De acordo com revista Veja, Vorcaro disse em proposta de delação ter pago 30 milhões de reais para financiar filme sobre Lula
Sabrina FonsecaPublicado em 09 de outubro de 2026 às 12:19
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!De acordo com revista Veja, Vorcaro disse em proposta de delação ter pago 30 milhões de reais para financiar filme sobre Lula
O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, afirmou à Procuradoria-Geral da República, a PGR, em junho, que pagou cerca de 30 milhões de reais em dinheiro vivo para custear um documentário sobre o presidente Lula feito pelo cineasta Oliver Stone, além de fazer pagamentos ao Instituto Lula. Segundo ele, os pagamentos foram a contrapartida exigida pelo ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto para abrir ao Master o acesso a negócios com fundos de pensão de estatais.
O relato, parte da proposta de delação premiada de Vorcaro, e um áudio do banqueiro foram obtidos pela revista Veja e divulgados nesta sexta-feira (9).
As tentativas de delação de Vorcaro foram rejeitadas. A Polícia Federal recusou a primeira versão em 20 de maio, e a PF e a PGR recusaram a segunda em junho. Os investigadores consideraram a colaboração seletiva, por omitir fatos que a investigação já conhecia. O caso mais evidente foi o do senador Ciro Nogueira, do PP do Piauí. Na primeira versão, Vorcaro tratou os repasses a ele como fruto de amizade. Ciro Nogueira nega irregularidades.
Apesar disso, o episódio do filme é descrito em detalhe. De acordo com a revista, o então sócio e presidente-executivo do Master, Augusto Lima, chegou a Vaccari por meio do senador Jaques Wagner, seu amigo e à época líder do governo no Senado.
No primeiro encontro, de acordo com o relato de Vorcaro narrado pela Veja, ficou definido o preço para que o Master obtivesse votos suficientes para ser credenciado a fazer negócios com os fundos de pensão de funcionários do Banco do Brasil (Previ) e da Caixa (Funcef), dois dos maiores do país. O banco deveria fazer “um pagamento por fora, ou seja, por espécie”, para as despesas do documentário, e repassar valores ao Instituto Lula, presidido por Paulo Okamotto. A revista identifica o filme como “Lula”, do cineasta americano Oliver Stone.
Segundo Vorcaro, Vaccari também cobrou 10% sobre tudo o que o Master captasse em fundos de pensão ligados à Caixa, ao Banco do Brasil, à Petrobras e aos Correios. Pela conta registrada no material, de 10 bilhões de reais captados, 1 bilhão iria para o PT e 9 bilhões ficariam com o banco.
No áudio relatado pela revista, cuja data não foi informada, Vorcaro diz que Augusto Lima adiantou recursos a Okamotto e resume o pedido de Vaccari: “O cara pede para colocar dinheiro no filme do Lula”. Questionado sobre a comparação com Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro que também recebeu dinheiro dele, o banqueiro afirma ter colocado mais recursos na produção sobre Lula. “Só que o do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi, porque foi patrocínio, foi patrocínio normal.” O financiamento de Dark Horse é investigado pela Polícia Federal em procedimento no Supremo Tribunal Federal.
Vorcaro afirma ter informado às autoridades que dispõe de mensagens, registros de quem sacou o dinheiro vivo e dados sobre os locais usados nas entregas.
Ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto foi preso em abril de 2015 pela operação Lava Jato, acusado de recolher para o partido propina de empresas com contratos na Petrobras. Em 2016, Vaccari foi convocado pela CPI dos Fundos de Pensão da Câmara depois de ser apontado em depoimentos como operador junto à Petros e à Funcef. Mais tarde, foi denunciado na Operação Rizoma, que apurou desvios no Postalis, o fundo dos Correios. Nenhuma dessas acusações resultou em condenação válida. O Supremo anulou as condenações e os atos da Lava Jato contra ele, e a ação da Rizoma foi trancada pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região.
O relato também atinge o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que comandou a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência de janeiro de 2023 a março de 2025. Segundo Vorcaro, um operador identificado apenas como Júlio, com acesso ao gabinete de Padilha, apresentou o banqueiro ao secretário-executivo da pasta, Olavo Noleto. Mensagens encontradas pela PF no celular de Vorcaro mostram que o ex-ministro Walfrido dos Mares Guia, que mantinha outros negócios com o banqueiro, participou da aproximação.
Vorcaro diz ter ido ao Planalto para conhecer Padilha e afirma ter jantado com o ministro ao menos duas vezes. Depois disso, segundo Vorcaro, Júlio, Noleto e um terceiro homem, identificado como Fernando, estiveram em sua casa e disseram que o Master só entraria nos fundos de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, da Petrobras e dos Correios, a Previ, a Petros e o Postalis, se pagasse propina de 10% sobre tudo o que captasse.
Em 29 de abril de 2024, depois de semanas de cobranças de Vorcaro a Júlio registradas nas mensagens, o Master entrou na chamada lista exaustiva, cadastro oficial de instituições habilitadas a receber recursos dos fundos de pensão de estatais, feita pelo Ministério da Previdência. A lista abre caminho para negócios não com fundos de pensão, mas com regimes próprios de previdência de estados e municípios. No mesmo dia, Júlio pediu 500 mil reais ao banqueiro, que diz ter feito o pagamento. “Quero ver agora você virar uma boleta de verdade”, escreveu Vorcaro, usando o jargão do mercado para um investimento fechado. “É empenho de vida, Daniel, isso”, respondeu Júlio.
As negociações com os fundos federais travaram em julho de 2024, quando veio a público a tentativa do Master de vender 500 milhões de reais em letras financeiras à Caixa. Vorcaro passou, então, a buscar dinheiro em fundos de pensão de municípios nos quais Júlio tinha influência. Segundo ele, esses negócios renderam ao menos 6 milhões de reais em pagamentos a Padilha e a seus operadores, de acordo com a Veja.
Em outubro de 2024, Júlio escreveu ao banqueiro que o presidente o receberia e que Noleto marcaria a agenda. As mensagens não mostram se esse encontro aconteceu. Dois meses depois, em 4 de dezembro, Lula recebeu Vorcaro no Palácio do Planalto, fora da agenda oficial, em reunião articulada por outros interlocutores: o advogado Walfrido Warde e o então chefe de gabinete da Presidência, Marco Aurélio Santana. O assunto, no entanto, era outro: Vorcaro queria proteção contra o Banco Central.
Em junho de 2025, Vorcaro reclamou que estava havia mais de um ano sem fechar nenhum investimento. Júlio atribuiu o fracasso às notícias sobre suspeitas de fraudes no Master. Em agosto, o banqueiro decidiu encerrar o trabalho, e o operador concordou.
Em nota, a assessoria do presidente Lula chamou a reportagem de “peça eleitoral irresponsável”. A assessoria afirma que não há registro do depoimento de Vorcaro na Polícia Federal, que nenhuma delação com esse conteúdo foi aceita pelo Ministério Público e pela PF e que a própria revista reconhece que a PGR não levou as acusações adiante por falta de provas. A nota diz, ainda, que o banqueiro busca se vingar das autoridades que liquidaram o Master e o levaram à prisão, aponta contradição no fato de ele tratar o dinheiro de Dark Horse como patrocínio normal e informa que serão tomadas medidas judiciais.
A campanha de Lula planeja pedir ao Tribunal Superior Eleitoral direito de resposta contra a reportagem. Um dia antes da publicação, os advogados Marco Aurélio de Carvalho, um dos coordenadores da campanha, e Reinaldo Santos de Almeida levaram à Polícia Federal uma notícia de fato que trata qualquer acusação do banqueiro contra o governo como possível manobra para interferir no segundo turno.
A Polícia Federal afirmou, em nota, que Vorcaro não prestou depoimento com o teor descrito na reportagem nem entregou à instituição anexos, documentos ou informações com esse conteúdo. Segundo a PF, as propostas de colaboração apresentadas pela defesa foram recusadas por não cumprirem os requisitos legais. A corporação informou, ainda, que recebeu nesta sexta-feira uma notícia-crime com pedido de apuração urgente de fatos ligados à publicação e que o caso foi encaminhado à área técnica.
A defesa de Vorcaro repudiou a divulgação dos anexos e disse não confirmar o conteúdo do material, cuja origem, autenticidade e integridade não reconhece. Segundo os advogados, o material preliminar da colaboração foi entregue apenas a um número restrito de autoridades com dever legal de sigilo, e Vorcaro não prestou depoimento à PF nem à PGR durante as tratativas. A defesa afirma que o banqueiro tem informações relevantes para o caso e segue disponível para colaborar com as autoridades.
Em nota, Alexandre Padilha afirmou que nunca agiu nem autorizou ninguém a agir em favor de Vorcaro e do Master. Ele classificou o relato como mentiroso, disse que o áudio tem indícios de fraude e pediu à Advocacia-Geral da União que busque direito de resposta e solicite perícia na gravação.
Segundo o ministro, a interlocução com o mercado financeiro fazia parte de suas atribuições na Secretaria de Relações Institucionais. Padilha também afirmou que o relato tenta minimizar os repasses do banqueiro ao filme Dark Horse e que Oliver Stone já negou ter recebido dinheiro de Vorcaro.
O Bastidor procurou Walfrido dos Mares Guia, que não respondeu, e tenta contato com João Vaccari Neto.
https://obastidor.com.br/politica/o-pt-no-roteiro-do-master/
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