O Banco Central (BC) está perdendo o controle das expectativas de inflação de longo prazo, num processo que poderá ter um custo importante em termos de alta na taxa básica de juros e de perda de crescimento da economia.
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!O boletim Focus de expectativas de inflação, divulgado ontem, mostra sinais de desancoragem das expectativas em relação às metas até 2025. Não se trata mais de um surto inflacionário, mas de um processo de alta sustentada de preços na economia. O Focus capta as projeções de mercado para PIB, índices de preço, câmbio e juros.
Especialistas do mercado financeiro dividem a culpa entre o próprio Banco Central, que muitos dizem que está atrás da curva no processo de aperto monetário, e os desarranjos políticos e fiscais, com a burla ao teto de gastos e as dúvidas sobre a política econômica do governo a ser eleito no ano que vem.
O CMN ainda nem definiu a meta de inflação para 2025, mas já há um movimento de desancoragem em curso
A expectativa de inflação para 2021 chegou, oficialmente, a dois dígitos. A projeção mediana dos agentes econômicos para a variação do IPCA neste ano saltou para 10,12% na última sexta-feira. As revisões atingem os dois anos seguintes. Para 2022, o mercado antecipa uma inflação de 4,96%, ante 4,79% projetados uma semana antes. Está bem acima do centro da meta oficial definida para o ano, de 3,5%.
Nesse percentual, a previsão dos especialistas está bem próxima de romper o teto da meta do ano que vem, de 5%. Assim, aos olhos do mercado, crescem os riscos de o presidente do BC, Roberto Campos Neto, ter de escrever duas cartas seguidas explicando o estouro da meta – como prevê esse regime. Neste ano, as chances de isso ocorrer já são estimadas pelo BC em mais de 99%.
Embora desconfortável, esse descontrole inflacionário pode estar ligado sobretudo a uma aceleração temporária da inflação, decorrente de uma sequência de choques que atingiu a economia, com a alta dos preços importados e do preço de energia.
Mas as previsões dos analistas para 2023 e anos seguintes sinalizam um preocupante processo de desancoragem das expectativas. Os números mostram que, na opinião do mercado, o BC independente terá dificuldades de cumprir à risca o seu mandato de estabilidade de preços.
“Está claramente havendo uma deterioração nas expectativas”, diz o diretor do ASA Investiments, Carlos Kawall. “É diferente do que ocorreu no governo Dilma, quando a inflação era mais grave, ligada a serviços, enquanto agora temos um componente de inflação global. Mas há uma desancoragem.”
A inflação projetada pelo mercado para 2023 subiu de 3,32% para 3,42% em uma semana. Assim, vai se distanciando do centro da meta do ano, de 3,25%. Há pelo menos um sinal de que o processo terá continuidade: a média das projeções já estava em 3,46% na última sexta-feira.
A inflação projetada para 2024 subiu de 3,09% para 3,10%, acima da meta do ano, de 3%. O incremento parece milimétrico, mas pode vir mais nas próximas semanas, já que a média das projeções está em 3,22%.
O Conselho Monetário Nacional (CMN) ainda nem definiu a meta para 2025, mas já há um movimento de desancoragem em curso. A mediana das projeções segue em 3%, provável meta, mas a média das estimativas para o ano já subiu a 3,18%.
Kawall diz que a alta do câmbio, a política fiscal e a alta dos preços de energia afetaram a inflação corrente e as expectativas de inflação. Mas há uma parte que cabe à política monetária: embora o BC tenha subido os juros antes e mais forte que o resto do mundo, adotou uma linguagem entendida pelo mercado como “dove”, ou pouco inclinada ao aperto monetário.
Segundo ele, há chances de as expectativas se deteriorarem ainda mais até a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para dezembro. O mercado, diz, considera inconsistente a sinalização de que o BC vai perseguir a meta de inflação de 2022 com um passo de alta de 1,5 ponto percentual na taxa básica, que iria para 9,25% ao ano em dezembro. Para tanto, argumenta, seria preciso um ritmo mais forte.
“Não há como estancar o processo de deterioração nas expectativas de inflação sem mudar a estratégia de política monetária, que não está dando certo”, afirma. Para Kawall, o Banco Central provavelmente não vai abrir mão da sinalização de que pretende cumprir a meta de 2022, pois isso poderia ter repercussões negativas na coordenação das expectativas. Dessa forma, restaria à autoridade monetária acelerar o ritmo de alta de juro.
À primeira vista, o conjunto das projeções do mercado para a inflação, para a atividade e para o juro parece não fazer muito sentido. Os analistas esperam mais aperto monetário (agora, veem juro em 11,25% ao ano) e crescimento cada vez menor (a previsão para 2022 caiu de 0,93% para 07%). Mais juros e um período mais prolongado de desemprego e subutilização da capacidade produtiva deveriam significar, em tese, uma inflação mais baixa em prazos mais longos.
As expectativas sobre a política fiscal ajudam a entender um pouco desse paradoxo. O mercado vem revendo para cima sua projeção para o déficit primário em 2022 (passou de 1% do PIB para 1,2% do PIB no último mês) e para o déficit nominal (de 6,35% para 6,7% no mesmo período). Com o aumento do risco fiscal, fica mais difícil o BC ancorar as expectativas de inflação.
O economista Marcelo Ferman, sócio da Parcitas Investimentos, diz que a inclinação negativa da curva de juros (com as taxas de prazos curtos superiores às de prazos longos) é sinal de que o mercado acredita que o BC fará o necessário para levar a inflação à meta. Kawall tem um diagnóstico parecido. Na prática, essa inclinação negativa da curva significa que o mercado espera juros mais altos num horizonte de tempo mais próximo, para debelar a inflação, e juros menores mais adiante, quando o trabalho tiver sido feito. Seria o fruto da independência formal do BC, aprovada em lei neste ano.
“O problema é que, hoje, o necessário para colocar a inflação na meta ficou mais alto”, afirma Ferman. Ele faz uma conta rápida: para trazer a inflação de 2022, prevista pelo mercado em perto de 5%, para o centro da meta, de 3,5%, seria preciso uma dose adicional de juros de cerca de cinco pontos percentuais, além do percentual de 11,25% já projetado pelo mercado para a taxa Selic nesse ciclo de aperto. A estimativa leva em conta o cálculo do próprio BC sobre o efeito das altas de juros na inflação.
“É muito juro”, afirma Ferman. “Talvez nenhum banco central do mundo fizesse um ajuste desse tamanho – e o nosso BC tem se mostrado mais gradualista.” Para ele, o que faz mais sentido no momento é a autoridade monetária manter um compromisso com o objetivo de 2022, mas sem buscar a ferro e fogo o centro da meta.
Já a desancoragem das expectativas para prazos mais longos, argumenta ele, reflete incertezas sobre a política econômica de forma mais ampla. “A função de reação da política fiscal mudou”, afirma. “Se sobra um dinheiro, o governo gasta, como para dar aumento a policiais. Se não tem espaço, muda na marra a regra.”
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