Felipe Freitas teve cargo de alta gestão na estatal durante governo Bolsonaro, e sua indicação, atribuída à FUP, causa mal-estar na companhia
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!Desde que a gestão petista começou, a FUP já patrocinou várias nomeações para postos estratégicos na companhia. Um deles foi o sindicalista e ex-candidato a deputado federal pelo PT José Maria Rangel, para comandar a área de responsabilidade social e administrar um orçamento de R$ 450 milhões . Prates também nomeou como assessores da presidência pessoas ligadas à FUP.
É a primeira vez, porém, que o poderoso sindicato se alia a um executivo da gestão passada para um cargo chave como a gerência de Recursos Humanos – responsável, por exemplo, pela assistência de saúde a cerca de 300 mil beneficiários com uma verba estimada em centenas de milhões de reais, o que garante à função alto capital político.
O escolhido pela federação, Felipe Freitas, foi gerente-geral de saúde suplementar quando a petroleira era comandada por Roberto Castello Branco.
Antes de chegar à alta gestão da estatal, participou da administração do Complexo de Pituba, sede da empresa em Salvador. Na função, acumulou conflitos com sindicalistas e chegou a protagonizar uma briga envolvendo a proibição do acesso de sindicalistas ao complexo no governo Michel Temer. Em publicações dos sindicatos locais e postagens nas redes sociais, ele é tratado como assediador e associado ao bolsonarismo.
Nada disso impediu que a FUP trabalhasse pela nomeação – no que vem sendo definido por outra ala do sindicalismo petroleiro, comandada pela Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet) da Bahia, como um desvirtuamento do programa defendido por Lula para a empresa.
Desde que o nome de Freitas começou a ser lembrado para o posto, sindicalistas e associações de petroleiros têm feito campanha aberta contra ele.
Em um manifesto publicado em março, a direção baiana da Aepet já protestou contra o que ainda era apenas uma indicação. Mencionando o conflito na Bahia, disse que “não se pode premiar àqueles que tanto mal fizeram a empresa e se beneficiaram em um momento tenebroso da política nacional associando-se a golpistas, fascistas e privatistas para destruir a Petrobras e atacar covardemente a força de trabalho”, diz o texto.
Os opositores de Freitas também fizeram memes com uma lista de nomes de executivos de gestões anteriores nomeados por Jean Paul Prates, acompanhada pelo título: “Bolsonaro sai, bolsonaristas ficam”. Segundo fontes ouvidas pela equipe da coluna, incluindo duas pessoas que já trabalharam com Freitas na Petrobras, ele não escondia seu apoio a Bolsonaro e seu desapreço pelo sindicalismo.
Montagem crítica à indicação de supostos bolsonaristas na gestão Prates, incluindo Freitas, viralizou em grupos de petroleiros no WhatsApp — Foto: Reprodução
“Ele se portava como um grande crítico dos sindicatos e apoiador entusiasmado do Bolsonaro. Em reuniões internas, vivia metendo o malho nos sindicalistas e costumava dizer ‘pau para cima deles’ ao tratar sobre a resistência dos sindicatos aos projetos da então gestão”, relatou uma das fontes sob sigilo.
Por isso a aliança entre ele e a FUP, empoderada pela atual cúpula da Petrobras, causou grande estranheza na companhia.
Embora não se saiba exatamente em que termos a união foi selada, os relatos colhidos pela equipe do blog são de que a aproximação ocorreu ainda no governo Bolsonaro.
Isso porque tanto Freitas, que cuidava justamente dos planos de saúde da empresa, quanto a FUP, foram contra a substituição do plano que a companhia tinha à época, a Assistência Multidisciplinar de Saúde (AMS), pelo atual, o Saúde Petrobras.
Na avaliação de fontes que acompanharam o processo, Freitas teria feito oposição à mudança de plano por medo de perder o cargo sob o novo modelo.
A gerência do plano de saúde era vista como um posto estratégico pela visibilidade e influência junto aos funcionários e à rede credenciada.
Duas fontes afirmaram à equipe do blog que Freitas repassou informações internas dos planos aos sindicalistas durante o processo de discussão sobre o fim da AMS, mas nenhum inquérito foi aberto.
A resistência ao novo plano levou à destituição de Freitas pelo chefe, o então gerente do RH, Cláudio Costa. Depois disso, ainda no governo Bolsonaro, ele conseguiu uma licença sem vencimentos atípica para os padrões da Petrobras.
Isso porque o objetivo do afastamento temporário era cursar um mestrado de administração na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Só que, durante o ano em que passou no exterior, mesmo sendo funcionário concursado, ele trabalhou como gerente na Tesla – que também atua no setor energético e portanto é uma concorrente da Petrobras.
“A forma como foi feita é completamente fora da curva. A empresa abre mão de um ativo concursado ao conceder uma licença. Se você solicita uma para estudar mas passa a trabalhar para outra empresa do ramo, isso consiste em uma quebra de confiança gravíssima. Mas, na escolha dele, esse fato foi ignorado”, afirma um funcionário da Petrobras que optou por não se identificar.
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Até recentemente, Freitas compartilhava publicações oficiais da Tesla no LinkedIN, incluindo o recrutamento para vagas abertas. Segundo o perfil dele na rede social, ele se desligou da montadora em março, quando assumiu o novo cargo na Petrobras.
Nós procuramos a FUP para que a entidade comentasse a indicação, mas não houve retorno até o fechamento da reportagem.
Nós também procuramos a Petrobras para que tanto o gerente-executivo Felipe Freitas quanto a companhia se manifestassem. Em nota, a estatal não comentou se a nomeação foi patrocinada ou apoiada pela FUP.
A empresa apenas informou que conta com “um robusto sistema de avaliação para o ingresso de seus executivos”, o que inclui “análises do currículo acadêmico, experiência profissional e cumprimento de determinações legais”, e que Felipe Freitas teve a escolha “validada e aprovada” pela diretoria executiva. A companhia ressaltou ainda a passagem do funcionário pela gerência-geral na área de RH na gestão Castello Branco.
Questionada sobre a passagem de Freitas pela Tesla, a Petrobras limitou-se a reforçar que a licença era não remunerada e que o atual gerente-executivo ingressou na empresa estrangeira “ao final do programa de mestrado” para “atuar na área de suprimentos, com foco em produtos de aço para automóveis” – embora em seu perfil no LinkedIn Freitas afirme que atuou no setor energético da companhia presidida por Elon Musk.

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