Entre patrocinadores e participantes, falta uma voz para moderar interesses e auxiliar na visão do tabuleiro da previdência complementar
Quando o conselho de um fundo de pensão se reúne, duas vozes dominam a mesa: a do patrocinador e a dos participantes. Falta quem olhe o tabuleiro inteiro dos desafios, muitos urgentes, que se colocam para o setor. A figura do conselheiro independente, ainda inexistente no segmento, poderia preencher esse vazio, funcionando como moderador em um ambiente onde interesses legítimos, mas distintos, frequentemente se chocam.
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!Essas entidades administram o patrimônio que sustentará a aposentadoria de milhões de brasileiros. Seus conselhos deliberativos, compostos por representantes desses dois grupos, foram desenhados para garantir equilíbrio. Mas o mesmo desenho tem gerado paralisia e, quando o diálogo vira disputa, a agilidade e a estratégia de longo prazo tendem a ser as primeiras vítimas.
O conselheiro independente traria uma nova dimensão a esse debate. Sem vínculos diretos com patrocinadores ou participantes, ele poderia enxergar o conjunto com a distância necessária para avaliar riscos e oportunidades. Essa neutralidade, muito além do traço ético e da competência técnica, permitiria que decisões fossem tomadas com maior base em evidências e não por pressões de grupo.
É natural que a ideia desperte resistências. Alguns temem perda de influência, e outros questionam a sensibilidade desses profissionais para as particularidades do setor. Mas vejo que tais receios não consideram osganhos institucionais que essa melhoria da governança traria, sem contar com a competência técnica que esses profissionais podem oferecer.
No Brasil, o caminho jurídico para essa implementação não é intransponível e já encontra precedentes na legislação vigente. As entidades com patrocinadores privados já poderiam incluir conselheiros independentes mediante ajustes estatutários amparados pela Lei Complementar 109/2001. Para as patrocinadas pelosetor público, a paridade obrigatória prevista na Lei 108/2001 exigiria mudança legislativa, o que se coloca como um desafio político, mas não técnico.
Em perspectiva recente, o sistema de previdência complementar mostrou evolução consistente ao longo da última década. Adotou comitês de auditoria, comitês de investimento, certificou dirigentes, e aderiu ao modelo de autorregulação desenvolvido pela ABRAPP, entre outros avanços.
A introdução de conselheiros externos seria apenas o próximo passo lógico dessa trajetória, dando às fundações mais musculatura para enfrentar déficits atuariais, volatilidade econômica e o aumento dos custos de observância que impulsionam a consolidação do setor, como detalhei em minha última coluna por aqui.
Nos mercados globais, a independência no conselho é vista como pré-condição para credibilidade. O Novo Mercado da B3exige ao menos 20% de conselheiros independentes para as empresas listadas nesse segmento premium (ou, no mínimo, 2 cadeiras); no Canadá e no Reino Unido, fundos de pensão públicos operam sob modelos semelhantes, em que a voz independente atua como guardiã do interesse coletivo.
As diretrizes mais recentes da OCDEtambém oferecem lições valiosas. O documento OECD Guidelines for Pension Fund Governance, de 2022, adverte que a experiência desse organismo internacional em países membros revela fragilidades recorrentes, como conselhos com responsabilidades mal definidas, excesso de representação de grupos de interesse em detrimento da competência técnica e, especialmente, a ausência de mecanismos claros para lidar com conflitos de interesse.
Essa fotografia reflete uma realidade que conhecemos bem no Brasil. Para evitar os vícios apontados, a OCDE recomenda que a composição do board reúna uma combinação de conhecimentos (em investimentos, governança, gestão de riscos e atuária) para que os representantes sejam capazes de desafiar construtivamente as propostas da diretoria.
A presença de membros independentes, nesse contexto, não só atenderia a essas recomendações, mas também seria um importante instrumento de profissionalização e de fortalecimento institucional. Ao antecipar riscos, sugerir rotas alternativas e trazer um olhar desinteressado, esses conselheiros poderiam inaugurar um novo capítulo na governança corporativa da previdência complementar.
Fábio Coelho é presidente-executivo da Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec)
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