Invepar: disputa nos bastidores pelo Aeroporto de Guarulhos

Após vender negócios para pagar dívidas, holding vê proposta do Bradesco dividir seus sócios e abrir caminho para mudança de controle

Rikardy Tooge30 set. 2026 05h00

Ilustração: Daniela Arbex

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A Invepar nasceu em 2000 para ser uma das grandes empresas de infraestrutura do país. O nome de batismo – Investimentos e Participações em Infraestrutura – traduzia essa ambição, que agora ficou apenas no passado.

Criada pela Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, e pelo Grupo OAS, a holding vendeu boa parte de seus negócios nos últimos anos para pagar dívidas.

A companhia hoje está financeiramente fragilizada e tem como principal ativo o controle da GRU Airport, concessionária do Aeroporto Internacional de Guarulhos, o maior do Brasil.

A dimensão do negócio ajuda a explicar o interesse. No primeiro semestre de 2026, Guarulhos movimentou 23,2 milhões de passageiros, alta de 4,1% sobre o mesmo período do ano anterior. As receitas com tarifas e atividades comerciais somaram R$ 2,24 bilhões no período.

A Invepar detém 80% da Grupar, sociedade que controla 51% da concessionária. Os outros 49% pertencem à Infraero. Essa estrutura dá à holding uma participação indireta de 40,8% no aeroporto.

As vendas encolheram o portfólio, mas não eliminaram os passivos e as contingências do passado. Não fossem essas obrigações, diz uma das fontes ouvidas pelo InvestNews, a holding não teria sequer razão para continuar existindo. “O mais fácil era vender o que sobrou e dividir entre os sócios, mas não é tão simples”, diz.

É nesse cenário que o Bradesco, um dos principais credores da Invepar, apresentou uma proposta de capitalização que divide os acionistas e expõe o jogo de forças nos corredores da empresa.

A negociação envolve dinheiro novo para a Invepar, mas também a distribuição de poder sobre os negócios que restaram – principalmente o Aeroporto de Guarulhos.

Para os críticos, as condições propostas abririam caminho para uma tomada de controle da Invepar – e, indiretamente, da concessionária do aeroporto – por um preço considerado baixo.

Os defensores sustentam que a operação daria à holding condições de reorganizar suas finanças e não ter que se desfazer de Guarulhos a qualquer preço.

Atualmente, a Invepar é dividida entre Previ, Petros (dos funcionários da Petrobras), Funcef (dos empregados da Caixa) e o fundo Yosemite, que sucedeu a OAS após a crise deflagrada pela Lava Jato.

Quem representa o Yosemite nessa história é o principal cotista do fundo, a gestora Monte Capital, comandada por Julio Zogbi.

A oferta

A Invepar acumula endividamento próximo a R$ 1,4 bilhão, e a oferta apresentada pelo Bradesco pretende reorganizar esse passivo oferecendo dinheiro novo, alongamento de dívida e conversão de dívida em ações.

O InvestNews apurou que a proposta do Bradesco seria executada por meio de um fundo de investimento em participações (FIP), a ser estruturado pelo banco. Esse fundo aportaria R$ 200 milhões em troca de uma participação inicial de 25% na Invepar.

O FIP também teria direito de indicar um conselheiro, o presidente do board ou o CEO da Invepar, além do diretor financeiro da GRU Airport, a concessionária de Guarulhos. Esses direitos valeriam já na conclusão do negócio.

Além do aporte, o fundo concederia aproximadamente R$ 655 milhões em um novo financiamento, destinado a quitar dívidas da companhia com bancos.

Esse financiamento teria juros de CDImais 5% ao ano e vencimento em 2033. A dívida bancária que seria substituída vence em outubro de 2027 e custa aproximadamente CDI mais 1% ao ano.

A partir de janeiro de 2030, o FIP poderia optar por converter seu crédito em ações da Invepar. Não foi possível confirmar quem seriam os cotistas do fundo nem se o próprio Bradesco aportaria recursos.

Entrada do Aeroporto de Guarulhos, com estruturas de vidro, torre de controle iluminada, telhado dinâmico, via movimentada e iluminação intensa.Aeroporto de Guarulhos, o maior do Brasil (Getty Images/Claudio Capucho)

Em um dos cenários simulados, o FIP poderia chegar a aproximadamente 76% do capital da Invepar com a conversão em 2030. Esse percentual dependeria, por óbvio, do saldo da dívida e do valor atribuído à companhia naquele momento.

Para os críticos, o aumento do custo financeiro torna a nova dívida mais difícil de pagar e poderia ampliar o saldo a ser convertido em ações. Procurado pelo InvestNews, o Bradesco informou que não comenta a oferta.

Já os defensores da proposta afirmam que a Invepar buscou vender ativos em um processo competitivo, incluindo o controle da concessionária do Aeroporto de Guarulhos.

A fragilidade financeira da holding, dizem, pesou sobre as ofertas, que ficaram abaixo do esperado e tornaram a venda pouco atraente. Por isso, consideram a proposta conduzida pelo Bradesco a melhor alternativa disponível.

Os balanços dos próprios acionistas mostram avaliações bastante diferentes da Invepar. Ao fim de 2025, a Previ registrava sua participação de 25,56% por R$ 46,2 milhões. Já a Petros atribuía R$ 229,1 milhões à sua fatia de 25%.

Extrapolados para a totalidade do capital, esses valores indicam que Invepar pode ter um valor de mercado entre R$ 180,7 milhões a R$ 916,2 milhões – mais uma evidência do descompasso.

Jogo de forças

O impasse ficou evidente na assembleia concluída em 20 de julho. Previ e Yosemite apoiaram a ampliação do limite de capital autorizado da Invepar, mudança que abriria caminho para a capitalização proposta pelo Bradesco.

Com a alteração, o conselho de administração poderia aprovar aumentos de capital dentro desse limite sem uma nova votação dos acionistas. Também estava em discussão dar ao colegiado competência para emitir debêntures conversíveis em ações.

Fontes afirmam que Funcef e Petros receavam transferir essas decisões para um conselho no qual avaliavam ter menos força, sem estarem convencidas de que as condições oferecidas pelo Bradesco eram as mais adequadas.

Como cada um dos quatro acionistas detém 25% das ações com direito a voto, a oposição das duas fundações resultou em empate e impediu a aprovação.

Os acionistas continuam negociando em busca de um consenso. Procurados pelo InvestNews, Previ, Yosemite, Petros e Funcef não comentaram.

A divergência sobre a capitalização também expõe uma disputa pela condução da Invepar. Segundo fontes que acompanham as negociações, Previ e Yosemite exercem maior influência sobre a administração do que Funcef e Petros.

A cadeira de CEO está com Vagner Lacerda Ribeiro, que chegou ao conselho por indicação da Previ e assumiu o comando da companhia em maio.

Já Carlos Takahashi, conhecido no mercado como Cacá, exerce a presidência do conselho de administração da Invepar. Indicado pelo Yosemite, ele também é diretor da Monte Capital.

Para uma fonte que acompanha a companhia, esse alinhamento reproduz, na prática, o protagonismo que Previ e OAS tinham desde a formação da Invepar. A Monte ocuparia hoje o espaço da empreiteira, enquanto Funcef e Petros teriam menor influência sobre os rumos da gestão.

Nesse rearranjo, quem ganhou espaço foi Julio Zogbi, fundador da Monte Capital. A gestora consolidou sua entrada na Invepar em 2022, ao adquirir direitos econômicos de antigos credores da OAS vinculados ao Yosemite.

Com passagens pelo Banco Indusval e pela Vinci Partners – hoje Vinci Compass –, Zogbi também ocupa um assento no conselho de administração da GRU Airport.

Julio Zogbi, fundador da Monte Capital (Divulgação)

Fontes ouvidas pelo InvestNewsatribuem a Zogbi um papel ativo nas articulações em torno da proposta do Bradesco. A Monte Capital não comentou.

O BTG Pactual, que investiu para erguer um terminal privado em Guarulhos, também participa das discussões de reestruturação. Recentemente, passou a integrar o grupo de credores da Invepar ao comprar créditos do BDMG contra a companhia.

De compradora a vendedora

Quando Previ e OAS criaram a Invepar, em 2000, o portfólio reunia duas concessões: a Linha Amarela, no Rio de Janeiro, e a Concessionária Litoral Norte (CLN), responsável pela Estrada do Coco e pela Linha Verde, na Bahia.

A mudança de escala veio com Petros e Funcef. As duas fundações assinaram o acordo de entrada em 2008 e ingressaram no capital em 2009 para financiar a expansão.

Naquele ano, os quatro sócios aportaram R$ 799 milhões, que, somados a financiamentos, viabilizaram a compra do MetrôRio e o início das operações da concessionária Auto Raposo Tavares (Cart), no interior paulista.

MetrôRio: concessão já pertenceu à Invepar (Divulgação)

A companhia avançou sobre rodovias na Bahia e em Pernambuco e, em 2012, conquistou a concessão de Guarulhos, em parceria com a sul-africana ACSA. Também incorporou a Via Parque Rímac, no Peru. A carteira passou a reunir dez concessionárias, com negócios em aeroportos, rodovias e mobilidade urbana.

Nos anos seguintes, a expansão deu lugar a sucessivas reestruturações. A OAS, atingida pela Lava Jato, pediu recuperação judicial em 2015 e colocou sua participação na Invepar à venda. A holding também enfrentava suas próprias dificuldades financeiras e passou a se desfazer de negócios.

Em 2016, vendeu a operação peruana à francesa Vinci. Em 2020, concluiu a venda da Cart ao Patria Investimentos. No ano seguinte, transferiu MetrôRio e MetrôBarra aos credores, numa operação que liquidou cerca de R$ 1,8 bilhão em debêntures.

Os negócios metroviários ficaram sob uma nova holding, controlada pelo fundo soberano Mubadala, de Abu Dhabi, e com participação dos três fundos de pensão.

Mais vendas e a dívida continua

A CLN, um dos dois ativos originais da Invepar, foi vendida em maio de 2024 à Monte Rodovias, vinculada à Monte Capital. Por meio de uma subsidiária, a plataforma comprou os 92,92% da concessionária por R$ 216,1 milhões.

No fim de 2025, a australiana Macquarie comprou toda a Monte Rodovias, que reunia a CLN e outras quatro concessões por aproximadamente R$ 2 bilhões

Em março de 2025, a Invepar também vendeu sua participação remanescente no VLT Carioca. Em dezembro, transferiu ao Mubadala 60,3% da Lamsa, concessionária da Linha Amarela do Rio, para quitar R$ 350 milhões em dívidas. A holding manteve participação de 39,7%.

Lamsa, concessionária da Linha Amarela do Rio (Divulgação)

A venda dos negócios, porém, não fez desaparecer todas as obrigações da holding. No segundo trimestre de 2026, a Invepar reconheceu uma provisão de R$ 190 milhões relacionada a compromissos assumidos na venda da Cart, concluída seis anos antes.

Em junho de 2026, a holding ainda carregava R$ 1,4 bilhão em dívidas financeiras, enquanto o caixa e as aplicações de curto prazo somavam aproximadamente R$ 126 milhões.

Desse endividamento, R$ 396 milhões correspondiam a debêntures cujo vencimento será em dezembro. Os empréstimos bancários, de aproximadamente R$ 1 bilhão, vencem em outubro de 2027.

https://investnews.com.br/negocios/invepar-crise-aeroporto-guarulhos/

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