Os fundos de pensão brasileiros investiram pouco, ou quase nada, em ativos no exterior nos últimos anos. Enquanto Chile e Peru, por exemplo, chegaram a destinar 44% e 41%, respectivamente, do total dos recursos aplicados para operações além de suas fronteiras, no país esse percentual não passou de 1%. Mas os motivos que levaram outros países a buscarem mais diversificação de suas carteiras e a aproveitarem oportunidades onde elas se apresentassem começam a atrair, aos poucos, os gestores brasileiros dos fundos de pensão. Por isso, aumentam as apostas de que, apesar de longo, esse caminho começa a ser percorrido com mais de determinação e apetite.
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!Para entender esse cenário, é bom lembrar que os fundos de pensão, mundialmente, ganharam desafios adicionais e muitos fatores de pressão. Aumenta significativamente o número de beneficiários no globo assim como cresce a expectativa de vida, estendendo por mais tempo o pagamento de benefícios do que se planejava há algumas décadas. Soma-se a isso o fato de que em muitos países as taxas de juros não se mostraram atraentes para garantir uma fórmula sustentável de preservação do nível de rentabilidade exigido para seus investimentos. A saída, em vários casos, foi olhar para fora em busca de oportunidades.
Mas esse cenário não se aplicou totalmente ao Brasil. “Nós vivemos uma situação sui generis”, diz João dos Santos, sócio da PwC, consultoria que tem um extenso estudo sobre o tema com o título “Beyond their borders: evolution of foreign investment by pension funds”. Ou seja, temos no país uma das taxas de juros mais altas do planeta que permitem remunerações mais elevadas com risco baixíssimo. “Temos os melhores prêmios sem sofrer com volatilidade do câmbio”, afirma Guilherme Velloso, diretor executivo da Abrapp (Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar).
O mercado brasileiro ainda conviveu durante muitos anos com restrições regulamentares à atuação internacional. Até 2009, os fundos de pensão tinham seus investimentos no exterior limitados a 3% dos ativos e ainda com a exigência de que eles fossem feitos apenas em parceria com fundos de investimentos locais. Naquele ano, o Conselho Monetário Nacional decidiu flexibilizar esse quadro e elevou para 10% o percentual a ser explorado em outros países. Mas não chegamos nem perto.
A exigência de atuar internacionalmente via fundos de investimentos permaneceu, mas já é uma prática adotada em larga escala no país. Segundo o estudo da PwC, os fundos de pensão brasileiros já realizam cerca de 61% das suas investidas no mercado financeiro ao lado de fundos de investimentos. Ou seja, nem mesmo as possíveis barreiras regulatórias para se avançar no exterior tiveram, exatamente, o papel de barreiras. A rentabilidade no mercado brasileiro parece ter sido determinante.
“Investir em fundos de renda fixa no exterior não faz o menor sentido”, diz Jorge Simino, diretor de investimentos da Funcesf (Fundação Cesp). Mas não há dúvidas de que em outras áreas a carteira no exterior é muito mais diversificada e atraente. Uma delas é o mercado de ações com oferta de mais de 7 mil papéis contra a bolsa brasileira que não tem mais de 100 ações em carteira. Na avaliação de Jorge, a tendência natural seria investir no mercado e nos fundos de ações, assim como nos hedge funds.
A disposição de internacionalizar os investimentos começou a influenciar os gestores de fundos de pensão há alguns anos. Mas, de acordo com Santos, recebeu um “incentivo” extra no primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff, quando ocorreram as quedas das taxas de juros. “Os fundos se sentiram ameaçados em suas metas estabelecidas para cumprir a obrigação com os participantes”, diz. Entre as saídas que se buscaram na ocasião, uma foi “olhar para fora”.
As tentativas de diversificar o portfolio de investimentos ganham apoio dos gestores. “O mercado brasileiro está conhecendo os produtos disponíveis gradualmente para”, diz o sócio da PwC.
Haverá um prazo para que se obtenham percentuais mais elevados? É difícil dizer. “Mas é preciso lembrar que outros países que têm grande participação internacional, como Chile, México, Estados Unidos, começaram a atuar externamente há muito tempo para chegarem onde estão”, diz Simino.
“O aprendizado para termos participações maiores de investimentos no exterior é longo. O que não podemos é deixar de aprender”, afirma o executivo da Funcesp que tem carteira no exterior próxima a 1% do que aplica anualmente. “Nós somos hoje o Chile de 20 anos atrás nessa área”, diz.
http://www.valor.com.br//financas/4757243/fundos-investem-muito-pouco-em-ativos-no-exterior
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