Preços das commodities, alta dos juros, eleições, guerra da Ucrânia: 2022 pede sangue frio
e conhecimento do investidor
Inflação pressionada e juros em alta, freios diversos à atividade econômica, desorgani-
zação das cadeias de produção e aversão generalizada ao risco já eram perspectivas reais e preocupantes para a economia global em 2022 antes mesmo da tensão geopolítica entre Rússia e OTAN. Desde então, as tendências negativas para a produção e o comércio globais só ganharam magnitude. Discute-se, entre outros aspectos, qual será o impacto das sanções econômicas
impostas pelo ocidente à Rússia e seus possíveis efeitos colaterais sobre as economias de outros países. Além disso, há ainda maior expectativa em relação ao ritmo de alta do juro que o FED (Banco Central dos EUA) irá imprimir aos seus movimentos em decorrência da guerra. A depender de como for solucionado o conflito e a sua duração, os prêmios de risco embutidos nos preços dos ativos em todo o mundo poderão levar mais tempo para serem revertidos.
Brasil está bem posicionado por exportar commodities agrícolas
No Brasil, os efeitos da elevação dos preços das commodities, o acirramento da alta dos juros e escassez de insumos estão entre as preocupações, mas elas ainda não podem ser avaliadas de forma precisa. No início de março, o petróleo permanecia acima de US$100/ barril, com forte viés de alta, enquanto os bancos centrais procuravam agir para minimizar pressões inflacionárias de curto prazo. “A Ucrânia veio marcar um novo tema para a economia global, substituindo a pandemia”, reflete Fernando Gonçalves, Superintendente de Pesquisa Econômica do Itaú Unibanco.
Essa conjuntura abrangeu tanto as economias mais avançadas quanto as emergentes, que começaram a viver num mundo de juros elevados para combater a inflação. “No período que precedeu a invasão da Ucrânia, o contexto global era de inflação pipocando em diversas regiões do mundo. Saíamos de um ambiente de juros baixos para um cenário em que passou a haver preocupação relevante com a inflação e a alta dos juros”, afirma.
O Brasil também entrava nesse ambiente quando aconteceu o choque global da economia e uma elevação importante nos preços das commodities. A guerra, diz Gonçalves, tende a impactar a Rússia como grande exportadora de petróleo e gás natural. A Ucrânia tem exportações importantes de milho e trigo e há dúvidas sobre a capacidade de replantio no país, que também é forte em exportação de alumínio. “Há ainda vários outros insumos metálicos afetados, como o níquel e o paládio, em que a Rússia é muito forte. Eles são utilizados na produção de chips e peças automotivas, por exemplo”, aponta o economista.
Por aqui, ele vê a inflação de preços corroer os ganhos reais, com uma consequente perda de crescimento da atividade econômica. “A indústria brasileira está sofrendo novos problemas de oferta de insumos, seja no paládio, seja em ou- tras commodities metálicas”, diz.
Todavia, Gonçalves lembra que o País está relativamente bem posicionado por ser exportador de commodities agrícolas. Assim, “a conjugação de perda de ganhos reais, juros altos e redução de oferta talvez não tenha impacto tão forte”, acredita. Por outro lado, enquanto o Brasil tende a sair ganhando nessa frente, terá que pagar preços mais altos pelo que importa, como os fertilizantes.
O Itaú ainda tenta avaliar a magnitude e a duração de todo esse choque. Até o início de março, porém, mantinha estimativa de variação de 5,5% para o IPCA e 0,5% de queda para o PIB em 2022. Em relação à Selic, a estimativa era de 12,5% para o final do ano, mas o economista lembra que agora há muita incerteza.
Entrada de recursos
Sob o ponto de vista do investidor, essa incerteza exacerba a tendência mais forte de ir para a renda fixa (neste momento, o movimento é na direção da renda fixa americana) e, no mercado acionário, buscar as ações de empresas mais tradicionais. O especialista lembra que o investidor estrangeiro deve retomar seu apetite pelo Brasil e trazer maiores fluxos de recursos, até porque a Bolsa aqui está barata. “O estrangeiro tem demonstrado muito interesse pelo Brasil porque o mercado entrou naquele momento de rotação dos investimentos que passou a privilegiar os emergentes”, reflete Gonçalves.
O juro doméstico também tem sido um fator relevante de atração de capitais, mesmo porque a elevação de taxas pelo FED deverá ser gradual, aponta o economista. “Por enquanto estamos ganhando de lavada em termos de juros altos, daí a apreciação do real frente ao dólar. Esse grande diferencial entre o juro americano e o brasileiro só começará a ser reduzido no final do ano, porque mesmo com altas nos EUA, aqui também teremos novas elevações de taxas em 2022”, observa.
Outra incógnita que preocupa o mercado é a política econômica do governo brasileiro para fazer frente à alta internacional dos preços de gasolina/ diesel. Um eventual exagero de medi- das de cunho “populista” pode mudar a percepção dessa trajetória e aumentar os prêmios de risco sobre os ativos brasileiros, na contramão do fluxo de entrada de recursos.
Ano turbulento
O ano de 2022 será turbulento interna e externamente, ressalta o Sócio e Economista-Chefe da MB Associados – Consultoria em Análise Macroeconômica, Sérgio Vale. Ele observa que o impacto sobre a importação brasileira de fertilizantes é um dos efeitos indiretos da guerra na economia local e especificamente sobre o setor do agronegócio. Além disso, é preciso avaliar como a situação afetará a exportação de commodities agrícolas pela Ucrânia, bem como os preços desses produtos.
“A elevação de preços poderia ser positiva para nós porque juro elevado e commodities em alta levam à apreciação cambial, mas um eventual envolvimento maior dos EUA no conflito poderia ter resultados mais dramáticos.” Para o Brasil, será fundamental fazer um trabalho diplomático porque o País já entrou em estresse com as três forças envolvidas: EUA, União Europeia e China”, pondera Vale.
Até meados de março, a consultoria havia elevado a sua projeção de Selic de 12,25% para 13% para este ano. “O BC está correndo atrás, mas talvez deva acelerar ainda mais esse ritmo, mesmo porque os EUA terão que subir os juros acima do que se imaginava”, diz o economista. Na Bolsa, ocorreu expressiva entrada de dinheiro até fevereiro, mas a renda fixa é mais atrativa e o processo de entrada de capitais já começou a ser revertido. “Há um dilema sobre onde aplicar o dinheiro e no curto prazo a renda fixa é mais favorável do que o mercado de ações, pois o ano será de crescimento baixo e eleições, com bastante volatilidade”, afirma.
Além disso, o cenário fiscal ainda é adverso, trazendo riscos para o próximo governo, porque em ambiente de juro mais alto aumenta também o custo financeiro da dívida. “Será preciso fazer uma contenção importante do lado fiscal em 2023. Não há muito espaço para elevar receitas e não se sabe ainda o que virá do novo governo em relação a reformas e política fiscal, nem como será a sua condição de governabilidade frente a uma eventual e provável derrota da direita”, analisa Vale.
Apesar de ter um bom traquejo político, o mercado receia que o ex-Presidente Lula queira desfazer algumas reformas promovidas nos governos Temer e Bolsonaro. “De que modo o PT irá lidar com as reformas econômicas é uma questão fundamental. A resposta não é simples, então é preciso esperar para conhecer seus ministros. O ano de 2022 vai demandar muito sangue frio, conhecimento e percepção de longo prazo para o investir na Bolsa”, afirma.
Movimentos abruptos
“Todos os ingredientes para que este ano traga maior volatilidade estão presentes, com movimentos mais rápidos em todos os mercados”, avalia o economista Carlos Heitor Campani, da Coppead – UFRJ. “Isso não quer dizer que o mercado será todo para baixo, mas em geral, esses são anos de movimentos abruptos, que produzem grandes perdas, como foram 2008, com a crise do subprime e depois a crise da Covid”, avisa. Mas há também um lado positivo porque, de modo geral, o mercado já precificou muita coisa.
Para o gestor de investimentos, diz Campani, é importante adotar uma forma de atuação que não seja tão especulativa, mas que tenha uma carteira bem diversificada em várias classes aqui e lá fora. Na previdência, que trabalha com dinheiro de longo prazo, é melhor diversificar para ter maior confiança e poder beber de todas as águas. “Isso fará com que a carteira no mínimo perca menos do que em estratégias especulativas.” O exterior não pode ser desprezado, diz ele, desde que a alocação seja bem diversificada. “Agarrar taxas pré-fixadas a 12% ou 13% é uma grande vantagem para quem tem esse olhar de longo prazo”, aponta.
Em conjunturas como a atual, sobressai também a percepção da importância de ter metas atuariais que representem bem a realidade do momento, sem esquecer os objetivos de longo prazo das Entidades Fechadas de Previdência Complementar. As metas, defende Campani, precisam ser consistentes, e a atual metodologia de cálculo tem espaço para melhorar, evoluindo de acordo com as dinâmicas do mercado nas taxas de longo prazo. “Caso contrário, as EFPCs ficam no ‘metaverso’, pois os corredores de taxas traduzem valores que não refletem o que ocorre no mercado, um verdadeiro calcanhar de Aquiles para as entidades”, conclui.
Por Martha Corazza
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