Entenda a crise dos fundos de pensão britânicos | Finanças | Valor Econômico

Os problemas começaram quando o ministro das Finanças britânico, Kwasi Kwarteng, anunciou planos de elevar a emissão de títulos do governo

Os fundos de pensão – que são projetados para gerenciar a renda de aposentados durante décadas e administrar o seu futuro de forma calma e gradual – estão atravessando dias turbulentos no Reino Unido com seus gestores tendo que tomar decisões drásticas e rápidas. O Banco da InglaterraBoE, o banco central britânico – chegou a informar os legisladores da ilha que vários fundos de pensão estavam a poucas horas de entrar em colapso e criar uma crise financeira mais ampla, o que levou a autoridade monetária a tomar a decisão de intervir neste mercado.

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Mas o que causou a crise dos fundos de pensão no Reino Unido?

Para entender a crise, é necessário conhecer o funcionamento de uma carteira de investimento de um fundo de pensão. Como os fundos de pensão precisam gerenciar o pagamento de aposentadorias durante um período de até 50 anos ou mais, eles compram títulos do governo de longo prazo e, ao mesmo tempo, fazem operações com derivativos para evitar forte volatilidade, já que esses fundos precisam trabalhar com segurança e regularidade nos pagamentos.

Essa estratégia é conhecida como “investimento orientado por passivo”, ou LDI (da sigla em inglês para Liability-Driven Investment).

No caso do Reino Unido, os fundos de pensão compram os títulos do governo britânico – conhecidos como gilts – que têm prazos de 30 anos e até 50 anos. Nessa operação de compra de gilts atrelados a derivativos, os fundos de pensão têm que colocar garantias e quanto mais os rendimentos dos títulos sobem, mais garantias são requeridas, as “chamadas de margem”.

Os problemas dos fundos de pensão começaram quando, em 23 de setembro, o ministro das Finanças britânico, Kwasi Kwarteng, anunciou planos de elevar a emissão de títulos do governo e desta forma aumentar a captação de recursos pelo Tesouro para compensar os cortes de impostos divulgados. A medida levou pânico aos mercados, provocando a desvalorização da libra e a queda dos preços títulos do governo, fazendo com que seus rendimentos disparassem em um ritmo recorde. O rendimento do título de 30 anos saiu de 4,057% no dia 23 de setembro para 5,119% no dia 29.

Mas como isso afetou os fundos de pensão?

Com a expectativa de maior emissão de títulos por parte do governo, os investidores começaram a vender as gilts, derrubando seu preço e elevando seu rendimento. A alta sem precedentes dos rendimentos fez com que as chamadas de margens aumentassem muito de forma rápida e os fundos de pensão tiveram que desembolsar bilhões de libras para cobrir essas margens. O Banco da Inglaterra estima o que exista cerca de 1,5 trilhão de libras investidos em fundos de pensão com estratégia LDI. E muitos fundos de pensão tiveram que vender títulos do governo e outros ativos para conseguir recursos para pagar as chamadas de margem, retroalimentando a alta dos rendimentos.

E como o Banco da Inglaterra se envolveu na crise?

Com a crise podendo se ampliar ainda mais, no dia 28 de setembro, o Banco da Inglaterra entrou no mercado para comprar até 65 bilhões de libras em títulos do governo, evitando um maior avanço dos rendimentos. O banco central inglês justificou a intervenção como sendo necessária para evitar a criação de uma instabilidade generalizada no sistema financeiro britânico.

Como parte da intervenção, o BoE – como é conhecido o banco central inglês – criou um programa emergencial de compra de títulos do governo de longo prazo com duração de duas semanas – e que termina nesta sexta-feira, dia 14 de outubro. Neste período, o banco comprou cerca de 4,4 bilhões de libras em títulos, o que ajudou a estancar um pouco a alta dos rendimentos dos papéis.

E o problema foi resolvido?

Não. Os fundos de pensão ainda estão tentando coletar recursos para recompor as cifras gastas em margens. Muitos economistas acreditam que essa intervenção do BoE ofereceu apenas uma estabilidade temporária e que a volatilidade deve continuar a menos que o governo reveja seu plano de cortar impostos.

Além da dificuldade em recalibrar suas carteiras diante do plano de corte de impostos, os fundos de pensão também enfrentam um ciclo de aperto monetário mundial, que eleva os custos dos empréstimos e trazem implicações para os portfólios das instituições financeiras e para os investidores. Assim como a crise dos fundos de pensões, o aperto monetário expressivo poderá causar problemas em outros setores.

https://valor.globo.com/financas/noticia/2022/10/13/entenda-a-crise-dos-fundos-de-penso-britnicos.ghtml

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