Com venda de ativos e sem renovação, o grupo corre o risco de definhar, dizem fontes

Enquanto tenta renegociar uma dívida bilionária com seus credores, a Invepar, holding de concessões de infraestrutura, enfrenta também o desafio de garantir sua sobrevivência no longo prazo. Com a sucessiva perda de ativos para quitar compromissos e a dificuldade de renovar o portfólio, fontes do setor avaliam que o grupo tende a definhar.
Das cerca de 12 concessões nas quais o grupo chegou a ter participação há cinco anos, hoje restam três em operação: o aeroporto de Guarulhos (SP), que termina em 2033; a Linha Amarela S.A. (Lamsa), no Rio de Janeiro, que conseguiu fechar um acordo para manter seu contrato até o fim de 2037; e a ViaRio, concessionária controlada pela Motiva (ex- CCRCotação de CCR), em que a Invepar tem participação minoritária.
Segundo fontes, tanto a Lamsa quanto a ViaRio poderão entrar na negociação de dívidas com o Mubadala. No caso da primeira, o grupo deverá brigar para manter ao menos uma participação.
Em 2021, o fundo soberano de Abu Dhabi já assumiu o controle do MetrôRio e do MetrôBarra, da Invepar, como forma de abater dívidas. O arranjo manteve os fundos de pensão com uma fatia minoritária das concessionárias, mas a Invepar perdeu o ativo.
Em março deste ano, a empresa saiu definitivamente do setor de mobilidade urbana, com a venda de sua fatia minoritária no VLT Carioca para a Motiva (CCRCotação de CCR), que já controlava o negócio.
No setor rodoviário, a empresa também viu diversos projetos deixarem sua carteira. Muitos foram vendidos ao longo dos últimos anos para levantar recursos: a Concessionária Auto Raposo Tavares (Cart), a Concessionária Rota do Atlântico (CRA), a Concessionária Bahia Norte (CBN) e a Concessionária Litoral Norte (CLN).
O contrato da Via 040 foi devolvido pelo grupo e relicitado pelo governo. A Concessionária Rio-Teresópolis (CRT) também chegou ao fim, em 2022, e ficou com a Ecorodovias na nova licitação feita pela União. Nesses dois casos, o grupo ainda briga para receber pagamentos – na CRT, por reequilíbrios não resolvidos e, na Via040, por discussões da relicitação levadas a arbitragem.
Hoje, o aeroporto de Guarulhos é visto como ativo central para a Invepar. A holding detém 80% da Aeroporto de Guarulhos Participações, juntamente com a South Africa Airports Company (20%). O veículo, por sua vez, tem 51% da concessão, ao lado da Infraero.
O terminal paulista fechou no fim de 2024 um acordo com o governo federal para estender o prazo da concessão em um ano e quatro meses, para novembro de 2033, em troca de R$ 1,4 bilhão de novos investimentos.
A concessionária terá uma nova oportunidade de ampliar o prazo de seu contrato, mas fontes avaliam que a extensão não deverá ser expressiva. Recentemente, o governo abriu um programa para que concessionárias de aeroportos possam assumir terminais regionais, de menor porte, em troca de mais prazo em seus contratos, o chamado AmpliAR.
A iniciativa foi vista por outros grupos do setor como uma solução desenhada pelo governo para a Invepar, que é controlada pelos fundos de pensão Previ, Petros e Funcef. Fontes, que pediram anonimato, disseram que há expectativa de que a empresa de fato participe do programa. A prorrogação máxima seria de 3,5 anos, pelas regras do contrato do aeroporto, diz uma fonte. Porém, analistas avaliam que a ampliação, se ocorrer, tende a ser curta. Um deles observa que, como o aeroporto de Guarulhos é muito rentável, qualquer adição de prazo demanda valores expressivos como contrapartida.
A Invepar já tentou atrair novos sócios no passado, mas o processo não teve sucesso – à época, o prazo relativamente curto do contrato do aeroporto e a dificuldade de negociar preço com os fundos de pensão dificultou o avanço das conversas, segundo fontes. Recentemente, houve rumores de que o BTG poderia assumir o terminal paulista, mas pessoas próximas ao grupo negam que haja negociação neste momento, seja com o banco ou com qualquer outro interessado.
Outras fontes do setor de infraestrutura afirmam que hoje é difícil ver a Invepar conquistando novos projetos no curto prazo. Além das dívidas que o grupo tenta negociar, sob risco de entrar em recuperação judicial, a empresa acumula prejuízos. Em 2024, segundo os dados mais recentes divulgados, o prejuízo consolidado ficou negativo em R$ 872,5 milhões, agravando o resultado negativo de R$ 277 milhões já registrado no ano anterior.
Pelo lado dos acionistas, a visão é que também não haverá aporte de recursos. Além dos fundos de pensão, que juntos têm cerca de 75,5%, o quarto sócio é o fundo Yosemite, gerido pelo BTG – a fatia no passado foi da OAS, que transferiu as ações a credores. Desde então, a percepção no mercado é que a Invepar ficou “acéfala”.
Procurados, a Invepar, a Previ, a Petros e a Funcef preferiram não se manifestar. O BTG não respondeu até a conclusão deste texto.
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