Análise: Acionistas da Vale veem complementariedade com Cosan, mas existem riscos

Com o movimento do grupo de Rubens Ometto, a mineradora passa a ter um sócio estratégico do segmento industrial, o que é bem visto por atuais grandes acionistas da empresa

O anúncio de que a Cosanvai montar posição acionária relevante em Vale abre nova etapa na mineradora brasileira quase cinco anos depois dela ter dado o ponta pé inicial para se transformar em “corporation”, empresa sem controle acionário definido.

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Com o movimento do grupo de Rubens Ometto, a mineradora passa a ter um sócio estratégico do segmento industrial, o que é bem visto por atuais grandes acionistas de Vale, cujo perfil é mais financeiro.

Haveria, desse ponto de vista, possibilidade de complementariedades entre a visão operacional da Cosan e o perfil de outros acionistas relevantes de Vale: caso da Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, da japonesa Mitsui e dos gestores de recursos Capital e Blackrock.

Há ainda nesse grupo a Bradespar, acionista histórica de Vale, e a gestora britânica Aberdeen, ambos com menos de 5% do capital da mineradora. Os dois têm tido, junto com os demais acionistas, papel importante nos avanços da empresa na área de governança corporativa depois das tragédias de Mariana (MG), em 2015, e Brumadinho (MG), em 2019.

O fato de o sócio industrial ser brasileiro também agrada aos atuais acionistas. O último sócio industrial da Vale havia sido a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), na privatização da mineradora, em 1997, mas o “casamento” durou pouco tempo e foi desfeito no chamado “descruzamento acionário” no começo dos anos 2000, quando Vale e CSN tomaram caminhos separados.

Desde que a Vale unificou as duas classes de ações (preferenciais e ordinárias) em ordinárias, no fim de 2017, a estrutura societária da companhia tem passado por transformações. O antigo grupo de controle foi diminuindo participações societárias e investidores financeiros avançaram na estrutura de capital.

A gestora americana Capital chegou a ter mais de 20% das ações de Vale em momentos de alta do minério de ferro, mas depois reduziu a fatia que, hoje, se situa em algo como 7%.

Existe, entre os atuais acionistas, a visão de que a Cosan chegaria alinhada com uma visão de longo prazo, algo que é característico da indústria de mineração em que os projetos levam anos para serem desenvolvidos e entrarem em produção.

Enquanto os investidores financeiros cresciam na Vale, os fundos de pensão, via Litel, foram vendendo fatias. A Previ ainda mantém, direta e indiretamente, mais de 10% do capital da mineradora. Essa posição foi maior, uma vez que o fundo de pensão do BB aproveitou oportunidades, na pandemia, para vender ações da mineradora em bolsa.

Os sinais, porém, são de que a Previ seguirá tendo posição relevante em Vale, mesmo com a chegada da Cosan, uma vez que há o entendimento que o mercado ainda não reflete o real valor da mineradora brasileira. A Vale tem um valor de mercado de cerca de US$ 30 bilhões a menos do que a australiana Rio Tinto, por exemplo.

Significa que há potencial de valorização da ação e, mais do que isso, a Vale continua a ser uma grande pagadora de dividendos. A empresa tem também renovado, de forma sistemática, um arrojado programa de recompra de ações, que ajuda a sustentar o valor da ação em bolsa.

Quanto aos demais acionistas de referência, a situação também mudou. A Bradespar, braço de participações do Bradesco, reduziu a fatia em Vale para 3,37%, enquanto o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) vendeu 100% da mineradora alinhado à estratégia de reduzir posições em empresas participadas.

A Mitsui se mantém com 5,99% do capital. Os laços entre a Vale e o Japão remetem à II Guerra, e a mineradora tem siderúrgicas japonesas entre seus principais clientes. Sempre fez sentido para a Mitsui manter-se como acionista de Vale, mesmo quando sócios históricos da empresa saíram vendendo papéis em bolsa.

Foi também bem recebido, no quadro de investidores da mineradora, o gesto da administração da Cosan de conversar previamente com sócios relevantes de Vale antes de fazer o anúncio oficial.

Qualquer movimento que pudesse ser considerado hostil seria mal recebido, uma vez que o formato de “corporation” traz consigo o risco de disputa pelo poder entre sócios se não houver articulações e diálogo na formatação do conselho de administração.

Embora, como contou o Pipeline — site de negócios do Valor —, o desenho da operação tenha começado há seis meses, é curioso que o anúncio da Cosan tenha ocorrido na mesma semana em que o “Financial Times” noticiou que a Vale contratou assessores financeiros para vender parcela de 10% a 15% no negócio de metais básicos, transação que pode levantar algo como US$ 2,5 bilhões. A Vale vê na produção de níquel e cobre a plataforma de crescimento futura, enquanto o minério de ferro continuará a ser a geradora de caixa, a “cash cow”.

A Cosan, como empresa de energia, conhece o potencial dos carros elétricos, segmento no qual a Vale está bem posicionada na produção de insumos, como o níquel, para as baterias desses veículos. Há ainda a tendência de eletrificação da economia via crescimento de projetos de geração eólica e solar, que requerem produção de cobre, outro setor no qual a mineradora brasileira tem bons ativos minerais.

Apesar de ter sido bem recebida pelos sócios da Vale, a operação também tem riscos para a Cosan. A Vale ainda não conseguiu fechar um acordo global de reparação para Mariana (MG) sete anos depois da tragédia.

Quando a mediação em torno ao tema no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) foi interrompida, em setembro, falava-se em um acordo de R$ 112 bilhões, que teria que ser pago por Samarco e suas sócias: Vale e BHP Billiton.

A Vale também enfrenta processo movido pela Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC, em inglês) por suposta negligência no tema barragens no caso Brumadinho (MG), o que a empresa refuta.

Outro risco que não pode ser desconsiderado é a China, principal cliente da Vale.

O mercado chinês não apresenta mais o crescimento vigoroso do passado recente e há dúvidas sobre um modelo de expansão da economia chinesa baseado na construção civil e no endividamento de empresas.

Apesar do cenário complexo, a Vale é sempre vocal no otimismo com a China, e não poderia ser diferente, pelo menos oficialmente.

https://valor.globo.com/empresas/noticia/2022/10/07/analise-acionistas-da-vale-veem-complementariedade-com-cosan-mas-existem-riscos.ghtml

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