Alocação em bolsa por fundos de pensão cai de 34% para 4,7% em 13 anos

Proporção de títulos atrelados a juros sobe de 56% para 86,2%

Por Adriana Cotias , Valor — São Paulo

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21/10/2026 09h46 Atualizado há 21 horas

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Em pouco mais de uma década, os fundos de pensão derrubaram a alocação em ações e classes alternativas para investir mais em renda fixa. A parcela da carteira em bolsa recuou de 34% em 2013 para 4,7% na sondagem atual, enquanto a proporção de títulos atrelados a juros subiu de 56% para 86,2%. Os dados constam no Raio-X de Investimentos das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC), apresentada nesta quarta-feira no 47º Congresso Brasileiro de Previdência Privada (CBPP).

Na pesquisa, feita em conjunto com a Itajubá Investimentos, foram coletadas informações de 12 mil participantes, entre 12 de agosto e 13 de outubro de 2026. No conjunto, as entidades reúnem R$ 461 bilhões, o equivalente a 34% dos ativos do sistema — 74% têm mais de R$ 1 bilhão. Metade da amostra é formada por fundos patrocinados por empresas privadas, 28% por entes públicos e 15% de economia mista.

“Quando se olha o Brasil versus as principais indústrias de pensão do mundo, a alocação é muito discrepante. Considerando-se as sete maiores, a que tem a menor parcela em ações é a do Reino Unido, com 25%, é uma distância muito grande”, observa Carlos Garcia, sócio-fundador da Itajubá. A Inglaterra também é o país com mais dinheiro em renda fixa, com fatia de 56%, valor que se compara aos 86% do mercado brasileiro.

O mapeamento ainda captura que a gestão passiva ganhou relevância na renda variável, passando de 15% para 36% entre 2013 e 2026, num segmento que encolheu. De cada R$ 10 na renda fixa, R$ 9 estão em títulos públicos, com as Notas do Tesouro Nacional série-B (NTN-B) como principal ativo em todos os tipos de plano. Os papéis compunham, ao fim de 2025, 76% dos de benefício definido, 53% nos de contribuição definida e 70% nos de contribuição variável.

Com a autorização dada pelo regulador, no fim de 2024, para marcação dos títulos de longo prazo na curva — acruando as taxas no tempo — e não mais a valor de mercado, a exposição a papéis de emissão do Tesouro com vencimento acima de cinco anos voltou a aumentar. A parcela que era de 35% em 2013 e caiu a 14% em 2023, neste último recorte chega a 51%. Pela decisão do Conselho Nacional de Previdência Complementar (CNPC), os fundos têm até 31 de dezembro para reclassificar o seu estoque.

Além do empurrão regulatório, o ambiente macroeconômico de juros altos proporcionou essa situação, diz Garcia. “No Brasil, a possibilidade de se investir num título acima da meta atuarial é uma facilidade grande. E o país tem uma coisa rara no mundo, que são títulos públicos indexados à inflação, que representam cerca de um quarto da dívida indexada.”

Ele cita que os fundos de pensão rodam em geral com meta atuarial entre 4,5% e 5% acima do IPCA , e ter acesso a opções que pagam 7,5% a 8% nos últimos anos sugou os recursos do setor. Em outros países, como a Holanda, a indústria busca esse tipo de retorno no crédito privado.

“Na prática, essa estratégia permite o que chamamos de imunização das carteiras, ou seja, uma maior proteção dos recursos necessários para honrar os compromissos futuros com o pagamento de benefícios”, afirma João Ferreira, diretor vice-presidente responsável pela área de investimentos da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp).

Ele menciona outro fator como relevante, que é a maturidade do sistema de previdência complementar. “Hoje, os fundos de pensão pagam mais benefícios do que recebem em contribuições.” Isso significa que a gestão precisa garantir o pagamento dessas rendas com estabilidade e menor volatilidade. “A concentração em renda fixa não é apenas uma resposta aos juros elevados, mas também está relacionada aos compromissos previdenciários.”

Em papéis privados, a preferência tem sido pelos títulos de emissão bancária em todos os planos, com parte da carteira em Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) e Letras Financeiras (LF). A fatia em debêntures caiu de 47% para 19% nos planos de contribuição definida, entre 2023 e 2026. “Nas políticas de investimentos, quando falam de crédito privado, a exigência é a empresa ter rating de ‘investment grade’, mas para investir 86% em alguém que não tem essa classificação [o Tesouro Nacional] estão confortáveis”, observa Garcia.

Nas políticas de investimentos, a pesquisa aponta uma intenção crescente de ampliar investimentos em ações e ativos no exterior nos próximos três anos.

Para Ferreira, uma retomada de investimentos na bolsa, private equity e outras classes alternativas depende da queda estrutural dos juros de mercado, com as taxas reais se aproximando das metas atuariais dos fundos.

“Enquanto os títulos públicos oferecerem retornos significativamente superiores a essas taxas, as entidades encontram condições muito favoráveis para cumprir suas obrigações previdenciárias com menor exposição ao risco”, diz. À medida que essa diferença diminuir, os fundos de pensão terão maior necessidade de buscar alternativas de investimento capazes de proporcionar retornos superiores aos oferecidos pelos títulos públicos.”

Investimento responsável

O Raio-X das EFPCs capturou como estava a disposição dos participantes para investimentos com foco em responsabilidade ambiental, social e de governança (ESG, na sigla em inglês).

Uma fatia de 54% dos entrevistados disse considerar esses aspectos na seleção de ativos. Desse conjunto, 29% têm políticas formalizadas com esse propósito. O filtro é usado principalmente para eleger ativos de renda variável (71%), crédito privado e renda fixa (67%) e imobiliário (33%).

O questionário foi lançado antes da portaria Previc nº 728/2026, de 17 de setembro, que torna obrigatório o plano ESG nos investimentos das EFPCs, com aprovação até o fim de junho de 2027 (grupos S1 e S2) e o fim de março de 2028 (S3 e S4).

Carlos Garcia, sócio-fundador da Itajubá Investimentos — Foto: Divulgação

https://valor.globo.com/financas/noticia/2026/10/21/alocao-em-bolsa-por-fundos-de-penso-cai-de-34-pontos-percentuais-para-47-em-13-anos.ghtml

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