É difícil encontrar no mercado alguma EFPC que não esteja aproveitando a janela de oportunidade para adquirir títulos públicos indexados à inflação
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!Após embarcar nos últimos anos em um processo de diversificação dos investimentos até certo ponto forçado, de modo a fazer frente aos juros brasileiros nas mínimas históricas, hoje o retrato que se tira da indústria dos fundos de pensão é completamente diferente.
Com taxas de juros reais oferecidas pelas NTN-Bs acima de 5% ao ano, mais do que suficientes, portanto, para cumprir com a maior parte das metas atuariais, é difícil encontrar no mercado alguma fundação que não esteja neste momento com as atenções voltadas quase que exclusivamente para as oportunidades na renda fixa livre de risco.
E não é para menos. Em um cenário macroeconômico repleto de incertezas tanto no front externo, com a guerra na Ucrânia e a alta de juros nos Estados Unidos, como no Brasil, com a persistente pressão inflacionária e as incertezas eleitorais, a postura arrojada dos fundos em direção a ativos de maior risco observada nos últimos anos é substituída agora por um nível bem maior de conservadorismo.
Diretor de investimentos do Postalis, Pedro Pedrosa diz que, após o início da guerra na Ucrânia, optou pela suspensão de novos aportes nos fundos globais da Franklin Templeton e do BTG Pactual, selecionados em meados do ano passado.
“No momento em que um cessar-fogo entre Rússia e Ucrânia estiver se aproximando, com uma redução da volatilidade e das incertezas no mercado internacional, devemos nos aproveitar do dólar depreciado para retomar as alocações nos fundos de investimento no exterior”, afirma Pedrosa.
A alocação global representa cerca de 5% no plano de Benefício Definido (BD) do Postalis, não chegando ainda a 1% no caso do Postalprev, de Contribuição Variável (CV). A alocação alvo mirada para a classe está ao redor de 6% para os próximos anos.
Já Adilson Andrade Soares, gestor de investimentos da Derminas, diz que a politica de investimentos tinha traçado para 2022 o objetivo de elevar dos atuais 5% para até perto de 10% a alocação em investimentos no exterior.
Ele afirma que os planos foram revistos, contudo, em meio ao cenário volátil observado no mercado internacional após o início dos conflitos no Leste Europeu, e também por conta da legislação do setor dos fundos de pensão.
A revisão da Resolução 4.661, agora Resolução 4.994, não trouxe a aguardada elevação do limite da alocação global para 20%, diz o gestor. Segundo ele, a mudança traria um conforto maior para proceder com o aumento da exposição no mercado internacional, para que a alocação não beirasse o limite estabelecido.
Por enquanto, com a indefinição sobre a guerra na Europa e a frustração com a flexibilização normativa, os fundos de pensão têm se aproveitado especialmente das taxas polpudas dos títulos públicos indexados à inflação (NTN-B), com rendimentos suficientes para cumprir as metas atuariais ao longo dos diferentes prazos de vencimento da curva de juros futuros.
Pedrosa, do Postalis, afirma que tem dado preferência pelos papéis de menor duração até aqui, para assim reduzir o nível de volatilidade da carteira. Mas diz também que no segundo semestre, para quando prevê o começo de uma gradual redução nas taxas de juros, a estratégia será no sentido oposto, de alongar os vencimentos das alocações em NTN-Bs.
“Desse modo, será possível capturar o efeito positivo decorrente da queda dos juros para os preços dos títulos públicos indexados à inflação, principalmente aqueles de prazos mais longos”, afirma o especialista.
Na mesma linha, o gerente da Derminas conta que tem voltado os recursos disponíveis da carteira essencialmente para a compra de NTN-Bs de médio e longo prazo, fazendo a marcação dos ativos na curva.
Ele afirma que tem um vencimento programado para agosto de um título público indexado à inflação em torno de R$ 60 milhões na carteira, que deverá ser quase todo ele reinvestido em NTN-Bs.
“Claro que isso vai depender de como vão estar as taxas lá na frente, mas não acredito que até lá vão cair a ponto de não cumprir a meta de 4,5% mais INPC”, diz Soares.
Diretora presidente do Metrus, Alexandra Granado afirma que, dado o foco de longo prazo intrínseco às fundações, a volatilidade de curto prazo não deve servir de motivo para levar a mudanças de rumo das estratégias de investimento.
“Continuamos apostando na diversificação dos investimentos, mas claro que também aproveitando as oportunidades no mercado de títulos públicos”, afirma a dirigente.
A estratégia no fundo de pensão dos metroviários também tem sido a de priorizar as taxas das NTN-Bs bem acima da meta atuarial de 4,3%, além da inflação, mas sem reduzir, e tampouco aumentar, as alocações em classes de maior risco, como em renda variável no Brasil e no exterior, que representam entre 5% e 10% aproximadamente dos investimentos em cada plano.
Gerente de investimentos da Celos, João Francisco Schuch Bastos diz que não chegou a rever alguma estratégia por causa da guerra na Ucrânia, mas nota que ela influenciou na abertura das taxas de juros, que contribuiu, por sua vez, para as aquisições de títulos públicos e de crédito privado bancário.
“Quanto à renda variável global, estamos monitorando e pretendemos aumentar na medida em que identifiquemos oportunidades”, diz o especialista, que lembra que a avaliação sobre oportunidades no exterior tinha sido suspensa no ano passado pelas altas cotações das bolsas internacionais e pela desvalorização do real ao longo de 2021.
Cautela e corte da alocação em renda variável pela metade, conta o gerente de investimentos da Cibrius, Vinicius Albuquerque
Já o gerente de investimentos do Cibrius, Vinicius Albuquerque afirma que desde meados do ano passado, quando identificou uma deterioração do quadro macroeconômico para 2022, que passou a adotar um viés mais conservador para a carteira dos planos.
Com isso, a alocação em renda variável local no plano BD, próxima de 15% em junho de 2021, está agora mais perto de 7,5%.
Segundo Albuquerque, o valor sacado da classe de ações foi destinado basicamente à compra de NTN-Bs de longo prazo para serem carregadas até o vencimento.
No Economus, o diretor financeiro Julio Cézar Pereira afirma que, pelas próprias características da massa de participantes, com mais de 90% deles em fase de gozo do benefício, o objetivo traçado pela política de investimentos aponta para uma redução relevante da exposição à Bolsa brasileira em 2022.
Ao redor de 10% do total da carteira do fundo de pensão dos funcionários do banco Nossa Caixa, a alocação em ações deve ser reduzida até pela metade ao longo dos próximos meses.
“Mesmo que a Bolsa venha a testar algum patamar mais elevado e chegue eventualmente aos 130 mil pontos, nossa avaliação é de que o prêmio na renda fixa está bem atrativo neste ano”, diz o diretor.
Em linha com os pares, Pereira afirma que a intenção é se aproveitar da liquidez oriunda da venda dos papéis para embolsar NTN-Bs com taxas que cumprem com folga a meta atuarial de INPC mais 4,75%.
“Com a abertura dos juros dando as condições para quase todo mundo alocar os recursos em NTN-Bs com a segurança da rentabilidade para bater a meta, realmente a diversificação em outras classes de ativos acaba perdendo espaço”, diz o diretor do Economus, acrescentando que, mesmo dentro da renda fixa, o prêmio para fazer a alocação em ativos de crédito privado não parece compensar o risco, frente às taxas dos títulos públicos.
Diretor superintendente da EmbraerPrev, Eléu Magno Baccon afirma que, com a adoção dos perfis de investimento, a alocação da carteira de investimentos tende a seguir as escolhas feitas pelos próprios participantes.
E em um cenário de alta volatilidade e elevado nível de incerteza, e com os juros novamente em dois dígitos, é natural a movimentação em direção aos perfis mais conservadores, diz Baccon.
Por conta de uma demanda vinda da massa de beneficiários dos planos, a EmbraerPrev passou a permitir recentemente que os participantes façam as movimentações entre os diferentes perfis mensalmente. Até então, eles podiam fazer a alteração a cada seis meses.
“Os participantes dão as diretrizes que precisamos para que possamos fazer a gestão, principalmente sob a ótica do controle de risco”, diz o diretor superintendente do fundo de pensão da Embraer. “À medida que nossos participantes se tornam mais cautelosos em relação ao mercado como um todo, essa preocupação se reflete principalmente na exposição ao risco de renda variável”, acrescenta Baccon.
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