Fundos de pensão buscam consolidação

Entidades com porte abaixo de R$ 3 bi lideram processo em busca de redução de custos

Vislumbrada há alguns anos, a tendência de consolidação dos fundos de pensão vem ganhando tração. Em um mercado bastante concentrado entre as vinte maiores fundações do país, entidades com porte abaixo de R$ 3 bilhões estão entre as principais interessadas em um movimento de mão dupla: delegar a administração de seus planos ou assumir essa tarefa em nome de outras. É algo que começou com fundações de multinacionais, mas não se limita a elas. O objetivo é ganhar escala e reduzir custos administrativos, uma economia que pode chegar a até 50%, segundo executivos do setor.

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Entre as empresas internacionais que estão no Brasil, esse foi o caso da GE. Recentemente, a companhia entregou a administração da sua fundação à Itajubá Administração Previdenciária (IAP). Antes disso, a Ford fez o mesmo e passou seu fundo de pensão aos cuidados da Vivest (antiga Funcesp).

A previdência privada fechada no Brasil tem cerca de R$ 1,1 trilhão e as vinte maiores fundações concentram mais de 80% desse patrimônio. A Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, é o maior deles, com mais de R$ 250 bilhões.

As fundações menores predominam em número. Das 240 entidades que compõem as estatísticas da Abrapp, associação que representa o setor, 176 têm patrimônio abaixo de R$ 3 bilhões. São estas as que mais sentem o peso dos custos e têm potencialmente mais dificuldade em se manter de forma isolada. Portanto, são os principais alvos da consolidação no setor.

Um dos que atuam como consolidadores é a IAP, do grupo Itajubá. A empresa foi criada em 2021 com esse foco e hoje é responsável pela gestão de quatro entidades, com patrimônio total de R$ 10 bilhões. A mais recente delas foi o fundo de pensão da GE, a Gebsaprev, que reúne 10 mil participantes e R$ 2,2 bilhões em ativos. A IAP assumiu toda a gestão do fundo de pensão da GE, sem transferi-lo para o fundo multipatrocinado da Itajubá.

“Temos estimativa de findar 2024 com patrimônio da ordem de R$ 14 bilhões, um crescimento no ano de 40%, levando em consideração a rentabilidade e aquisição de novos planos”, afirma o presidente da IAP, Roberto Chateaubriand.

Há alguns anos, o processo já era visto como natural para as fundações ganharem escala e ajustarem suas estruturas de acordo com a regulação, que ficou mais rígida. “O mercado está aquecido e percebeu que muitas vezes uma entidade muito pequena não faz sentido”, completa o diretor de distribuição da empresa, Carlos Tejeda.

Segundo os executivos da IAP, a primeira onda de demanda vem de patrocinadores que buscam redução de custos e foco total na gestão das entidades. Em muitos casos, nas multinacionais, executivos dessas empresas têm cargos na direção ou nos conselhos deliberativos dos respectivos fundos de pensão. “Depois, virá o fomento a novos planos”, diz Tejeda.

Quarta maior entidade do país, a Vivest (antiga Funcesp) decidiu atuar como consolidadora a partir de 2019. A entidade vem mudando ao longo dos anos. Inicialmente, administrava os fundos de pensão das empresas elétricas estatais do Estado de São Paulo, e com o movimento de privatização tornou-se a maior fundação de empresas privadas. Ainda que em casos pontuais, enfrenta a retirada de patrocínio de algumas empresas.

“Os custos regulatórios cresceram, e a volatilidade do mercado de investimentos aumentou muito. Com isso, a gestão ficou mais complexa e os custos de gestão terceirizada também subiram”, afirma o presidente da Vivest, Walter Mendes. Desde então, a estratégia já colocou quatro entidades sob seu guarda-chuva: Ford, Abrapp, Vem (rede de lojas de conveniência da Vibra) e Roche. Há expectativa de anunciar a quinta em breve, mas Mendes mantém o nome em segredo.

“Se a consolidação continuar se ampliando como nos últimos três anos, a indústria terá uma concentração maior dos recursos e entidades multipatrocinadas maiores. Isso tende a aumentar a profissionalização do setor”, afirma Mendes.

No Paraná, a Fusan vem buscando sua posição entre as consolidadoras, a princípio de forma regional. Hoje com R$ 2,6 bilhões sob gestão, a entidade foi criada em 1982 para atender a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar). Ao longo dos anos, a patrocinadora e o próprio setor foram mudando. A Sanepar, por exemplo, passou de 9 mil para 6 mil funcionários. Ao mesmo tempo, o aumento da expectativa de vida pesa sobre o equilíbrio financeiro da fundação. Pensando nestes cenários, a Fusan decidiu se tornar uma entidade multipatrocinada em 2019 e hoje administra quatro planos, conta a presidente da fundação, Claudia Trindade.

O primeiro passo foi criar um plano familiar, voltado para parentes de participantes. Outra iniciativa foi voltada a entes federativos, ou seja, Estados e municípios que passaram a ter que oferecer previdência complementar após a reforma da Previdência. Desde março do ano passado, a entidade atende 30 municípios entre Paraná e Santa Catarina.

Na sequência, incorporou a Fapa, fundo de pensão do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná, de R$ 550 milhões. Com a mudança para a Fusan, a entidade pôde ganhar escala e reduzir em 50% os custos administrativos, afirma Trindade. “Um fundo de pensão tem tantas obrigações para cumprir que não são nem baratas nem simples. É difícil a sobrevivência de uma fundação que tem planos menores.” Agora, o foco são planos corporativos, de empresas privadas, assim como associações ou entidades para administração de fundos instituídos, com ou sem patrocinador. “A legislação é mais flexível, pode haver aportes esporádicos e não engessa a empresa”, afirma.

https://valor.globo.com/financas/noticia/2024/02/05/fundos-de-pensao-buscam-consolidacao.ghtml

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