Reestruturação societária visa transformar a Vale em uma empresa de controle pulverizado, com ações no Novo Mercado
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!A reestruturação societária anunciada ontem pela Vale abre novas perspectivas para a mineradora e, indiretamente, para o mercado de capitais brasileiro, em um movimento tão importante quanto foi a privatização da companhia há 20 anos, em 1997. Depois de quase três anos de negociações – com discussões que começaram em 2013 e foram cercadas de expectativa por investidores -, os acionistas controladores da Vale (fundos de pensão estatais, Bradesco, Mitsui e BNDESPar) anunciaram processo que busca aprimorar a governança e dar maior liquidez às ações da empresa.
O objetivo, ao fim de três anos, em 2020, é transformar a Vale em uma empresa com controle acionário pulverizado, sem a existência de acordo de acionistas, como é hoje, e listada no Novo Mercado da BM&F Bovespa. Nesse caminho, haverá a unificação das duas classes de ações – ordinárias e preferenciais – em ordinárias, conforme antecipou em janeiro o ValorPRO, serviço de informações em tempo real do Valor.
Todas essas mudanças na Vale, uma das maiores empresas brasileiras, foram motivadas pela perspectiva de vencimento, em 9 de maio, do acordo de acionistas da Valepar, sociedade de propósito específico criada na época da privatização da mineradora e que reúne os sócios controladores. Havia dúvidas sobre o que aconteceria com a Vale se o acordo expirasse. Poderia haver uma “reestatização” da empresa caso não fosse renovado, uma vez que os fundos de pensão estatais (Previ, Funcef, Petros e Fundação Cesp), reunidos na Litel, e o BNDES somados têm maioria no bloco de controle. A proposta apresentada abre caminho para a Vale reforçar sua posição como empresa privada, embora em um primeiro momento os atuais controladores continuarão mandando na companhia.
“Nosso objetivo foi criar valor para a Vale, fortalecê-la. Quisemos preparar a Vale para desafios naturais futuros e colocá-la mais próxima de seus pares internacionais”, disse Fernando Buzzo, presidente da Bradespar. Em nota, o BNDES afirmou: “Na condição de acionista da Valepar, o BNDES (por meio de sua subsidiária BNDESPar) participou da negociação que levou ao novo acordo de acionistas da Vale, apresentado hoje [ontem], e apoia as medidas anunciadas que visam ao fortalecimento da governança corporativa da companhia.”
Os investidores reagiram bem ao acordo. As ações ordinárias da empresa encerram o dia a R$ 36,43 por ação, alta de 6,93%, maior fechamento desde 3 de janeiro de 2013. Já a ação preferencial da mineradora fechou em R$ 34,24 por ação, subindo 6,17%, maior cotação no mesmo período. Fica a expectativa sobre qual será a reação do mercado acionário americano uma vez que ontem foi feriado nos Estados Unidos. A alta nas ações também foi impulsionada pelos preços do minério de ferro uma vez que a renovação do acordo ocorre em meio a um dos melhores momentos nas cotações da commodity nos últimos anos.
O presidente da Vale, Murilo Ferreira, disse em teleconferência que proposta pode se transformar a Vale em uma S.A. de controle pulverizado, adotando as melhores práticas corporativas. Haverá duas fases anteriores à nova governança – inicialmente será celebrado novo acordo da Valepar, por seis meses (desde 10 de maio), podendo ser prorrogado por igual período. Nessa fase, tudo continua igual na Vale: controle em poder da holding de 54% das ações ordinárias.
A previsão é que em novembro se encerre o acordo de transição, abrindo novo capítulo na história da Vale, na qual os atuais controladores passarão a deter menos de 50% das ações ordinárias. Haverá unificação de classes de ações, de forma voluntária, e será celebrado um novo acordo de acionistas. Será um acordo de voto que vai vincular 20% do total de ações ordinárias em poder dos controladores. Vai vigorar até 9 de novembro de 2020, sem previsão de renovação.
Um ponto chave na operação é a conversão voluntária de ações preferenciais em ordinárias em uma relação de troca de 0,9342 ação ordinária por preferencial. A adesão mínima para conversão foi fixada em 54,09% das ações preferencias da classe A. O percentual foi calculado para garantir que os atuais acionistas da Valepar tenham menos do que 50% do total de ações da empresa.
O diretor-executivo de finanças da Vale, Luciano Siani Pires, disse que a relação de troca foi estabelecida com base em uma média ponderada das ações ON e PN nos últimos 30 dias. Um analista disse acreditar que a proposta deve ser aprovada. “Achamos que uma proposta de novos termos é bem improvável dado que os ganhos com a melhora de governança são suficientes para deixar os minoritários contentes”, afirmou. Segundo analistas, a relação entre as duas ações ontem era melhor do que a apresentada na proposta. A relação de troca entre ON e PN na proposta foi de 0.9342, sendo que na cotação de ontem essa relação estava em 0.9399. “A diferença não é relevante em termos totais.”
Os fundos de pensão, desde o início das negociações, queriam dar liquidez à sua posição. A Mitsui, por sua vez, queria valorizar sua fatia na Vale, egindo ida ao Novo Mercado e blindagem contra interferência política.
O presidente da Vale considerou a troca justa. “A unificação das ações ordinárias e preferenciais respeita o valor relativo das duas ações no mercado.” A conversão voluntária de ações será votada em uma assembleia geral de acionistas em junho juntamente com outras duas propostas: a alteração do estatuto social da Vale e a incorporação da Valepar pela mineradora. Essa incorporação vai contemplar um prêmio de 10% aos integrantes da holding. Haverá aumento de capital na Vale, com acréscimo de 10% do número de ações hoje em poder dos sócios da Valepar em relação à posição acionária atual. A operação representará diluição de 3% da participação dos demais acionistas no capital da Vale.
Com as mudanças, os integrantes da Valepar tornam-se acionistas diretos da Vale. Hoje, a holding detém 53,88% das ON e 33,70% do capital total da empresa. Na estrutura acionária futura, e assumindo um cenário de adesão integral à conversão de ações, os atuais sócios da Valepar ficarão com 36,7% do capital total da empresa. Ferreira disse que a conversão voluntária poderá se transformar em mandatória caso haja uma grande adesão à proposta.
Se tudo correr como previsto, em três anos a Vale estará pronta para entrar em uma nova etapa sem controle acionário definido, sem acordo de acionistas e apta a se listar no Novo Mercado. Com a nova governança, está previsto um conselho de administração mais forte, composto de 12 membros – no mínimo 20% independentes -, e assegurar tratamento igualitário aos acionistas no caso de uma oferta publica de aquisição de ações (OPA). Será obrigatório para o caso de alguém alcançar posição igual ou acima de a 25%. A fatia é maior do que a parcela do maior acionista, a Litel – veículo dos fundos, que terá 21,3% depois da reestruturação. Colaboraram Carolina Mandl, de São Paulo, e Rafael Rosas, do Rio)
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