FT: Como a Saudi Aramco planeja prolongar o uso de petróleo no mundo

À medida que se fortalece o argumento contra o uso de combustíveis fósseis, várias empresas petrolíferas ocidentais reavaliaram seu compromisso com o petróleo; empresa saudita, por sua vez, está dobrando a aposta

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Em Abqaiq, a maior unidade de processamento de petróleo do planeta, nada indica que o mundo possa estar chegando ao fim da era do petróleo. O complexo, a 40 quilômetros da costa do Golfo Pérsico, é do tamanho de 350 campos de futebol. Em uma das três salas de controle, cerca de dez funcionários da Saudi Aramco trabalham à frente de telas de computador monitorando um sistema capaz de processar nada menos que 7 milhões de barris de petróleo ao dia, o que representa 1 em cada 14 barris comercializados mundialmente.

À medida que se fortalece o argumento contra o uso de combustíveis fósseis, várias das maiores empresas petrolíferas ocidentais reavaliaram, nos últimos cinco anos, seu compromisso com o petróleo que alicerçou a economia global por mais de cem anos. A Aramco está fazendo o contrário: está dobrando a aposta.

A estatal, que já produz cerca de 10% do petróleo mundial, está aumentando a capacidade máxima de produção de 12 milhões de barris/dia para 13 milhões de b/d até 2027 e com meta de aumentar sua produção de gás em mais de 50% até 2030. A Aramco também investiu na produção de petroquímicos e em projetos de hidrogênio.

Em última análise, a maior produtora mundial de petróleo está apostando que poderá continuar a fazer o que faz melhor: extrair petróleo por muitas décadas e conquistar mais poder de mercado, num momento em que outras produtoras se retraem. “Temos mais em jogo do que a maioria em termos desse setor”, diz o diretor de tecnologia, Ahmad al-Khowaiter.

Funcionário de segunda geração da Aramco com formação na Universidade da Califórnia e no Massachusetts Institute of Technology (MIT), Al-Khowaiter é personagem-chave no esforço de “sustentabilidade” da empresa.

O argumento publicitário do grupo é de que ele tem capacidade de fornecer o barril de petróleo “de mais baixo carbono” do setor e que, enquanto o mundo precisar usar petróleo, esse petróleo deve ser o da Aramco.

No primeiro relatório de sustentabilidade de todos os tempos da empresa, publicado em junho, as expressões “de mais baixo carbono” e “o menor carbono” aparecem pelo menos 14 vezes nas 33 primeiras páginas. “Como você sabe, somos a menor emissora de gases-estufa por barril de petróleo entre as grandes produtoras, cerca de 10,7 quilos [de equivalência em CO2 por barril equivalente de petróleo]”, continua al-Khowaiter.

O aumento da produção de petróleo e da participação de mercado por parte da Aramco é, portanto, “melhor para o mundo”, argumenta o executivo. “As pessoas vão querer realmente que a menor emissora de carbono alcance uma fatia de mercado maior, porque isso vai reduzir a pegada total de carbono do setor petrolífero.”

Mas a questão sobre se o corte de emissões operacionais terá ou não impacto climático real se o mundo ainda estiver queimando milhões de barris de petróleo da Aramco é questionável. Em média, cerca de 85% das emissões ligadas a um barril de petróleo são produzidas durante a sua combustão e apenas 15% durante sua produção.

“Não dá para descarbonizar o petróleo, devido às emissões fundamentais do consumo final”, diz Michael Coffin, ex-geólogo da BP que é agora diretor de petróleo, gás e mineração do instituto de análise e pesquisa Carbon Tracker. “Isso é um mito.”

Sempre orgulhosa da contribuição ao desenvolvimento da Arábia Saudita contemporânea, a Aramco tenta casar o antigo e o novo. Os corredores de sua sede estão cobertos de fotos em preto e branco do passado, enquanto uma geração de sauditas jovens trabalham nas mais recentes tecnologias nas salas adjacentes.

Fundada em 1933 como uma sócia da Standard Oil dos EUA, a Aramco produziu seu primeiro petróleo em 1938. O governo saudita adquiriu 25% do capital da empresa em 1973 e assumiu seu pleno controle em 1980.

As concorrentes, como a americana ExxonMobil e a europeia Shell, têm carteiras globais de ativos de petróleo e gás, que elas podem reformular segundo as mudanças das prioridades políticas e comerciais. Os campos de petróleo da Aramco, por sua vez, ficam todos na Arábia Saudita, onde continuam sendo fundamentais para os planos econômicos do governo.

A empresa produziu mais de 145 bilhões de barris de petróleo desde que perfurou o primeiro poço bem-sucedido, mais de 80 anos atrás, e diz ter pelo menos 253 bilhões de barris em reservas comprovadas disponíveis no reino — o suficiente para atender a demanda global total por cerca de sete anos.

Numa notável mudança, em outubro de 2021 a Arábia Saudita prometeu baixar suas emissões para um líquido de zero até 2060 por meio de investimentos em energia renovável e em tecnologia de captura de carbono a fim de reduzir as emissões geradas por seus campos de petróleo. O governo, no entanto, não tem planos de reduzir a produção de hidrocarbonetos.

Na verdade, transferir a geração de energia doméstica para fontes renováveis terá a vantagem adicional de liberar mais petróleo para exportação e, assim, de gerar mais receita para o reino, segundo o ministro da Energia, o príncipe Abdulaziz bin Salman. “É uma situação muitíssimo vantajosa para todos os lados”, disse ao FT em 2022.

Investimentos em energia limpa são parte de um plano ambicioso do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman de modernizar o país conservador. Mas, para financiar cada megaprojeto, ele precisa que os petrodólares continuem a fluir, ao mesmo tempo em que ele tenta diversificar a economia.

Em decorrência disso, a Aramco está ainda mais concentrada do que seus concorrentes em maximizar a longevidade de seus campos.

Em 2021, a Aramco tinha 864 patentes concedidas pelo Escritório de Patentes dos EUA, a maioria delas cobriam inovações em tecnologia “de subsuperfície” criada para melhorar a eficiência de sua produção de petróleo e prolongar a vida de seus campos, diz al-Khowaiter. Esse total é um número de patentes entre duas e três vezes maior do que a segunda colocada nesse ranking, estima ele.

O elevado número de patentes também reflete o envolvimento da Aramco em todas as fases da cadeia de suprimentos do hidrocarboneto, desde a prospecção até o refino e a distribuição — uma característica que, segundo a empresa, será uma vantagem na medida em que crescem as exigências de divulgação de informações sobre emissões da parte de órgãos reguladores e de clientes.

“Você vai ver nossa capacidade de rastrear cada gota de petróleo, cada pé cúbico de gás, desde a origem até o ponto de venda saudita, pelo menos”, diz al-Khowaiter. Comparativamente, em partes do setor de petróleo e gás americano, por exemplo, diferentes empresas estão envolvidas na produção, transporte e liquefação, diz ele. “Isso nos dá uma vantagem porque podemos nos comprometer, com uma precisão muito grande, com as pegadas de carbono que geramos para os nossos produtos.”

Parte dos esforços para reduzir as emissões operacionais por todas as operações da Aramco são fáceis de identificar. Em Abqaiq são usados drones para checar os equipamentos e detectar possíveis vazamentos de metano, um gás-estufa que é o segundo maior contribuinte para a mudança climática após o dióxido de carbono.

Na unidade de recuperação de líquidos de gás natural de Hawiyah, a 150 quilômetros mais ao sul, o primeiro projeto de captura e sequestro de carbono (CCS, nas iniciais em inglês) do reino recolhe dióxido de carbono e o reúsa para ampliar a recuperação de petróleo em parte do vizinho campo de petróleo de Ghawar, o maior do mundo.

Reforçar o uso de tecnologia de CCS é fundamental para a estratégia da Aramco. A unidade de Hawiyah, que abriu em 2015, tem hoje capacidade para capturar cerca de 800 mil toneladas de CO2 ao ano. A Aramco tem como meta capturar 11 milhões de toneladas, no total de suas unidades, até 2035, que poderão ser usadas para a fabricação de produtos químicos, plásticos e polímeros, diz.

Em última instância, argumenta a Aramco, seus barris de “carbono mais baixo” receberão um preço maior no futuro do que barris concorrentes, com um volume maior de emissões associadas.

“Se você tem de compensar as emissões associadas a esse petróleo, esse é um custo de compensação menor, também há economia por trás disso”, diz al-Khowaiter. “Acreditamos que, na medida em que… criarmos produtos que são de emissões menores, com créditos compensados de carbono, isso vai se tornar ainda mais atraente.”

Alguns especialistas concordam com Al-Khowaiter. “Salvo quaisquer obstáculos políticos, a Saudi Aramco será a última produtora de petróleo a se manter” (em operação), diz Valérie Marcel, especialista em petrolíferas nacionais da Chatham House. “”Eles têm os custos mais baixos e, agora, as emissões mais baixas. Evidentemente trata-se de um barril de petróleo que tem um lugar mais justo nos mercados internacionais.”

No entanto, apesar do compromisso da empresa em reduzir o carbono gerado por suas operações, as emissões absolutas dos ativos totalmente controlados pela Aramco praticamente continuarão as mesmas entre a data atual e 2035, segundo seu próprio relatório de sustentabilidade.

As operações da Aramco e a energia consumida por elas emitiram 68 milhões de toneladas de carbono em 2021. Em 2035, essas emissões, conhecidas como as emissões de âmbito 1 e de âmbito 2, deverão ser de 67 milhões de toneladas, segundo previsões.

A Aramco diz que, sem mitigação, essas emissões aumentariam para 119 milhões de toneladas de equivalência em CO2 até 2035, em vista de seus planos de aumentar a produção de petróleo e gás ao longo do período. Os planos para “mitigar” esse crescimento significam que a “intensidade de carbono” de seus produtos de petróleo e gás cairão, então, em 19%, no decorrer do período, de 10,7 quilos de equivalência em CO2 por barril equivalente de petróleo para cerca de 8,7 quilos, diz. Comparativamente, a intensidade de carbono dos projetos de petróleo e gás da Chevron em 2021 foi de 28,6 quilos, enquanto a da BP foi de 15,5 quilos.

A Carbon Tracker, que analisa o impacto da transição energética sobre as produtoras de combustíveis fósseis, descreveu o relatório de sustentabilidade da Aramco como “carregado em retórica e leve em substância”.

Até para avaliar a conformidade de uma empresa com as metas do Acordo de Paris de 2015, o instituto diz que as metas da empresa têm de ser fixadas com base em redução absoluta das emissões, incluir o carbono produzido quando os produtos forem levados à combustão pelo consumidor, conhecido como emissões de âmbito 3, e cobrir todas as vendas e a produção da empresa.

“As metas da Aramco não cumprem qualquer dos três dos nossos parâmetros, que vemos como pré-requisitos para as metas climáticas serem potencialmente alinhadas com [o Acordo de] Paris”, diz Coffin, da Carbon Tracker.

Ele vê o argumento da Aramco de que seus barris são “de mais baixo carbono” do que outros como manobra diversionista, acrescentando que a média das emissões de âmbito 3 de um barril de petróleo é de 430 quilos de equivalência em CO2. Reduzir as emissões operacionais à metade apenas diminuirá o total das emissões de carbono de um barril em 7%, diz. “Isso é envolver-se pela metade e ignorar o fato incômodo, mas inegável, de que você está, quer queira, quer não, queimando petróleo.”

A Aramco, no entanto, não é a única produtora de petróleo que não fixou metas de âmbito 3. A Exxon não tem meta de âmbito 3, enquanto a Shell e a Chevron se comprometeram apenas em reduzir as emissões do consumidor final em termos de “intensidade de carbono” — uma medida relativa, que permite que o carbono produzido pelo petróleo e o gás seja compensado no comparativo com produtos energéticos de baixo carbono e de carbono zero de uma empresa.

A Agência Internacional de Energia (AIE) prevê que a demanda mundial por petróleo poderá cair a partir dos atuais mais de 100 milhões de b/d, para 24 milhões de b/d em 2050, se o mundo for bem-sucedido em cortar as emissões para um líquido de zero até então. Em contraposição, a Aramco diz que a transição energética evoluirá a um ritmo diferente em mercados diferentes, e que perdurará a necessidade de usar seus hidrocarbonetos “bem além de 2050”.

“Só produzimos petróleo porque as pessoas querem comprá-lo, portanto cabe aos países decidir como querem administrar isso”, diz Olivier Thorel, vice-presidente da Aramco de produtos químicos e hidrogênio. Enquanto houver demanda, acrescenta, a Aramco visará atendê-la “de uma maneira confiável.”

É um argumento que encontrou novo respaldo da parte de governos e de investidores nos últimos 12 meses, após a invasão da Ucrânia pela Rússia ter subvertido totalmente os mercados energéticos, fazendo com que os países europeus corressem para garantir fontes alternativas de abastecimento de combustíveis fósseis.

Em maio, a Aramco reivindicou para si, por pouco tempo, o título da Apple de empresa mais valiosa do mundo, num momento em que seu valor de mercado disparou para US$ 2,426 trilhões, após a alta dos preços do petróleo.

Na mais recente reunião COP sobre o clima, no Egito, autoridades sauditas mantiveram debates sobre tornar verde a indústria automobilística, ao mesmo tempo em que defenderam, ao lado de outros países, com sucesso, que se mantivesse a defesa da eliminação gradual de todos os combustíveis fósseis fora da declaração.

“Eles são o mais poderoso participante do mercado neste momento, devido à concentração de capacidade que detêm e à sua flexibilidade de fornecimento”, diz Ahmed Mehdi, especialista em mercado de petróleo da consultoria Renaissance Energy Advisors.

Até 2050, acredita Mehdi, a Aramco ainda será a maior produtora mundial de petróleo. No entanto, a empresa se beneficiaria de ser “mais transparente sobre sua afirmação enorme em termos de relações públicas de que ‘temos a intensidade [de carbono] mais baixa do mundo’”, diz ele, acrescentando que comprovar é fundamental para acumular confiança nas divulgações de informações sobre emissões. “Eles fizeram afirmações arrojadas. Tudo bem, então que tornem pública a metodologia, que mostrem os dados.”

Há outras dificuldades a serem enfrentadas pelos planos de longevidade da Aramco mesmo se a demanda por petróleo bruto acabar ingressando numa queda acelerada. A primeira, dos petroquímicos, tem sido um foco desde que a Aramco concluiu a construção da unidade de produtos químicos de Sadara, de US$ 20 bilhões, na Província Oriental saudita em 2017. Na época, quase 12% do petróleo bruto da empresa era usado para produzir petroquímicos.

Thorel, cidadão francês que passou 15 anos na Shell, disse que a Aramco quer aumentar esse percentual para cerca de 33% — perto de 4 milhões de barris equivalentes de petróleo — até 2035. Em 2020, a empresa adquiriu participação de 70% na estatal saudita de petroquímicos Sabic.

Os produtos químicos especiais, que podem ser encontrados em uma multiplicidade de produtos, desde sacos plásticos até autopeças, passando por cosméticos, geralmente não passam por combustão e não têm emissões de âmbito 3. No entanto, essa mudança significa que os produtos da Aramco tenderão a contribuir para um maior volume de lixo plástico.

A segunda dificuldade, o hidrogênio, que é alardeado como uma alternativa de baixo carbono aos combustíveis fósseis, é uma área de foco mais embrionária. Em 2020, a Aramco produziu e entregou a primeira remessa mundial de hidrogênio ao Japão sob a forma de amônia. A Aramco produz hidrogênio a partir do gás natural, ao mesmo tempo em que capta o CO2 gerado durante o processo. Pretende produzir 11 milhões de toneladas ao ano da chamada amônia azul até 2030.

Estão entre as outras áreas de trabalho do centro de pesquisa da Aramco os “sistemas de combustão avançada” para baixar as emissões dos motores de veículos tradicionais, uma “gasolina sintética de baixo carbono” e uma tecnologia de captura de carbono móvel, que, segundo a empresa, cortará as emissões de CO2 dos veículos em até 40% ao impedir a liberação da fumaça.

“A Aramco reconhece que há uma janela de tempo significativamente mais longa do que o Ocidente percebe, na qual eles conseguirão otimizar o petróleo”, diz Christyan Malek, diretor global de estratégia energética do J.P. Morgan. “O Ocidente pensa em 5 a 10 anos. Eles estão pensando em 20 a 30 anos. Isso faz toda a diferença.” (Tradução de Rachel Warszawski)

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2023/01/25/ft-como-a-saudi-aramco-planeja-prolongar-o-uso-de-petroleo-no-mundo.ghtml

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