Mudança em plano da Petrobras levará tempo, diz diretor | Empresas | Valor Econômico



Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!

Governança da Petrobras exige que decisões de investimentos passem por uma série de instâncias

Rodrigo Araújo Alves, da Petrobras: plano precisa passar por “cinco portões” — Foto: Divulgação

Rodrigo Araújo Alves, da Petrobras: plano precisa passar por “cinco portões” — Foto: Divulgação

A nova administração da Petrobras e o novo governo Lula devem rever, a partir de janeiro, o plano estratégico 2023-2027 da companhia para considerar maiores investimentos em projetos de energia renovável, como eólicas offshore e hidrogênio verde, mas a tarefa não será fácil nem rápida, segundo indicaram ontem os atuais diretores da petroleira. A dificuldade está no fato de que a governança da empresa exige que as decisões de investimento passem por várias instâncias até chegar ao conselho de administração, etapa final de análise. A complexidade para alterar o plano, porém, já é conhecida pela equipe de transição.

“[O novo governo] vai ver qual é o prazo para elaborar, é um plano que tem várias etapas [de tramitação interna]”, disse o coordenador do grupo de trabalho de energia da equipe de transição, Mauricio Tolmasquim, na quarta-feira (30), em seminário realizado pela FGV, antes da divulgação do plano estratégico. Tolmasquim considerou natural a divulgação do plano estratégico, mesmo sendo conhecidas as pretensões do futuro governo Lula de rever o plano de investimentos, até porque houve um trabalho de elaboração que estava pronto e que demanda tempo. “É natural que a atual diretoria queira divulgar; também é natural que o governo que entra também queira reavaliar [o plano]”, afirmou.

O coordenador-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Deyvid Bacelar, disse que o plano será revisto pelo governo Lula para incluir investimentos em aumento da capacidade de refino, em projetos de transição energética, com estímulos a fontes renováveis, como biocombustíveis, e encomendas à indústria naval brasileira, com a construção de plataformas e embarcações no país, gerando emprego no Brasil. Bacelar integra o grupo de trabalho de energia da equipe de transição, mas o posicionamento dele, divulgado na quarta-feira à noite depois de o plano da Petrobras vir à público, se deu na condição de líder da FUP.

A possível mudança no plano foi discutida ontem no Petrobras Day, sessão de teleconferências com analistas de bancos de investimento para detalhar o documento. No total, o planejamento da companhia prevê US$ 78 bilhões em investimentos nos próximos cinco anos, 15% acima do montante previsto no plano anterior. Desse total, 83% serão destinados para exploração e produção (E&P) e 10% serão aplicados no refino. (ver quadro nesta página).

O diretor de governança e conformidade da Petrobras, Salvador Dahan, afirmou que não é possível dizer que esse plano estratégico possa ser revisto em um prazo muito curto, de acordo com os sistemas da companhia. E o diretor financeiro e de relacionamento com investidores da empresa, Rodrigo Araujo, acrescentou que a previsão de recursos a serem aportados em cada projeto está listada no plano estratégico, mas a decisão segue uma “governança de tomada de decisões de cinco portões”. São consideradas ainda três instâncias decisórias: comitê técnico estatutário, diretoria-executiva e conselho de administração.

Araujo salientou ainda que as premissas definidas no plano são o ponto de partida para um processo de decisão de investimentos. Acrescentou que a companhia não trabalha com “alvo” de retorno, mas com a obrigatoriedade de que os projetos tenham valor presente líquido (VPL) positivo no cenário de “stress”. No plano, a Petrobrasindicou que os projetos de E&P são viáveis com o preço do petróleo tipo Brent a US$ 35 o barril.

O novo plano da Petrobras não é consenso no conselho de administração da empresa. A conselheira Rosângela Buzanelli Torres, que representa os empregados, disse que não aprovou o plano por considerar que as bases que o fundamentam são “inconciliáveis” com os princípios que motivaram a fundação e construção da Petrobras, “apesar de reconhecer o hercúleo trabalho das equipes envolvidas na elaboração do plano bem como alguns avanços”. Buzanelli disse, em página que detém na internet, que o plano segue a estratégia de desverticalização, desintegração e esvaziamento da atuação da Petrobras no país, concentrando esforços na produção do pré-sal, exportação de óleo cru, venda de refinarias e investimentos “tímidos” na área de transição energética, descarbonização e energias renováveis. Na quarta à noite, Araujo havia celebrado, na rede Linkedin, o plano, dizendo que foi elaborado preservando a “visão, os valores e o propósito” da companhia.

No mercado financeiro, as ações ordinárias da companhia fecharam o dia com queda de 3,75%, a R$ 29,25, e as ações PN terminaram o cotadas a R$ 25,59, queda de 4,01%. A Ativa Investimentos divulgou relatório segundo o qual o plano dialoga com o pensamento da gestão atual, mantendo proporção de alocação de 80% dos recursos em E&P. Na visão da corretora, é extremamente positivo para a companhia alocar dois terços dos recursos de E&P no pré-sal, que atualmente é a parte mais rentável das operações da Petrobras: “Ainda assim, a possibilidade de nova gestão alterar os planos apresentados é considerável”, afirmou a Ativa no relatório, apontando ainda que o mercado deve esperar a chegada da nova gestão da Petrobras para somente então absorver os planos futuros da empresa.

Regis Cardoso e Marcelo Gumiero, analistas do Credit Suisse, destacaram aumento em US$ 10 bilhões no valor total de investimentos sem mudar a capacidade de fornecer aos acionistas retornos substanciais, com dividendos para os próximos cinco anos projetados em US$ 80 bilhões, equivalente a 110% do atual valor de mercado da Petrobras. Seria, para eles, a prova da força financeira da empresa. Porém, o aumento da percepção de risco continuará a pesar sobre a Petrobras, com volatilidade esperada nos próximos meses, avaliam. “Estamos particularmente preocupados com a alocação de capital, mas as dúvidas sobre a continuidade da política de preços e de dividendos aumentam as incertezas”, afirmaram os analistas em relatório.

O BTG Pactual também salientou que a política que prevê repasse aos acionistas de 60% do fluxo de caixa livre foi reiterada no plano estratégico. “Também não descartamos investimentos para aumentar capacidade de produção de combustíveis, o que no médio prazo aumenta o poder do governo de interferir nos preços e reduzir a dependência do Brasil de importações”, afirmam os analistas Pedro Soares e Thiago Duarte. (Colaboram Cristiana Euclydes e Felipe Laurence, de São Paulo)

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2022/12/02/mudanca-em-plano-da-petrobras-levara-tempo-diz-diretor.ghtml

INTELLIGENTSIA DISCREPANTES

Não perca nossas informações!

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.