Sistema encerra 2021 com 1,11 trilhão em ativos e inicia 2022 com o pé direito. Aqui e no exterior, taxas de juros contribuem para reverter desequilíbrios
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!Após um ano turbulento, em que os resultados dos planos de pensão geridos pelas Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPCs) foram impactados por diversos fatores conjunturais, o sistema revelou-se mais uma vez resiliente, e já começa a reverter a fase mais aguda de desequilíbrio. “Atravessamos um cenário extremamente difícil que completa dois anos, mas estamos conseguindo nos recuperar mesmo com todas as dificuldades”, destaca o Diretor-Presidente da Abrapp, Luis Ricardo Martins. O aumento da rentabilidade e a elevação das taxas de juros contribuem para o resultado, em linha com movimentos observados nos sistemas de previdência privada de outros países.
Foram vários os elementos que afetaram os resultados do sistema brasileiro no ano passado, alguns ainda associados à gestão da pandemia no País, como inflação e a volatilidade da Bolsa, incertezas na esfera fiscal e um contexto político atribulado, além de oscilações no cenário econômico mundial. A despeito de todos eles, a Previdência Complementar fechada encerrou 2021 com 1,11 trilhão em ativos ou 12,8% do PIB, um crescimento de 6% – ou R$ 63 bilhões a mais – em relação a 2020, quando totalizou R$ 1,049 trilhão em patrimônio.
A rentabilidade acumulada no ano passado foi de 5,88% sobre uma alocação consolidada em renda fixa que representou 75,7% dos ativos (R$ 840 bilhões) e renda variável que somou 15,8% ou R$ 175 bi. Como resultado, o déficit líquido acumulado no setor já havia cedido de R$ 45,9 bilhões (em novembro) para R$ 36,4 bilhões em dezembro.
A tendência, observou o Diretor-Presidente da Abrapp em entrevista coletiva concedida no mês de abril, se manteve no início de 2022, devendo continuar ao longo do exercício. “Nos primeiros meses deste ano, as nossas estimativas dão conta de uma recuperação de R$ 5 bilhões do déficit do sistema”, comemora Martins. A evolução, diz ele, está relacionada à alta da Selic e à retomada das atividades nesta fase de pós-pandemia, “o que gera mais confiança para economia”.
Nesse contexto, as entidades terão um fôlego ainda maior graças à celebração, no primeiro trimestre, do acordo entre a Advocacia-Geral da União (AGU) e a Abrapp, responsável por colocar um ponto final ao litigio de mais de três décadas envolvendo as Obrigações do Fundo Nacional de Desenvolvimento (OFND), adquiridas por fundos estatais compulsoriamente em 1986. As 88 EFPCs que moveram a ação coletiva receberão R$ 8,8 bilhões em precatórios a partir de 2023. “Será possível contabilizar os créditos nos balanços, gerando um impacto financeiro positivo”, conclui Martins.
Migração para CD
Os fundos de pensão holandeses também comemoram a reversão das perdas dos últimos meses e consequente recuperação dos níveis de solvência ou fundeamento (funding ratio), cuja média subiu 5 pontos percentuais em março, alcançando 120% (maior patamar em 10 anos).
Entre as cinco maiores entidades do país (BpfBOUW, ABP, PME, PFZW e PMT, todas gestoras de planos setoriais), o funding ratio também aumentou – neste caso, para 111% – o maior desde 2008. O nível de solvência do fundo de pensão do funcionalismo público (ABP) foi o que mais cresceu: 6,8%, para 117,4%. Nos demais, a variação positiva ficou entre 1,5 e 4,1 p.p. No BpfBOUW (construção civil) chegou a 129,2%; no PME (indústria metalúrgica/elétrica), a 110%; PFZW (saúde), 110%; e PMT (metalurgia/engenharia mecânica), 108%.
O movimento deveu-se sobretudo ao aumento das taxas de juros por dois meses consecutivos – o primeiro desde 2019 – que passaram de 0,6% para 1,1%. O ajuste contribuiu para a redução de estimados 6,3 p.p. no volume de passivos, além de compensar as perdas nos investimentos. Os fundos PMT e PME, por exemplo, tiveram performance de -9% e -8%, respectivamente, enquanto o PFZW retornou -7%, resultados que os especialistas atribuem aos impactos da guerra na Ucrânia e à inflação crescente.
Na Holanda, níveis de solvência mais elevados permitem que os fundos comecem a fazer os cálculos necessários a fim de ajustar os benefícios à inflação. Atualmente, para que isso aconteça, é necessário sustentar um funding ratio de 110% por pelo menos 12 meses, mas a partir de 1° de julho de 2022, essa exigência passará a ser de 105%. A mudança faz parte da reforma que prevê a transição do contrato previdenciário padrão holandês da modalidade de Benefício Definido (BD), que vigora atualmente, para o modelo de Contribuição Definida (CD) a partir de 2027.
O regulador entende que, no novo sistema, os fundos não precisarão manter colchões de solvência tão amplos. No entanto, as entidades estão cautelosas. A ABP, que no último ano registrou solvência média de 106,5%, já declarou que precisa fazer inúmeros cálculos antes de decidir. PME e PMT, com médias de 105,3% e 103% em 12 meses, também preferem aguardar a transição completa para o CD.
Títulos públicos
Na Inglaterra, o índice de solvência agregado dos planos BD cobertos pelo esquema garantidor PPF (Pension Protection Fund) atingiu o nível mais alto desde junho de 2007, chegando a 111,4% em março. O superávit dos 5.215 planos que compõem o Índice PPF 7800 aumentou para £176,4 bilhões – contra £133,6 bilhões no mês anterior. No encerramento do primeiro trimestre, eram 1.908 planos deficitários e 3.307 superavitários, num total de ativos e passivos de £1,7 e £1,5 trilhão, respectivamente.
O déficit agregado dos planos em desequilíbrio no fim do primeiro trimestre chegou a £62,9 bilhões, inferior aos £83,1 bilhões registrados no final de fevereiro. Levando-se em conta a meta atuarial de longo prazo dos planos ingleses, a solvência média girava em torno de 87%.
Analistas britânicos observam que a redução do desequilíbrio é devida ao aumento da rentabilidade dos títulos públicos (gilts), que vêm sendo ajustados para cima de forma contínua, refletindo um novo padrão a ser praticado pelo Banco da Inglaterra daqui por diante (de dezembro a março, a taxa básica passou de 0,1% para 0,75%). Trata-se do maior nível nos últimos três anos, o que se atribuiu à alta do preço das commodities e seu impacto sobre a inflação de curto prazo, a exemplo do que vem ocorrendo em diversos países. E se por um lado a rentabilidade dos “gilts” ajudou a reduzir as metas atuariais em cerca de £61 bilhões no trimestre, o custo de vida se mantém como preocupação genuína para participantes e dirigentes; para estes, em especial, devido ao cenário de investimento atual, bastante volátil.
Redução marginal
Na Suíça, os índices de solvência dos fundos de pensão caíram de 124,6%, no final de 2021, para 119,7% no primeiro trimestre de 2022 devido a perdas em praticamente todas as classes de ativos, informa o boletim Pensionskassen-Monitor da gestora de ativos e produtos previdenciários, Swisscanto. O retorno acumulado no ano é de -3,40%.
Segundo a também suíça empresa de serviços financeiros UBS, esse é o pior primeiro trimestre para o mercado acionário em dois anos. Entre os motivos estão a guerra da Ucrânia e efeitos persistentes da pandemia, a exemplo de gargalos na indústria, e inflação generalizada. A gestora diz ainda que a elevação da taxa de juros pelo FED (Banco Central americano) gerou “perplexidade” e com isso volatilidade, fator que deve continuar acompanhando os fundos de pensão suíços no futuro próximo.
O índice de solvência dos planos de pensão públicos totalmente capitalizados baixou para 112% no primeiro trimestre em comparação a 115,3% no final do ano passado. Com isso, a maioria encontrava-se abaixo do patamar médio almejado para as “reservas de flutuação”, que é de 115%. De acordo com a Swisscanto, dada a redução de 25 pontos percentuais no indicador nos últimos meses, apenas 50% desses fundos têm, hoje, a reserva recomendada. Entre os fundos de pensão públicos parcialmente capitalizados, também houve diminuição do índice de solvência, que passou de 94,4% no final de 2021 para 90,4% até março de 2022.
Máxima histórica
Apesar da maioria dos fundos de pensão canadenses terem apresentado retornos de investimento negativos no primeiro trimestre de 2022, o índice de solvência médio em 31 de março de 2022 continuava a subir em função do aumento das taxas de desconto atuarial. Na província de Ontário, sede de alguns dos maiores planos do país, o índice de solvência médio atingiu máxima histórica de 112% em comparação a 110% em 31 de dezembro de 2021. Programas considerados “seriamente desequilibrados”, ou seja, com solvência abaixo de 85%, somavam 2% do total.
A melhora da situação é atribuída ao incremento da rentabilidade dos títulos públicos (provinciais/federais), que impactou as taxas de desconto em 30 a 40 pontos-base, a depender do período de referência, acarretando redução do passivo. O movimento acabou compensando as perdas nos investimentos, que apresentaram rentabilidades médias bruta e líquida, após taxas, de -5,5% e -5,7%, respectivamente, no primeiro trimestre.
No OTPP (Ontario Teachers’ Pension Plan – US$ 241,6 bi sob gestão), a taxa de desconto é aprovada anualmente pelos membros do Conselho Deliberativo por meio de um processo robusto que busca garantir uma premissa “razoável” e “adequada” ao plano. No Relatório anual de 2020, o fundo declara enfrentar “fortes ventos contrários e ambientes geopolítico e de investimento incertos e imprevisíveis”, além de ressaltar a queda consistente nas taxas de juros de longo prazo no país. Sob tais justificativas, o CD baixou a taxa de desconto real de 2,6% para 2,45% (+2,0% de inflação, totalizando 4,5%), patamar aplicado em 2021 e 2022.
Maior taxa e retorno
Os planos de pensão corporativos estadunidenses tiveram um 2021 atípico, em que os investimentos geraram bons resultados e as taxas atuariais também subiram, fazendo o passivo reduzir 1,96%. Tanto que o déficit agregado no Milliman 100 Pension Funding Index (PFI) caiu impressionantes US$ 183 bilhões, a segunda maior queda da história (marco superado apenas em 2013, com US$ 204 bilhões). A taxa de desconto do PFI subiu 34 pontos-base, encerrando o ano em 2,80% contra 2,46% em 2020.
Na seara dos investimentos, os retornos mantiveram a trajetória ascendente em 2021, superando as expectativas. O retorno anual acumulado foi de 8,33%, próximo do ganho de 11,56% registrado em 2020. A exemplo do que aconteceu em 2019 e 2020, 2021 foi muito favorável à renda variável, que garantiu retorno de 19% no segmento de ações globais, impulsionando os níveis de solvência para o patamar mais alto desde 2007.
Para as 19 empresas listadas nos EUA com os maiores volumes de passivo previdenciário BD do país (US$ 20 bilhões ou mais), isso significou uma melhoria de 86,2% para 93,8%, queda de US$ 150 bilhões para US$ 65 bilhões no resultado deficitário.
As três empresas com os maiores ganhos no índice de solvência – Dow Chemical (10,6%), UPS (10,9%) e Johnson & Johnson (12,6%) – foram também as que adotaram alocações mais agressivas, com 65% ou mais em ações e alternativos. Os ativos combinados por essas empresas em seus planos de pensão permaneceram no mesmo nível: US$ 902 bilhões.
Por Flávia Silva
Fonte:
PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR
Revista da ABRAPP / ICSS / SINDAPP / UniAbrapp
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