Petrobras desponta como a joia da coroa na “joint venture” entre os Batista e o Estado brasileiro



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Se algum incauto ainda duvida do poder de fogo dos irmãos Joesley e Wesley Batista, saiba que os controladores da JBSpretendem se superar. Os computadores dos seus analistas crepitam em simulações para comprar um naco expressivo de ações da Petrobras em bolsa. Os irmãos Batista estão empenhados em consolidar um projeto de poder empresarial e construir a grande corporação estratégica nacional, com presença em setores particularmente sensíveis aos interesses econômicos e geopolíticos do país. O objetivo estaria em exercer influência sobre a gestão e as decisões estratégicas da empresa. Até, quem sabe, com representação no conselho de administração. O caso do banqueiro Juca Abdalla dá uma medida do espaço que os irmãos poderiam conquistar. Com aproximadamente 3% das ações ordinárias da Petrobras, por meio de fundos ligados ao Banco Clássico, Abdalla conseguiu eleger não apenas a si próprio, mas também Marcelo Gasparino da Silva para o colegiado. Os Batista poderiam seguir roteiro semelhante, costurando uma coalizão com investidores institucionais e outros acionistas minoritários. Dispõem, porém, de um trunfo adicional: a proximidade com quem exerce, politicamente, o comando do acionista controlador da Petrobras, o presidente Lula. A entrada de Joesley e Wesley no capital da petroleira soaria como música ao Palácio do Planalto. A operação poderia ser apresentada sob a bandeira da “desinternacionalização” da companhia: um volume expressivo de ações hoje em mãos estrangeiras passaria ao controle de empresários brasileiros, deslocando para o capital nacional parte da ingerência sobre os rumos da maior empresa do país. Haveria ainda o argumento da retenção de uma parcela dos dividendos atualmente remetidos ao exterior, com a possibilidade de reinvestimento desses recursos na própria economia brasileira. O RR entrou em contato com a JBS e com a J&F Investimentos, holding do grupo, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.

A Petrobras acrescentaria uma peça de enorme peso à ofensiva dos Batista no petróleo sul-americano. Por meio da Fluxus, o grupo já opera ativos na Argentina e na Bolívia e avançou sobre a Venezuela, onde adquiriu, em sociedade com a estatal PDVSA, 49% da Petrolera Roraima. O caso venezuelano é particularmente revelador de como os investimentos dos irmãos serpenteiam a geopolítica. Os negócios com a PDVSA se desenvolvem em meio ao confronto entre Washington e Caracas, no qual o petróleo é, ao mesmo tempo, objeto de cobiça econômica e instrumento de pressão política. Joesley chegou a transitar pelo epicentro dessa disputa. Em novembro de 2025, esteve na capital venezuelana para tentar persuadir Nicolás Maduro a renunciar, levando-lhe a mensagem de Donald Trump em favor de uma transição de poder. A iniciativa partiu do empresário, sem designação formal da Casa Branca. Enquanto a J&F ampliava sua presença no petróleo venezuelano, um de seus controladores se aventurava em uma negociação sobre o futuro político do país. A eventual entrada na Petrobras levaria essa movimentação à principal companhia petrolífera brasileira, ampliando o raio de ação dos Batista em uma indústria na qual as reservas de hidrocarbonetos são também instrumentos de poder.

A investida na estatal seria o lance mais contundente de um mosaico que ganha contornos cada vez mais nítidos. Os Batista vêm deslocando o centro de gravidade de seus negócios para atividades nas quais a fronteira entre mercado e Estado se torna progressivamente mais tênue. Da proteína animal, hoje tratada como questão de segurança alimentar — principalmente pelos norte-americanos —, aos minerais críticos, da geração nuclear à indústria de armamentos, o grupo procura ocupar posições em cadeias produtivas que os governos consideram essenciais aos interesses nacionais. Aos poucos, a J&F e o poder público parecem montar a maior “PPPE” (“Parceria Público-Privada Estratégica do Brasil”). Trata-se de uma sociedade de interesses, não necessariamente de capital, que se forma à medida que os irmãos avançam sobre atividades nas quais o Estado comparece como sócio, financiador, regulador ou comprador. A cartografia dos investimentos da holding coincide, de maneira cada vez menos casual, com o mapa dos interesses soberanos do Brasil ou, a depender do ângulo de observação, de suas vulnerabilidades: dependência externa no processamento de minerais críticos, insuficiência de investimentos na matriz energética, indefinição sobre o futuro nuclear e deterioração da base industrial de defesa. A disputa entre Estados Unidos e China, as guerras longevas, a corrida por recursos naturais e a escalada dos gastos militares conferem ainda mais valor a esses ativos. Joesley e Wesley parecem decididos a ocupar justamente os espaços em que a agenda econômica brasileira se cruza com as pretensões geopolíticas das grandes potências.

A diplomacia das terras raras

Na mineração, os Batista miram uma riqueza que vale tanto por sua aplicação industrial quanto pelo poder de barganha que confere a seus proprietários. As terras raras estão no centro da disputa entre Estados Unidos e China, com o Brasil na cobiçada condição de detentor de grandes reservas ainda pouco exploradas. A J&F pretende conquistar espaço na extração, mas sobretudo no beneficiamento e na separação desses elementos, etapas em que se concentram o domínio tecnológico, as maiores margens industriais e o controle sobre o abastecimento. Foi nesse terreno que Pequim construiu sua hegemonia. Washington tenta escapar dela.

Uma das alternativas em discussão é uma associação com a Vale. O RR já revelou conversações entre a mineradora e a J&F sobre possíveis investimentos conjuntos em terras raras (LEIA AQUI). Mas o ingresso da Petrobras no jogo pode mudar o movimento preliminar das peças no tabuleiro. Uma parceria com a Vale daria musculatura industrial ao projeto e permitiria ao presidente reivindicar o protagonismo brasileiro e negociar o processamento desses minerais. Agora, imaginem se a Petrobras, assim como estuda entrar em projetos de uma matriz energética renovável, criasse uma subsidiária para terras raras. Seria outro ponto de encontro entre os negócios da JBS e a agenda soberanista do Palácio do Planalto. Mas digamos que Donald Trump continue sendo um problema com suas diatribes, querendo um direito de preferência sobre os minerais críticos ou a extração sem transferência de tecnologia. Os Batista são hoje o ponto de interseção nessa diplomacia das terras raras. Sentam à mesa com Trump e Lula como se os dois fossem um só. Mais um ponto a favor da dupla.

Sócios nucleares do Estado

Na energia, a grande “PPPE” já tem contornos mais concretos. Os Batista espalharam a Âmbar pelos mais diversos eixos da transição energética, da geração termelétrica e hidrelétrica à energia solar, à biomassa, ao biogás e à distribuição de eletricidade. O portfólio anunciado pelo grupo reúne 59 ativos e mais de 6,3 GW de capacidade, consideradas também unidades em processo de aquisição. A empresa figura entre as maiores geradoras privadas do país e passou a controlar igualmente a distribuição de eletricidade em dois estados da Região Norte. Mas o salto de maior significado estratégico veio com a entrada na Eletronuclear. A Âmbar detém 68% do capital total da companhia; a União preserva o comando por meio da ENBPar. Os Batista tornaram-se, assim, sócios do Estado brasileiro em uma das atividades mais sensíveis à soberania nacional. Sob o mesmo teto societário, capital privado e poder público se encontram em decisões que envolvem tecnologia nuclear, segurança nacional e compromissos internacionais do Brasil. É talvez a expressão mais acabada da grande “PPPE” que os irmãos vêm construindo.

A associação surge também como um possível propulsor para a retomada de Angra 3, cuja construção se arrasta há décadas entre paralisações, impasses financeiros e indefinições políticas. E não só. No entorno do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, já se cogita ressuscitar o plano de construção de pequenas usinas nucleares com participação dos Batista. Uma eventual participação na Petrobras completaria um arco de influência que se estenderia por praticamente toda a matriz energética brasileira, do petróleo e do gás à geração de eletricidade. E por que não as terras raras?

O arsenal dos Batista

Na indústria de defesa, a aproximação entre negócios privados e interesses soberanos é ainda mais evidente. A aquisição da Avibras, por meio da Globe Investimentos, levou os Batista a um mercado em que o Estado é o principal cliente, responsável também por definir prioridades tecnológicas, programas de compras e condições de exportação. Os novos controladores assumiram uma fabricante de mísseis, foguetes e sistemas de artilharia que passou anos praticamente imobilizada por dificuldades financeiras. Compraram, porém, um acervo tecnológico de difícil reprodução, relações comerciais cultivadas ao longo de décadas e uma capacidade industrial cuja recuperação interessa diretamente às Forças Armadas.

A investida na Avibras, não por coincidência, se coaduna com a promessa de Lula de ampliar os investimentos militares e fortalecer a indústria nacional de defesa. Em 2025, o Brasil destinou apenas 1,1% do PIB a gastos militares, menos da metade da média mundial de 2,5%. O contraste é ainda mais acentuado pelo peso das despesas de pessoal no orçamento das Forças Armadas, que comprime os recursos disponíveis para equipamentos e novos projetos. O governo dispõe agora de um instrumento para reduzir essa defasagem: uma lei sancionada por Lula prevê R$ 30 bilhões para projetos estratégicos de defesa ao longo de seis anos, com desembolsos anuais de R$ 5 bilhões fora dos limites do arcabouço fiscal. É pouco, mas já é uma sinalização.

A Imbel poderá ser a próxima aposta dos Batista. Vinculada ao Exército, a estatal produz armamentos, munições e explosivos, mas sofre com restrições financeiras e a dependência de aportes públicos. Uma associação com a Avibras não partiria do zero: as empresas já firmaram um memorando de entendimento para cooperação industrial e comercial. O RR também revelou discussões anteriores sobre uma possível combinação entre os dois fabricantes. Sob o comando dos irmãos, a equação ganharia outra configuração. Em vez de uma empresa privada em dificuldades buscar abrigo no Estado, seria o capital privado a oferecer uma alternativa de capitalização e expansão para uma companhia historicamente ligada ao Exército. Os militares têm um apego quase patrimonial à Imbel. Mas talvez esteja na hora de demonstrarem mais apego ao futuro da empresa do que ao seu passado.

Ao reunir sob sua influência ativos ligados à energia, à mineração e à defesa, os Batista procuram tornar-se parceiros incontornáveis do Estado em decisões que dizem respeito à soberania nacional. A eventual entrada na Petrobras daria outra escala a essa aproximação. A grande “PPPE” do capitalismo brasileiro dispensaria um contrato que a instituísse. Sua força estaria na multiplicidade de vínculos entre o conglomerado e o poder público, capazes de atravessar governos e sobreviver a diferentes agendas políticas. Joesley e Wesley não querem apenas participar dos negócios do país. Ambicionam uma posição a partir da qual seja cada vez mais difícil decidir os rumos estratégicos do Brasil sem levá-los em conta. Podemos estar prestes a assistir a uma “Petrobatista”.

https://relatorioreservado.com.br/noticia/211234

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