empresas com estratégias diferentes. Nesse ambiente aberto, vejo espaço para ‘microrrefinarias’, voltadas para um tipo de produto. Mas não vejo uma grande refinaria saindo do zero”, avalia Lima.

O biorrefino, inclusive, foi um dos pleitos levados pelo IBP à equipe de transição do governo eleito, segundo o presidente de entidade, Roberto Ardenguy. “O Brasil tem uma tendência de liderança neste segmento e o novo governo está focado em temas como descarbonização e sustentabilidade”, afirmou o executivo.

Antes mesmo da mudança de governo havia indícios de que o refino voltaria a receber mais investimentos da Petrobras. Em outubro, antes do segundo turno das eleições, o presidente Jair Bolsonaro (PL) cogitou a possibilidade de construir refinarias de petróleo no Brasil. “Estamos buscando solução para isso: ou nós construímos, ou iniciativa privada, se achar que é lucrativo, constrói”, disse o presidente.

O plano de negócios da Petrobras para os anos de 2023 a 2027, elaborado ao longo do último ano e apresentado em novembro, prevê o aporte de US$ 9,2 bilhões nesse segmento. Desde o ano passado, a estatal já havia confirmado a intenção de finalizar o segundo trem de refino da Rnest.

A refinaria está no processo de desinvestimento da estatal, mas a opção pela conclusão se justifica pela possibilidade de atrair potenciais compradores. O diretor de refino e gás natural da Petrobras, Rodrigo Costa Lima e Silva, explicou em teleconferência com analistas este mês que a decisão está relacionada também ao potencial de produção de diesel de baixo teor de enxofre nessa unidade, além do aproveitamento dos investimentos feitos.

O anúncio do plano de negócios da Petrobrastambém consolidou o biorrefino como um dos focos da empresa na transição energética. Essa área receberá US$ 600 milhões em investimentos até 2027. No período, a Petrobras vai construir uma unidade dedicada ao bioquerosene de aviação (bioQAV) e adicionar mais capacidade produtiva de diesel renovável na refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), onde tem uma planta piloto de diesel verde. Prevê avançar ainda no biorrefino nas refinarias de Paulínia (Replan), Duque de Caxias (Reduc) e Presidente Bernardes, em Cubatão (SP). Ainda não está claro se tais projetos serão mantidos no novo governo, que deu sinais de querer alterar o plano de negócios, com a intenção de ampliar investimentos, como forma de “fazer da Petrobras uma empresa de energia”.

A mudança de governo no Brasil ocorre num contexto de menor oferta global de combustíveis, em especial o diesel, por causa das sanções à Rússia depois da invasão à Ucrânia. Cresceu em 2022 a diferença entre as cotações do petróleo cru e do diesel, conhecida pela expressão em inglês “crack spread”, uma medida do lucro das refinarias. Analistas afirmam, no entanto, que o aumento das margens é pontual e não justifica investimentos em projetos de longo prazo.

Também não há garantia de que a expansão da capacidade nacional de refino garanta preços baixos aos consumidores finais, dizem especialistas, pois os produtos nacionais vão continuar a competir com importados. Fontes com conhecimento do setor de distribuição apontam que seria difícil que uma nova refinaria no Maranhão, onde há menor infraestrutura de dutos, por exemplo, entregue produtos mais baratos do que os importados de Houston (EUA).

O consultor em gerenciamento de risco da consultoria StoneX, Pedro Shinzato, afirma que os projetos de refino competem entre si globalmente e que uma refinaria pode levar até 30 anos para a amortizar os investimentos feitos na construção de um novo ativo. Por isso, diz, é difícil que novas unidades a serem construídas no Brasil consigam competir com projetos consolidados nas principais praças do mundo, que hoje são a costa do Golfo nos Estados Unidos, China, Rússia, Holanda e Bélgica.

“A demanda dos grandes centros exportadores está se reduzindo, então vai haver maior disponibilidade de produtos no mercado internacional a custos competitivos”, diz o analista de estratégia de downstream (abastecimento) da consultoria S&P Global, Felipe Perez. Para ele, a competitividade de novas refinarias depende também do acesso à energia barata para a produção de combustíveis e da infraestrutura logística para distribuição dos derivados pelo país.

“A competitividade vai depender muito da transparência e da abertura do mercado. Depende ainda de outros setores. O Brasil tem uma deficiência de suporte dos setores ao redor do refino, como a logística e a distribuição. Outro fator importante para a estratégia de investimento é o gás natural. A energia é o maior custo operacional de uma refinaria”, diz Perez.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2022/12/27/brasil-nao-tem-espaco-para-novas-refinarias-dizem-especialistas.ghtml

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