‘Petrobras é o maior investidor do Brasil’

Marcelo Mesquita, conselheiro mais antigo da estatal, diz que há limites para a empresa aumentar investimentos no próximo governo

Mesquita, conselheiro da Petrobras: “Visão de cinco anos [do plano de negócios] me parece razoável; são raras as empresas com planejamento superior” — Foto: Leo Pinheiro/Valor

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Mesquita, conselheiro da Petrobras: “Visão de cinco anos [do plano de negócios] me parece razoável; são raras as empresas com planejamento superior” — Foto: Leo Pinheiro/Valor

A Petrobras é uma espécie de “transatlântico” cuja direção leva tempo para mudar e não adianta o novo governo indicar que a empresa vai investir muito mais porque há limites para fazê-lo em termos de gestão e de recursos humanos e financeiros. A visão é do economista Marcelo Mesquita, mais antigo integrante do conselho de administração da Petrobras, cargo que ocupa desde 2016.

“A Petrobras é o maior investidor do Brasil.” Ele afirma que a estatal segue processo criterioso de aprovação de investimentos e não há hoje restrições, do ponto de vista de orçamento, para aprovar projetos. A discussão sobre o risco de faltar dinheiro para a Petrobras investir ganhou força depois do pagamento de R$ 43,6 bilhões em dividendos pela empresa, na semana passada. Mesquita disse que a distribuição se justifica pela alta do petróleo e afirmou que a polêmica sobre investir em refino é uma “falsa discussão” uma vez que a empresa destina 30% do desembolso anual para o setor. Veja a seguir os principais trechos da entrevista ao Valor:

Valor: Há dificuldades em aprovar financiamentos na Petrobras?

Marcelo Mesquita: Como a empresa funciona? Todas as áreas de negócio da companhia propõem o que gostariam de fazer de investimentos. E quando propõe o fazem baseado em oportunidades de negócios. Isso vem de todas as áreas. Hoje não tem nenhum grande projeto que a empresa leva para o conselho e a diretoria que não é aprovado porque ha restrição orçamentária. Não definimos o dividendo e depois vemos o que sobra para investir. É ao contrário. Perguntamos o que a empresa gostaria de investir. A empresa diz e o conselho [delibera], aprova e o que sobra paga de dividendo.

Valor: Que outras variáveis são consideradas?

Mesquita: Em qualquer empresa cíclica de commodities quando olha o longo prazo tem períodos de preço alto e de preço baixo do produto, períodos onde gera muito caixa, outros que não gera tanto. Por isso a empresa tem que ser desalavancada, com pouca dívida, para não sofrer quando cai o preço. E nesse período o acionista fica sem receber dividendo. Quando o preço sobe, paga mais. Agora estamos em período em que estamos recebendo muito [caixa] porque o preço do petróleo está alto. Quando o preço do petróleo cair, isso vai reduzir.

Valor: Qual é a visão a mais longo prazo?

Mesquita: O mundo passa por dúvidas em relação à energia fóssil. Tem dúvida de longo prazo sobre qual é o tamanho ideal para a Petrobras nesse modelo de produção de petróleo. Pode ser que em 20, 30 anos ninguém possa andar com carro a gasolina. Há incerteza sobre o que a sociedade vai querer do ponto de vista de uso do combustível fóssil. No mundo, o investimento em refino, segmento ligado a produtos de mobilidade urbana, é questionável. A maioria das empresas [de refino] está investindo para manter capacidade moderna, produzir com menos CO2, mas não se investe muito em expandir a capacidade. Expandir refino achando que tem crescer no setor para preço ficar mais barato pode ser dinheiro jogado no lixo.

Valor: Petrobras investe pouco?

Mesquita: É falácia olhar para o passado e dizer que a Petrobras investe pouco. Muito dos grandes investimentos que a Petrobrasfez na era do PT foram para o lixo. A empresa fez R$ 200 bilhões de baixa contábil no balanço. Quando se diz que o Gaslub [antigo Comperj] está 80% feito é mentira. O país hoje importa porque o Rnest [Refinaria Abreu e Lima] foi feito com corrupção e incompetência, em valor acima do que a empresa podia executar. A Petrobras é um transatlântico e leva tempo para mudar para uma direção ou outra. Não adianta ser voluntarioso e dizer que vai investir muito mais porque a empresa não tem gente suficiente, tem que contratar, treinar. Há um limite de gestão, de gente, de treinamento.

Valor: Mas investe pouco?

Mesquita: A empresa é o maior investidor do Brasil. O capex [investimento] de cerca de US$ 13 bilhões por ano que faz hoje é alto para o tamanho do Brasil e da Petrobras. É investimento entregue no prazo, no preço, com retorno e eficiência. Não adianta dizer que vai aumentar conteúdo local porque finge que terá esses fornecedores no Brasil, eles fingem que vão entregar e daqui a quatro anos vai explodir outra ‘bomba’.

A empresa não é fonte de subsídio, existe para fazer projetos que dão retorno, para dar lucro e pagar dividendos”

Valor: Mas há no setor quem entenda que vale investir em refino.

Mesquita: Se fala em uma eventual decisão [do novo governo] de não vender refinarias, eu venderia. Petrobras não quer vender todas. Quer focar nas refinarias do Sudeste e vender as demais para ter concorrência, referência de mercado, isso reduz risco no sistema e as empresas aumentam investimento para crescer a produção. Petrobras vai terminar o segundo ‘trem’ de refino do Rnest que o PT não terminou, está previsto no atual plano de negócios. Não é que a empresa não quer investir em refino, não é verdade. Cerca de 30% do capex é refino, é modernização das refinarias, é colocar produtos ‘verdes’, reduzir as emissões na produção. Essa é uma falsa discussão.

Valor: Mas o fato é que a empresa tem perdido valor de mercado.

Mesquita: É algo ruim porque aumenta o custo de capital da empresa e dificulta fazer dívida. Cria ambiente hostil aos investimentos. Qualquer empresário que quer investir em óleo gás quando vê a ação despencar fica com medo e pensa: ‘Qual é a loucura que estão querendo fazer?’

Valor: Ainda sobre o refino, o processo de venda das refinarias deve refluir.

Mesquita: É por isso que a ação está caindo. Espero que quem entre [como CEO] reconheça que não tem problema em vender as refinarias porque o privado vai aumentar o investimento, a produção, e o país vai atingir o objetivo de ter mais refino mais rápido. É uma questão para o [futuro] ministro de Minas e Energia. É questão estratégica para o país e o CADE [Conselho Administrativo de Defesa Econômica] pediu para a Petrobras vender.

Valor: O refino está voltando a ser interessante para o investidor.

Mesquita: É cíclico. Por que o sistema de preços livres, de mercado, com concorrência, é bom? Porque os preços sinalizam o que o empresário tem que fazer, onde o investimento tem que ir. Quando o lucro das refinarias no mundo está alto, é um sinal que há mais demanda que oferta e é necessário fazer capacidade nova. Quando o preço está baixo, a mensagem é para reduzir o investimento. Isso é feito por um sistema de competição de mercado e não pela cabeça de um burocrata que acha que sabe mais que todo mundo. Os árabes compraram a refinaria na Bahia e se botar à venda mais refinarias algum privado vai comprar. Mas se voltar com discurso ideológico é atraso para o país. A direita e a esquerda querem a mesma coisa: um país rico, com emprego e produção.

Valor: Como se olha o retorno dos investimentos nos projetos?

Mesquita: A empresa é uma empresa, não é fonte de subsídio. A empresa existe para fazer, de forma eficiente, projetos que dão retorno, para dar lucro e pagar dividendos. Se o governo quer dar subsídio a alguém, põe no orçamento da União que pode ser financiado com dividendos que recebe da Petrobras e de outras empresas e dos impostos pagos. Para dar lucro, a empresa tem que investir em projetos em que a taxa de retorno é maior que o custo de capital da empresa. Se toma dívida a dólar mais 5%, por exemplo, põe mais 4%-5% de risco de projeto. Mas temos projetos que não garantem taxa de retorno, e a companhia faz também. É o caso de projetos de descarbonização, uma questão de responsabilidade social. Damos dinheiro para as comunidades do entorno das operações, demos GLP na crise também no entorno das operações. As ações sociais são algo justificado, transparente.

Valor: Qual seria o caminho para dar mais subsídios?

Mesquita: Eu acharia fantástico o governo criar um fundo com dividendos da Petrobraspara financiar o Bolsa Família, a escola, dar um destino que não caía no orçamento e suma.

Valor: Seria o momento agora, ou seria esperar o petróleo baixar?

Mesquita: Acho que tanto faz. Ao longo do tempo, o fundo receberá mais ou menos dinheiro. Mas fica claro que a eficiência e o resultado positivo da Petrobras ajudam o país, não é uma espoliação. É a forma justa e eficiente de ter empresa funcionando e gerando riqueza para o país. Aí o governo faz as coisas, assim como a Equinor faz na Noruega. Agora se começa a sufocar e destruir a empresa, começa a corrupção, a incompetência, a maluquice e um dia quebra de novo, como aconteceu no passado quando a Petrobras atingiu US$ 180 bilhões em dívida, a maior dividia corporativa do mundo.

Valor: Como vê a crítica que falta visão de longo prazo na Petrobras?

Mesquita: A visão de cinco anos [do plano de negócios] me parece razoável. Mas a empresa tem visão de curva de produção maior que cinco anos, que não divulga. São raras as empresas em um mundo tão volátil como o atual que fazem planejamento superior a cinco anos. Quando o PT geriu a empresa, prometeu muitas coisas de longo prazo que não entregou por incompetência, corrupção, descontrole de gestão.

Valor: A Petrobras vai crescer somente via produção de petróleo?

Mesquita: A Petrobras é empresa que no plano estratégico está crescendo no E&P [exploração e produção], está crescendo no refino. O capex contempla crescimento nessas duas áreas e modernização dessas áreas em tamanho razoável, com responsabilidade. De fato a empresa hoje não tem visão de longo prazo nos renováveis até porque a Eletrobras era estatal até pouco tempo. Quem entende de eólica e solar é a Eletrobras, que agora vai acelerar investimentos nessa área. Entendo que é o setor elétrico, as distribuidoras, geradoras que têm vocação, dinheiro e capacidade de fazer isso.

Valor: E a Petrobras?

Mesquita: A Petrobras deve continuar a focar em tecnologias para tirar petróleo a profundidades difíceis. Querer diversificar a Petrobras, uma estatal que tem dificuldade de contratar rápido, dificuldade por gestão política, por mudança de gestão toda hora, não é necessário. Mas se a Petrobras não tirar petróleo a 4 mil, 5 mil metros de profundidade ninguém o fará. A especialidade da empresa precisa ser burilada, aprofundada. Tem que investir em novos materiais para dutos, novas formas de desenhar plataformas, navios. É complexo, é como mandar foguete para a lua.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2022/11/10/petrobras-e-o-maior-investidor-do-brasil.ghtml

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