Controles de acesso mostram que banqueiro esteve no palácio com Júlio Cezar em março e abril de 2024
Redação13 de outubro de 2026 às 15h14
Fachada do Palácio do Planalto em Brasília. Foto: Antônio Cruz/ Agência Brasil
Registros de acesso da Presidência da República confirmam que o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, esteve no Palácio do Planalto em duas ocasiões acompanhado de Júlio Cezar, apontado pelo banqueiro como intermediário de um grupo ligado ao ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Alexandre Padilha. As visitas ocorreram em 1º de março e 3 de abril de 2024, segundo apuração da revista Veja.
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Os registros coincidem com informações encontradas pela Polícia Federal (PF) no celular de Vorcaro e com relatos incluídos em uma proposta de delação premiada apresentada pelo empresário às autoridades. Nela, o banqueiro afirmou que o grupo buscava viabilizar investimentos do Master em fundos de pensão de servidores públicos em troca de pagamentos ilícitos.
Segundo a versão apresentada por Vorcaro, a articulação envolveria recursos da Previ, ligada ao Banco do Brasil, da Petros, vinculada à Petrobras, do Postalis, dos Correios, e da Funcef, da Caixa Econômica Federal. O empresário relatou que o objetivo era captar até R$ 10 bilhões dessas instituições, com previsão de repasse de 10% do montante ao grupo que atuaria na intermediação.
A proposta de delação, no entanto, foi rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República (PGR), que não avançaram com a investigação das acusações por falta de provas, conforme a publicação. As alegações contra Padilha e os demais citados não constituem, por si só, comprovação de envolvimento em crimes.
Encontros foram articulados por Júlio Cezar
O primeiro registro citado pela reportagem mostra que Vorcaro e Júlio Cezar entraram no Planalto no mesmo horário, às 14h33 de 1º de março de 2024. Na proposta de delação, o banqueiro afirmou que participou de uma reunião com Padilha, o então secretário-executivo da pasta, Olavo Noleto, e outros interlocutores.
De acordo com Vorcaro, o ministro teria dito que os assuntos tratados com Noleto poderiam ser considerados como se fossem discutidos diretamente com ele. O empresário também afirmou que, após esse encontro, recebeu Júlio, Noleto e outro interlocutor em sua residência, onde teria sido apresentada a exigência de pagamento de propina para viabilizar operações com os fundos de pensão.
Segundo o relato, Júlio teria pedido e recebido R$ 500 mil como adiantamento após a autorização para que o Master operasse com os fundos. Vorcaro afirmou que o pagamento foi dissimulado por meio de um contrato com outra empresa e disse que poderia apresentar comprovantes aos investigadores.
A segunda visita registrada ocorreu em 3 de abril de 2024, quando Vorcaro e Júlio deram entrada no palácio às 17h29. Mensagens recuperadas do celular do banqueiro indicam que o lobista organizou os compromissos da viagem a Brasília e articulou uma reunião com pessoas que Vorcaro identificava como “o pessoal”.
Em uma conversa de 28 de março, Júlio perguntou se o empresário iria à capital federal para outros compromissos. Vorcaro respondeu que viajaria exclusivamente para aquelas reuniões. Nos dias seguintes, os dois discutiram a alteração da agenda de terça para quarta-feira, com o objetivo de concentrar os encontros.
Em 1º de abril, Júlio escreveu: “Daniel, após a reunião nossa na quarta vamos falar com o pessoal. Já deixa agenda aí pra isso. Pra ficar com tempo”. Na versão apresentada pelo banqueiro à PGR, a expressão fazia referência a Padilha e Noleto.
Na véspera da viagem, Júlio perguntou o horário de chegada de Vorcaro para organizar os encontros. O empresário informou que desembarcaria por volta das 14h.
Agenda incluiu visita ao Postalis
As mensagens indicam que Vorcaro foi diretamente do aeroporto para uma reunião na sede do Postalis, fundo de pensão dos funcionários dos Correios. Júlio já o aguardava no local e escreveu: “Tô aqui na sala esperando você. Pode subir”.
Após o encontro no fundo de pensão, os registros da Presidência indicam que os dois seguiram para o Palácio do Planalto. A sequência é relevante porque, segundo a proposta de delação, a articulação buscava abrir caminho para investimentos do Banco Master em instituições previdenciárias de servidores públicos.
Uma tabela do Master encontrada no celular de Vorcaro, segundo a reportagem, indicava uma operação que pretendia captar pelo menos R$ 500 milhões do Postalis por meio de títulos financeiros. O material citado não representa, isoladamente, comprovação de que o investimento tenha sido efetivado ou de que tenha ocorrido pagamento de propina relacionado a essa operação.
O banqueiro também relatou que Júlio trabalhava para aproximá-lo de dirigentes de outros fundos, incluindo a Petros e instituições ligadas ao Banco do Brasil. Mensagens indicariam ainda que Padilha participou de um jantar na residência de Vorcaro dias depois de um dos encontros.
Padilha indicou chefe de gabinete para o Postalis
A reportagem também destaca a influência atribuída a Padilha nas indicações para cargos de direção de fundos de pensão. Meses depois das reuniões de Vorcaro no Planalto, Richard Back, então chefe de gabinete do ministro, foi indicado para presidir o Postalis.
Mensagens encontradas no celular do banqueiro apontam que Vorcaro já conhecia Back desde 2023. Naquele ano, o empresário participou de uma reunião no Planalto com o chefe de gabinete para discutir outros investimentos. O encontro também aparece nos registros de acesso da Presidência.
Em julho de 2023, Padilha recebeu dirigentes de fundos de pensão, entre eles representantes da Previ, Postalis, Funcef e Petros. Júlio Cezar, porém, não participou daquela reunião, segundo a publicação. A revista afirma que o lobista só teria conhecido Vorcaro em março de 2024, após uma tentativa de aproximação do banqueiro com a Petros.
Ministro de Relações Institucionais da Presidência da República Alexandre Padilha, recebeu em audiência, os chefes dos fundos de pensão PREVI – Joao Fukunaga POSTALIS – Camilo Fernandes dos Santos FUNCEF – Ricardo Pontes PETROS – Henrique Jäger. (Gil Ferreira/Ascom/SRI/Divulgação)
Além dos encontros com intermediários, Vorcaro esteve com o presidente Lula (PT) em dezembro de 2024. Segundo a Veja, essa reunião não consta nos registros de entrada da Presidência. Mensagens também indicariam que o gabinete de Padilha tentou organizar um encontro entre Lula e o banqueiro em outubro daquele ano, depois de um jantar com o ministro.
Operação na Caixa foi interrompida após repercussão
Na proposta de delação, Vorcaro afirmou que a articulação com os fundos avançou por meio de reuniões e negociações com dirigentes das instituições. O banqueiro atribuiu a interrupção de parte das operações à repercussão de uma tentativa de investimento de R$ 500 milhões em letras financeiras do Master pela Caixa Econômica Federal.
Em julho de 2024, o jornal O Globo noticiou que dois gestores da Caixa Asset haviam sido afastados após emitir parecer contrário à operação. Segundo o relato de Vorcaro reproduzido pela Veja, a repercussão na imprensa levou dirigentes da Petros, do Postalis e do Banco do Brasil a suspender ou adiar decisões sobre investimentos no banco.
O empresário também alegou que o grupo ligado a Padilha teria recebido R$ 6 milhões em propina para ajudar o Master a captar recursos de um fundo municipal. A acusação integra o material que ele pretendia apresentar às autoridades, mas não foi confirmada por uma investigação criminal decorrente da proposta de delação.
Júlio Cezar não respondeu às tentativas de contato da revista. Padilha e Olavo Noleto negaram envolvimento em irregularidades em manifestações divulgadas anteriormente. As acusações atribuídas a Vorcaro permanecem sem comprovação judicial.
https://claudiodantas.com.br/registros-planalto-confirmam-visitas-vorcaro/
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