Fun­dos de pen­são ele­vam apli­ca­ções em títu­los p úbli­cos



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Para Pre­vic, Selic em pata­mar ele­vado levou apli­ca­ções em renda fixa das fun­da­ções a 80%, enquanto inves­ti­men­tos em ações alcan­çam somente 7,8%

Edna Simão e Gior­danna Neves

11 maio 2026

Os juros ele­va­dos no país têm con­tri­bu­ído para a con­cen­tra­ção cada vez maior dos inves­ti­men­tos de fun­dos de pen­são em títu­los públi­cos fede­rais. No fim do ano pas­sado, essas apli­ca­ções repre­sen­ta­vam 69,3% do total, ante 42,7% em 2010. Neste mesmo perí­odo, a fatia das ações recuou de 32,9% para 7,8%. Os dados são da Supe­rin­ten­dên­cia Naci­o­nal de Pre­vi­dên­cia Com­ple­men­tar (Pre­vic). Esse com­por­ta­mento está dire­ta­mente ligado à esca­lada da taxa Selic, que saiu de 10,75% em 2010 para 15% ao ano em 2025. Ricardo Pena, dire­tor-supe­rin­ten­dente da Pre­vic, diz que está pre­o­cu­pado com a baixa diver­si­fi­ca­ção das car­tei­ras das fun­da­ções. Segundo o exe­cu­tivo, mesmo com o iní­cio do ciclo de corte dos juros, não há pedi­dos de mudança nos port­fó­lios para os pró­xi­mos anos.

A ele­vada taxa básica de juros (Selic) no país vem con­tri­bu­indo para a con­cen­tra­ção cada vez maior dos inves­ti­men­tos de fun­dos de pen­são em títu­los públi­cos fede­rais. No fim do ano pas­sado, esses inves­ti­men­tos repre­sen­ta­vam 69,3% do total, ante 42,7% em 2010. Neste mesmo perí­odo, as apli­ca­ções em ações recu­a­ram de 32,9% para 7,8%. Os núme­ros são da Supe­rin­ten­dên­cia Naci­o­nal de Pre­vi­dên­cia Com­ple­men­tar (Pre­vic), órgão vin­cu­lado ao Minis­té­rio da Pre­vi­dên­cia Social e res­pon­sá­vel por super­vi­si­o­nar e fis­ca­li­zar as enti­da­des fecha­das de pre­vi­dên­cia com­ple­men­tar. Esse com­por­ta­mento está dire­ta­mente ligado à evo­lu­ção da taxa Selic, que saiu de 10,75% em 2010 para 15% ao ano no fim de 2025.

Dire­tor-supe­rin­ten­dente da Pre­vic, Ricardo Pena disse em entre­vista ao Valor que está pre­o­cu­pado com a baixa diver­si­fi­ca­ção das car­tei­ras dos fun­dos de pen­são. Pena acre­dita que, mesmo com a pers­pec­tiva da queda de juros, não há pedi­dos de mudança nos port­fó­lios para os pró­xi­mos anos. Atu­al­mente, a Selic está em 14,5% ao ano.

Con­si­de­rando todas as apli­ca­ções em renda fixa, não ape­nas os títu­los públi­cos fede­rais, os inves­ti­men­tos de fun­dos de pen­são supe­ra­ram a marca de 80% em 2025. “No mundo inteiro, bus­cam-se ati­vos de risco que pos­sam equi­li­brar a ren­ta­bi­li­dade. Esse é o X da ques­tão no momento”, res­salta o supe­rin­ten­dente da Pre­vic.

Ape­sar da pre­o­cu­pa­ção, Pena des­taca que os limi­tes esta­be­le­ci­dos pelo Con­se­lho Mone­tá­rio Naci­o­nal (CMN) — que per­mite até 100% dos inves­ti­men­tos em títu­los públi­cos e até 80% em títu­los de ins­ti­tui­ções finan­cei­ras — estão sendo cum­pri­dos. Em renda vari­á­vel, o teto é de 70%, mas a alo­ca­ção ficou em 7,5% em 2025.

O supe­rin­ten­dente da Pre­vic tam­bém afirma que as fun­da­ções fica­ram aves­sas a cer­tos inves­ti­men­tos, como em fun­dos de inves­ti­mento em par­ti­ci­pa­ções (FIPs), após a Ope­ra­ção Gre­en­fi­eld, defla­grada em 2016 pela Polí­cia Fede­ral (PF) para inves­ti­gar irre­gu­la­ri­da­des pra­ti­ca­das con­tra fun­dos de pen­são.

Pena res­salta que, com a pers­pec­tiva de redu­ção da Selic, os fun­dos de pen­são já deve­riam estar ade­quando suas polí­ti­cas de inves­ti­mento para os pró­xi­mos cinco anos. Esse movi­mento, no entanto, não está sendo cap­tado pela Pre­vic, res­pon­sá­vel pela fis­ca­li­za­ção do setor, nas revi­sões anu­ais.

Segundo ele, os fun­dos de pen­são não tomam deci­sões que têm efeito ime­di­ato. Por isso, há a neces­si­dade de uma diver­si­fi­ca­ção gra­dual. “É como se eu esti­vesse num tran­sa­tlân­tico: pre­ciso mexer [ajus­tar a car­teira de inves­ti­men­tos] deva­gar­zi­nho, olhando o cená­rio para os pró­xi­mos cinco anos”, afirma. “O que nos pre­o­cupa é como vamos sair dessa con­cen­tra­ção.

“Sina­li­za­ção de queda da taxa de juros já che­gou, e os diri­gen­tes estão acom­pa­nhando isso com muita aten­ção” Deva­nir Silva

O juro real, que hoje ainda está ele­vado no Bra­sil, vai come­çar a cair, e as fun­da­ções já pre­ci­sa­riam estar se repo­si­ci­o­nando para os pró­xi­mos cinco anos.”

Pena disse ainda que, até julho, deve­rão ser divul­ga­das as novas regras para os fun­dos de pen­são, que exi­gem que a estra­té­gia de inves­ti­men­tos tenha como ele­mento cen­tral os cri­té­rios ESG (sigla em inglês para polí­ti­cas ambi­en­tal, social e de gover­nança). “As enti­da­des vão ter que adap­tar suas polí­ti­cas de inves­ti­mento para incor­po­rar esses cri­té­rios”, frisa.

Em 2025, de acordo com a Pre­vic, o setor obteve supe­rá­vit de R$ 17 bilhões, o melhor resul­tado desde 2013 (quando o saldo posi­tivo foi de R$ 18 bilhões), rever­tendo um défi­cit de R$ 10 bilhões apu­rado em 2024. No ano pas­sado, a ren­ta­bi­li­dade média anual foi de 13,23%. Os pla­nos de con­tri­bui­ção defi­nida tive­ram a maior ren­ta­bi­li­dade, de 14,20%, em média.

O dire­tor-pre­si­dente da Asso­ci­a­ção Bra­si­leira das Enti­da­des Fecha­das de Pre­vi­dên­cia Com­ple­men­tar (Abrapp), Deva­nir Silva, con­si­dera que a pre­o­cu­pa­ção sobre a diver­si­fi­ca­ção é justa, mas afirma que os ges­to­res dos fun­dos não estão “iner­tes”. Segundo ele, a ten­dên­cia de queda dos juros deve, real­mente, aumen­tar o ape­tite por risco, embora a migra­ção para ati­vos mais arris­ca­dos, espe­ci­al­mente em renda vari­á­vel, ocor­rerá de forma gra­dual.

“Com essa taxa de juros no pata­mar em que está, e em rela­ção à neces­si­dade atu­a­rial, você leva real­mente a uma con­cen­tra­ção em títu­los públi­cos”, diz. A neces­si­dade atu­a­rial é uma espé­cie de cál­culo para man­ter o equi­lí­brio finan­ceiro dos fun­dos pre­vi­den­ci­á­rios no longo prazo.

“Nós temos uma neces­si­dade atu­a­rial em torno de 4,5%, 5% [por ano] e uma NTN-B ren­dendo 7, 8% [em ter­mos reais por ano]. Eu diria que é uma situ­a­ção atí­pica, mas tam­bém tem­po­rá­ria. A sina­li­za­ção de queda da taxa de juros já che­gou, e os diri­gen­tes estão acom­pa­nhando isso com muita aten­ção”, diz.

Silva afirma ainda que é neces­sá­rio ampliar a segu­rança jurí­dica dos ges­to­res de fun­dos de pen­são, com a atu­a­li­za­ção do decreto de 2003 que regu­la­menta os pro­ces­sos admi­nis­tra­ti­vos para apu­ra­ção de infra­ções no regime de pre­vi­dên­cia com­ple­men­tar. Ele tam­bém aponta a exis­tên­cia de sobre­po­si­ção de com­pe­tên­cias entre a Pre­vic e o Tri­bu­nal de Con­tas da União (TCU) na fis­ca­li­za­ção dos gran­des fun­dos esta­tais, o que eleva a incer­teza e traz uma “dupla fis­ca­li­za­ção sem coor­de­na­ção pré­via”.

“Tudo isso con­tri­bui para uma reserva em rela­ção à tomada de risco. Eu vejo como uma coisa natu­ral você apro­vei­tar as opor­tu­ni­da­des que o mer­cado ofe­rece, e hoje a taxa de juros está ofe­re­cendo. Não é uma situ­a­ção con­for­tá­vel para nin­guém, mas os ges­to­res estão aten­tos. Se nós cami­nhar­mos para ter­mos maior segu­rança, evi­tar­mos o som­bre­a­mento, tiver­mos um regime san­ci­o­na­dor moder­ni­zado, isso pode­ria favo­re­cer mais os nos­sos ges­to­res”, comenta.

O estra­te­gista-chefe de macro e dívida pública da War­ren Inves­ti­men­tos, Luis Felipe Vital, afirma que os juros ele­va­dos ao longo de toda a curva — com a Selic ainda res­tri­tiva e taxas lon­gas pres­si­o­na­das pelo baixo cres­ci­mento e pelo qua­dro fis­cal — aju­dam a expli­car a forte con­cen­tra­ção das car­tei­ras dos fun­dos de pen­são em títu­los públi­cos e a redu­ção no incen­tivo à diver­si­fi­ca­ção.

“Isso fre­quen­te­mente resulta em alo­ca­ções ine­fi­ci­en­tes, con­cen­tra­das e com pouca expo­si­ção a mer­ca­dos rele­van­tes. Na maior parte dos casos, os recur­sos dos fun­dos de pen­são per­mi­tem hori­zon­tes de inves­ti­mento mais lon­gos e pode­riam finan­ciar seto­res impor­tan­tes da eco­no­mia bra­si­leira, como a infra­es­tru­tura, ao mesmo tempo em que garan­tem retor­nos com­pa­tí­veis com esse hori­zonte e nível de risco para os par­ti­ci­pan­tes”, diz.

Segundo Vital, à medida que a situ­a­ção macro­fis­cal per­mi­tir taxas de juros em níveis mais bai­xos, esse pro­cesso de diver­si­fi­ca­ção das car­tei­ras tende a se apro­fun­dar, via­bi­li­zando a migra­ção des­ses recur­sos. “Do ponto de vista regu­la­tó­rio e de gover­nança, é impor­tante ter­mos os regra­men­tos, polí­ti­cas e con­tro­les pre­pa­ra­dos para essa tran­si­ção”, acres­centa.

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