Gestão de investimentos própria e terceirizada em fundos de pensão

Participação de fundos no patrimônio das entidades tem aumentado nos últimos anos

A participação dos fundos de investimento no patrimônio dos fundos de pensão tem aumentado nos últimos anos, passando de 57% em 2010 para 68% em 2021, segundo valores apurados no Consolidado Estatístico da Abrapp.

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Embora não se possa afirmar que o aumento seja integralmente equivalente à terceirização de recursos, visto que fatores como alterações contábeis e acréscimo de fundos de investimento exclusivos geridos pelas próprias entidades distorcem o cálculo no período, o fato é que a tendência de crescimento da gestão externa tem sido consistente.

É preciso ressaltar que o aumento ocorre na gestão de carteiras (asset management), seja de renda fixa, seja dos demais segmentos de aplicação, uma vez que a alocação de recursos (asset allocation) permanece como atribuição interna, exceto nos perfis de investimento que permitem a escolha pelos próprios participantes do plano.

Ainda com base no Consolidado Estatístico da Abrapp, podemos verificar que 166 das 239 entidades – 70% do número total – representam 32% do patrimônio consolidado. Composto por entidades de menor porte, esse grupo possui longa tradição de terceirização, muitas chegam a ter 100% dos investimentos em gestão externa e não há alteração prevista nesse quadro.

Já as 20 maiores concentram 68% do patrimônio total do sistema e é nesse grupo formado por entidades de grande porte que a terceirização se mostra crescente, sendo possível estimar que já represente, em média, o mesmo percentual da gestão própria de carteiras. Podemos sugerir dois fatores principais para que isso venha ocorrendo: deseconomia de escala e especialização.

A deseconomia de escala começa a ser sentida à medida que a expansão dos negócios tem sido aquém da esperada, fazendo com que a maioria dos planos, especialmente os de benefício definido, esteja na fase madura e necessite desinvestir porque paga mais do que arrecada dos participantes, ou seja, o grande ciclo de acumulação patrimonial parece ter ficado para trás.

Para manter a economicidade e oferecer taxas de administração competitivas no mercado, os grandes fundos de pensão vêm praticando contínuos ajustes nas despesas administrativas internas, o que torna a terceirização uma opção orçamentária natural.

A especialização é o segundo dos fatores favoráveis à gestão externa, sendo impulsionada pela necessidade de diversificação dos investimentos. O balanço de riscos estratégicos do setor ficou bastante desafiador nos últimos tempos com o aumento do custo financeiro da longevidade e a queda da taxa de juro real interna que reduziu a rentabilidade esperada para a renda fixa, a principal aplicação financeira das entidades.

Não se sabe até que ponto a conjuntura atual de títulos públicos (em particular, das NTN-B) com alto rendimento real vai durar. O cenário mais provável é que volte a cair no médio e no longo prazo, especialmente em razão dos fatores demográficos. Nesse sentido, a diversificação para aplicações no exterior e para fundos multimercados, por exemplo, pode ter até dado uma pausa, mas deverá ser retomada e liderada por gestores externos.

No tocante à gestão de carteiras, as atribuições da equipe interna cada vez mais deverão estar voltadas para a terceirização, ampliando o peso dos processos de seleção e de monitoramento na governança dos investimentos, não sendo demais observar que escolher e manter gestores externos com desempenho consistente ao longo do tempo é uma tarefa difícil.

Pelo lado da indústria de gestão de recursos de terceiros, há grande expectativa de mudanças a partir da Lei da Liberdade Econômica (Lei nº 13.874 de 2019), que promoveu alterações nas regras dos fundos de investimento. Coube à CVM revisar a regulamentação dos fundos com vistas a adaptá-la ao novo regime legal, a qual deverá entrar em vigor ainda em 2022. Aguardemos boas novas na terceirização dos investimentos.

Jair Ribeiro é especialista da UniAbrapp, Universidade Corporativa da Previdência Complementar
E-mail: jair.ribeiro.especialista@gmail.com

Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

https://valor.globo.com/financas/coluna/gestao-de-investimentos-propria-e-terceirizada-em-fundos-de-pensao.ghtml

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