O passivo invisível dos planos de contribuição definida

Transição traz um risco ainda pouco discutido: a frustração dos participantes com a renda obtida na aposentadoria

Os planos de contribuição definida (CD) representam uma parcela minoritária do patrimônio da indústria de previdência fechada, mas tendem a se tornar predominantes no futuro não muito distante. Essa transição traz um risco ainda pouco discutido: a frustração dos participantes com a renda obtida na aposentadoria.

Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!

Em grande medida, esse risco decorre de uma mudança na gestão dos planos de previdência. Enquanto os de benefício definido (BD) são estruturados a partir do compromisso de pagar benefícios futuros, nos planos CD, na ausência desse passivo explícito, o foco migra para o desempenho dos ativos.

A renda futura deixa de ocupar o centro da discussão, e ganham relevância métricas de curto prazo, como retorno e volatilidade em relação ao CDI. O participante acompanha o saldo acumulado, mas não sabe se está formando patrimônio suficiente para sustentar o padrão de vida na aposentadoria. Já nos planos BD, ocorre quase o oposto: os participantes raramente sabem o valor de suas reservas, mas sabem exatamente a renda mensal que receberão ao se aposentar.

O compromisso de renda futura, embora não apareça no balanço da entidade, não desaparece – apenas se desloca para a expectativa do participante. É um passivo invisível. Ninguém o mensura, monitora ou gere, até que ele se materializa no momento da aposentadoria, com o saldo sendo convertido em benefício.

Um exemplo ajuda a ilustrar o problema de abandonar o objetivo de garantir uma determinada renda futura. Imagine alguém que deseje se aposentar em 2065 com renda mensal de R$ 10 mil, corrigida pela inflação, durante vinte anos. Em janeiro de 2023, era possível contratar essa renda futura por cerca de R$ 100 mil por meio do Tesouro Renda+ 2065. Um investidor preocupado com sua aposentadoria tenderia a enxergar esses papéis como instrumento de proteção da renda futura. Já um investidor focado na estabilidade do patrimônio corrente – e desconfortável com a volatilidade dos títulos – poderia preferir a aparente segurança do CDI. A razão para essa visão distinta é simples. O preço desses títulos oscila no curto prazo, apesar de a renda futura contratada permanecer a mesma.

O exemplo também mostra que a visão focada no patrimônio corrente pode levar a perdas. Em julho de 2023, com a queda dos juros reais, a mesma renda futura, representada pelo Renda+ 2065, passou a custar mais de R$ 150 mil. Quem estava alocado no CDI viu seu patrimônio crescer de forma estável, mas descobriu que sua aposentadoria havia ficado muito mais cara.

O problema não se limita ao descasamento entre patrimônio e renda futura. Em horizontes longos, ativos mais aderentes à construção de renda previdenciária – como NTN-Bs e o Tesouro Renda+ – tenderam a entregar retorno superior ao CDI. Nos últimos vinte anos, o CDI acumulou retorno equivalente a aproximadamente 70% do IMA-B5+, índice composto por NTN-Bs de diferentes vencimentos. O investidor excessivamente concentrado em CDI não apenas ficou mais exposto ao encarecimento da aposentadoria, como também acumulou menos patrimônio no longo prazo.

A experiência internacional mostra o custo de ignorar esse problema, e o exemplo do Chile é o mais emblemático. Durante décadas, os participantes foram levados a acompanhar a rentabilidade de seus fundos, e não a renda que aquele patrimônio sustentaria na aposentadoria. Quando os primeiros se aposentaram, muitos descobriram que a renda efetiva ficava muito abaixo das expectativas. O resultado foi uma profunda crise de confiança no sistema previdenciário chileno.

Ciente desses desafios, a Austrália seguiu por um caminho distinto e implementou em 2022 o “Retirement Income Covenant”. O modelo exige que todo investimento e comunicação dos fundos de pensão explicite a renda futura e a geração dos riscos associados.

No Brasil, não seria necessária mudança legislativa para avançar nessa direção. Gestores já poderiam incorporar metas de renda futura à gestão dos planos CD e reorientar a comunicação com os participantes, aproximando-a daquela adotada nos planos BD. Participantes de planos CD deveriam saber, a todo momento, qual renda podem esperar na aposentadoria e se o patrimônio acumulado segue compatível com esse objetivo. Caso contrário, o gestor sugeriria ajustes de contribuição, prazo ou alocação de ativos ao longo do tempo, em lógica semelhante à dos equacionamentos de déficit dos planos BD.

Se os planos CD continuarem medindo sucesso apenas pelo saldo acumulado e pela volatilidade de curto prazo, corremos o risco de formar uma geração de participantes frustrados com a renda obtida na aposentadoria. A boa notícia é que a indústria já dispõe dos instrumentos financeiros, atuariais e tecnológicos necessários para enfrentar esse problema. Falta apenas direcioná-los de forma consistente para assegurar renda sustentável na aposentadoria.

Ruy Ribeiro é sócio da consultoria Atlantiqis e professor do Insper

Victor Tito é economista
E-mail: ruy.ribeiro@atlantiqis.com

Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

https://valor.globo.com/financas/coluna/o-passivo-invisivel-dos-planos-de-contribuicao-definida.ghtml

INTELLIGENTSIA DISCREPANTES

Não perca nossas informações!

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.


Descubra mais sobre Intelligentsia Discrepantes

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Descubra mais sobre Intelligentsia Discrepantes

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo