Num cenário de ausência de estabilidade econômica, com inflação em alta, EFPCs têm cada vez mais dificuldades em bater suas metas atuariais
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!A instabilidade na economia brasileira, e global, refletida em escalada inflacionária, no fraco ritmo de atividade, em alta de juros e fortes oscilações na Bolsa e no câmbio, tem levado a mudanças no portfólio dos fundos de pensão a fim de minimizar impactos negativos na relação retorno/meta atuarial. Entre os principais movimentos de realocação de investimentos realizados por fundações como Real Grandeza (Furnas e Eletronuclear), Eletros (Eletrobras), Telos (Embratel) e Petros (Petrobras) estão a mudança na composição de títulos públicos na carteira de renda fixa e redução da participação de ativos de renda variável em seus portfólios. Desde meados do ano passado, diante da alta acelerada da inflação e juros reais entre os mais elevados do mundo, os fundos de previdência tiveram que agir rápido para evitar resultados negativos. Mesmo assim, dados do mercado apontam que a maior parte não conseguiu alcançar suas metas atuariais em 2021 e tudo indica que repetirão tal desempenho este ano.
Não é para menos. Incerteza permanece como palavra-chave em 2022; as projeções continuam a surpreender. No ano passado, os fundos definiram o planejamento com base em inflação inferior à registrada em dezembro de 2021. A Eletros, por exemplo, estimava alta em torno de 5%, mas o INPC bateu 10,16%. Para 2022, as expectativas giravam em torno de índices abaixo de 4%, mas o mercado já trabalha com INPC de 7,7%.
As oscilações bruscas também atingiram o mercado de ações. O Ibovespa fechou o ano passado com queda de 11,92%, o segundo pior desempenho mundial no ano e a retração mais forte desde 2015 no mercado acionário brasileiro; no primeiro trimestre deste ano subiu 14,48%, mas em abril voltou a recuar, fechando o mês em baixa de 9,7%. Mesmo com auxílio do Asset Liability Management (ALM), ferramenta de gerenciamento de riscos utilizada por fundações para evitar descasamento entre ativos e passivos de longo prazo, a gestão tática, de curto prazo, requer atenção redobrada. “Ninguém esperava que a inflação fosse tão alta no ano passado”, disse Luiz Guilherme Nobre Pinto, gerente de investimentos da Eletros.
Concentrar recursos em renda fixa nem sempre garante retornos compatíveis com a meta atuarial. É preciso levar em conta o timing da aquisição dos títulos, os prazos dos papéis e o indexador, já que a alta contínua dos juros para conter a inflação interfere no resultado. Foi o que ocorreu. As taxas médias nominais do CDI saíram de 2,8%, em 2020, para 4,4% no ano seguinte. No fim do ano passado, a expectativa da Eletros era de taxa média nominal de 5,4% para o CDI; agora, a projeção é de 12,2%. Com os juros reais a oscilação foi ainda mais forte. Nos dois últimos anos, os juros reais ficaram negativos com a súbita e acelerada subida da inflação. O cenário mudou em 2022, com juros reais positivos, o que contribuiu para melhorar o retorno, mas prevalecem as dúvidas quanto ao desempenho da economia ao longo do ano. As indefinições aumentaram diante da recente alta dos juros dos Estados Unidos, a maior em 22 anos.
A Real Grandeza foi uma das fundações que conseguiu tirar proveito das oportunidades em 2022, após amargar retorno de apenas 2,8% em seus investimentos no ano passado, para uma meta atuarial que atingiu 15,45% no período. Para reverter o quadro, há cerca de quatro meses os gestores iniciaram processo de compra de NTN-B, pagando IPCA mais 6,5%. A decisão foi tomada quando as taxas superaram a meta atuarial do fundo de previdência, de INPC mais 4,74%. Compraram, então, cerca de R$ 800 milhões, em movimento oposto ao de 2021, quando passaram a vender esse tipo de ativo em carteira.
“Os papéis voltaram a ser interessantes com o aumento dos juros. No ano passado, ninguém pensava que as NTN-B pagariam taxas acima do atuarial, já que haviam caído muito”, disse Sérgio Wilson Ferraz Fontes, presidente da Fundação Real Grandeza. Em médio e longo prazos, a estratégia renderá para o fundo retorno entre 1,6% e 1,7% ao ano, acima da inflação. “Do ponto de vista tático, foi a iniciativa mais importante que tomamos para atingir o retorno deste ano”, disse o presidente, informando que, atualmente, as NTN-B representam 8% do portfólio.
De fato, no primeiro trimestre do ano, a rentabilidade da carteira da Real Grandeza, de 6,73% no plano BD, superou a meta atuarial de 4,62% relativa aos meses de janeiro a março de 2022. A alocação em renda variável ficou em 19,7% do total da carteira, com gestão terceirizada; renda fixa, concentrou 74,8% do patrimônio de R$ 16,3 bilhões do fundo; e 3,6% foram aplicados em fundos imobiliários, permanecendo o restante em operações estruturadas e com os participantes do fundo. A partir do segundo semestre deste ano, com a aprovação do novo manual de alocação, a Real Grandeza poderá investir no exterior até 4% de sua carteira, além da possibilidade de alocar recursos em fundos multimercados e em FIPs, de posse do mandato para aplicações naqueles ativos. Nada indica, até o momento, que a decisão de diversificação será tomada já em 2022.
A Fundação Telos, dona de uma carteira de R$ 3,9 bilhões no plano BD e de R$ 9,7 bilhões no total, mantinha em março de 2022 mais de 80% de seu portfólio concentrado em títulos públicos indexados à inflação. Ainda assim, a rentabilidade no primeiro trimestre do ano, de 6,87%, embora expressiva, permaneceu abaixo da meta atuarial, de IGP-DI mais 3,90% ao ano. Para mitigar efeitos da escalada inflacionária (no ano passado o índice ficou em 17,74%), Eduardo Brito, gerente de investimentos do fundo, informou que no plano BD a estratégia foi a de comprar títulos de prazos mais curtos, de dois anos, quando grande volume de NTN-C indexadas ao IGP-M, equivalentes a 20% do patrimônio, venceu em abril do ano passado. Naquele momento, os papéis estavam em 4,5%, agora recompraram os títulos com remuneração de 5,80%. “Tivemos um ganho bom nessa estratégia”, disse Brito.
A ideia era a de não ser surpreendido por inflação mais alta e papéis com retornos mais baixos em carteira. A solução foi a de fazer uma espécie de pit-stop, aguardando o momento de voltar a comprar. “Deu certo. A inflação acelerou, e no fim do ano passado, quando as taxas voltaram a subir, tomamos posições mais longas”, disse. No início do ano, os gestores investiram em papéis com prazos entre 2028 e 2030. Hoje, 55% da carteira está em NTN-C e 25% em NTN-B indexados ao índice de preços.
Há cerca de um mês, a Telos concentrou ainda mais recursos em títulos públicos indexados à inflação até o limite adequado para não comprometer a liquidez. Diante do cenário considerado desafiador, o consenso é de que não faz sentido alocar recursos em qualquer outro investimento. A Fundação não tem aplicações no exterior, mantém pequena participação em renda variável e em multimercado. Aliás, de acordo com o gestor, a Fundação cogita reavaliar se vale a pena manter investimentos nessas duas classes de ativos no plano BD.
A Fundação Eletros, gestora de um BD com 1,7 mil participantes (5,2 mil incluindo os demais tipos de planos) e patrimônio de 1,95 bilhão em 2021, apresentou nos últimos cinco anos retorno de 79,04% para uma meta atuarial no período de 65,41%. O bom desempenho, entretanto, foi revertido no ano passado, quando a meta de 15,12% ficou muito acima do retorno de 2,38%. Os ajustes no portfólio já mostraram efeitos positivos. Entre janeiro e março de 2022, a rentabilidade de 6,16% superou a meta de 4,56%.
A principal decisão de gestão de portfólio foi a redução da carteira de renda variável e correlato aumento de títulos de longo prazo, dos quais 44% atrelados à inflação. “É um ano atípico. Vou estranhar se alguém disser que está confortável em relação à meta”, disse o gerente de investimentos da Eletros. A principal dúvida em relação à alocação da carteira reside na participação da renda variável, que responde atualmente por 24% do patrimônio investido, inferior aos 31% do fim do ano passado. A gestão do fundo optou por diversificar prazos dos títulos de renda fixa, basicamente NTN-C 2031 atrelada ao IGPM e NTN-B ao IPCA. Os prazos de vencimento variam de 2023 a 2050, adequando vencimentos ao cronograma de pagamentos dos beneficiários. A marcação é feita a mercado. “É possível aumentar ainda mais a participação em renda fixa. Embora haja ativos baratos na Bolsa, o cenário é muito ruim, com aumento de juros lá fora e aqui dentro, além do aumento da inflação”, disse “NTN-Bs acima da meta atuarial viabilizam a estratégia de imunização”, diz Paulo Werneck, diretor da Petros
A Petros, que fechou 2021 com retração de 1,33% na rentabilidade consolidada dos investimentos e patrimônio total de R$ 114,1 bilhões, também reduziu sua participação em renda variável. Diante da conjuntura econômica desafiadora, a opção foi centrar esforços em segurança. Na prática, os gestores passaram a comprar títulos públicos federais, sempre marcados na curva. Com isso, os fluxos de recebimentos desses papéis – os cupons semestrais e o valor de resgate na data de vencimento – ficam compatíveis com o fluxo de pagamento dos benefícios dos planos. Segundo o diretor de investimentos da Petros, Paulo Werneck, pela primeira vez em dois anos, as NTN-Bs pagam mais do que a meta atuarial dos planos, “o que viabiliza a implantação da estratégia de imunização”.
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