Fatores que moldam os investimentos dos fundos de pensão

A expressiva alocação das entidades em títulos públicos é comportamental, dada a regulação atual

Os fundos de pensão brasileiros ainda diversificam pouco suas carteiras. A alocação de recursos dos fundos de pensão no mundo não é determinada apenas pelas taxas de juros, embora estas sejam importantes. Entre 2021 e 2025, por exemplo, os fundos de pensão públicos nos Estados Unidos reduziram sua exposição à renda fixa justamente quando a taxa de juros americana passou de quase zero para mais de 5% ao ano, demonstrando que outros fatores também influenciam as decisões de investimento.

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Quatro elementos principais moldam a alocação dos fundos de pensão. O primeiro é o ALM, ou Asset Liability Management, que trata do casamento entre ativos e passivos dos planos e considera o cenário macroeconômico, incluindo taxas de juros. O segundo são os aspectos contábeis, que definem como ativos e passivos são precificados. No Brasil, os passivos são contabilizados considerando a média de cinco anos dos títulos públicos de mesma “duration” do plano, enquanto os ativos são marcados a mercado, com exceção de títulos públicos, que podem ser contabilizados na curva, retirando a volatilidade.

O terceiro fator é a solvência dos planos de previdência. Embora os fundos de pensão tenham um horizonte de investimento de longo prazo, um índice de solvência calculado anualmente, se for inferior a 1, indica potencial déficit e exige a criação de um plano de equacionamento. Em outros países, esse limite é mais baixo, o que permite maior apetite ao risco. Por fim, a forma como os déficits são tratados, o prazo para o seu equacionamento – seja por aumento de contribuição ou redução de benefícios – influencia diretamente a disposição dos fundos a assumir riscos.

No exterior, muitos investidores institucionais sofisticados compõem as suas carteiras com investimentos indexados, grande parte via ETFs, na busca do “beta” e investimentos de maior risco e alternativos visando o “alpha”, e de forma global.

A recente pesquisa “Global Family Office Report 2024”, realizada pelo UBS com family offices dos EUA, América Latina, Europa, Suíça, Oriente Médio e Ásia Pacífico, mostra que a alocação consolidada nas classes de ativos alternativos já ocupa 42% dos portfólios e especificamente, na América Latina, os investimentos alternativos ocupam 31% das carteiras.

A alocação consolidada das sete maiores indústrias de pensões do mundo, que são EUA, Inglaterra, Austrália, Canadá, Holanda, Suíça e Japão, atualmente é de 50% em ações, 30% em renda fixa e 20% em alternativos.

Mas por que será que todos os tipos de investidores institucionais globais aumentaram a sua alocação em investimentos alternativos? Estudo do J.P. Morgan, realizado com dados de 1989 até 2023, mostrou que as carteiras tradicionais com basicamente renda fixa e variável, quando acrescentadas de 30% de investimentos alternativos, reduziram em todos os casos a volatilidade e ampliaram o retorno do portfólio de forma significativa.

No Brasil, a regulação atual dos fundos de pensão tem impacto relevante sobre a alocação. Desde sua implementação, houve migração significativa para renda fixa, passando de 64% para 84%, em detrimento principalmente da exposição à renda variável. O restante da alocação se distribui em 9% em ações, 4% em alternativos (incluindo-se os imóveis), 3% em caixa e outros. Desses, apenas 1% está no exterior.

A alocação em ações dos fundos de pensão brasileiros caiu tanto que, segundo o estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de junho de 2025, considerando 73 países, sendo 36 membros e outros 37, o volume em ações dos fundos de pensão no Brasil só é maior que o de cinco países: Kosovo, Albânia, Uruguai, Armênia e Angola.

Além disso, o Tesouro Nacional emite cerca de 25% de sua dívida indexada à inflação, um volume incomum globalmente, o que também influencia as decisões dos gestores. O Tesouro holandês, por exemplo, não emite título indexado à inflação, e os fundos de pensão representam 143% do PIB.

O que trava a diversificação dos fundos de pensão no Brasil não é a falta de produtos, o mercado brasileiro é sofisticado, criativo e oferece inúmeras opções de investimentos. A trava vem da falta de incentivo regulatório e, de certa forma, da facilidade do investimento em títulos público brasileiros, hoje na casa dos 77%, sem considerar que isso traz algum risco.

A expressiva alocação em títulos públicos dos fundos de pensão é comportamental, dada a regulação atual. Mas, com uma alteração da atual conjuntura, queda da taxa de juros, trazendo a NTN-B para abaixo da meta atuarial e algumas alterações regulatórias, certamente a alocação dos fundos de pensão deve mudar bastante, na direção de mais investimentos de risco, assim como acontece em todo o mundo desenvolvido.

Carlos Garcia é sócio fundador da Itajubá Investimentos
E-mail: contato@itajubainvestimentos.com.br

Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

https://valor.globo.com/financas/coluna/fatores-que-moldam-os-investimentos-dos-fundos-de-pensao.ghtml

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