Conselheiros da Petrobras ignoraram advertências em nome da “pacificação”

Caio Paes de Andrade foi aprovado para presidir a estatal apesar de sua ausência de notório saber e experiência. Ele é formado em comunicação social e tem, no setor de energia, apenas um ano e meio no conselho da PPSA

Caio Paes de Andrade foi aprovado pelo conselho de administração para presidir a Petrobras por sete votos a três. Votaram contra a representante dos funcionários, Rosângela Buzanelli, e dois representantes dos acionistas minoritários, Francisco Petrose Marcelo Mesquita, sendo que, este último aprovou o ex-secretário de Desestatização do Ministério da Economia para conselheiro da estatal. Os dois outros minoritários do conselho, Marcelo Gasparino, e José João Abdalla, votaram pela aprovação do indicado pelo acionista majoritário.

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A reunião do conselho durou duas horas. O primeiro a votar foi o presidente do comitê de elegibilidades, Francisco Petros, o único a reprovar Paes de Andrade na reunião daquele colegiado na sexta-feira. O voto foi uma advertência contra o risco de desabastecimento no mercado interno de combustíveis com uma eventual mudança na política de preços. É esta a meta perseguida pelo acionista controlador por meio da indicação de Paes de Andrade.

Foi uma advertência ainda contra a ausência de notório saber e de experiência do indicado, que é formado em comunicação social e tem, no setor de energia, apenas um ano e meio no conselho da PPSA. Apesar do aviso de que havia uma afronta à governança, o conselho estava determinado a seguir com a aprovação.

Petros alertou sobre o risco de responsabilização daquele colegiado em função tanto da mudança na política de preços e da inadequação do currículo e da experiência do candidato, quanto por uma eventual “class action”, ação judicial a ser movida por acionistas na Bolsa de Nova York, quanto por uma responsabilização pelas leis nacionais.

Caio Mario Paes de Andrade. — Foto: Denio Simoes/Valor

Caio Mario Paes de Andrade. — Foto: Denio Simoes/Valor

Além da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que recebeu ainda na segunda feira da manhã, uma representação contra a indicação de Paes de Andrade de iniciativa da Associação Nacional dos Petroleiros Acionistas Minoritários da Petrobras (Anapetro), a Lei das Estatais, a Lei das S.A e o estatuto da companhia, têm vários de seus incisos, afrontados pela indicação do novo presidente.

O primeiro a contestar o voto de Petros foi o presidente do Conselho, Marcio Weber. O voto que acabou formando maioria foi aquele de Marcelo Mesquita, segundo o qual a confirmação do indicado pelo acionista controlador seria necessária para “pacificar” o país. “O país vai pegar fogo”, disse, em função da escalada no tom do presidente da República em sua contenda com a política de preços da Petrobras.

A despeito de concordarem com o voto de Mesquita, alguns conselheiros chegaram a dizer que Caio Paes de Andrade não entrará na Petrobras com carta branca, em função da governança a ser seguida. O argumento de que a assembleia de acionistas seria o fórum mais adequado para a deliberação também foi contestado. Sua indicação foi considerada “inexorável”.

A confirmação dos demais conselheiros pela assembleia ainda depende do envio da documentação exigida pelas instâncias de governança da empresa. A data da reunião ainda não foi marcada. Até lá a conjuntura ainda pode ser conturbada pela informação que circulou no fim de semana de que o celular do ex-presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, devolvido à empresa, é depositário de pressões do presidente da República contra sua gestão.

O conteúdo do celular de seus ex-dirigentes é preservado pela companhia. E está sendo requerido tanto pelos gestores das políticas de conformidade da empresa quanto por requerimentos externos como aquele que chegou hoje à Petrobras da autoria do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

https://valor.globo.com/politica/noticia/2022/06/27/conselheiros-da-petrobras-ignoraram-advertencias-em-nome-da-pacificacao.ghtml

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