Presidente vê pouca margem de manobra para próxima diretoria
Às vésperas de deixar o cargo, o presidente da Petrobras, Joaquim Silva e Luna, acredita que dificilmente a nova direção da estatal, que será eleita na quarta-feira, terá instrumentos para alterar a política de preços da empresa, como vem sendo cobrado publicamente pelo presidente Jair Bolsonaro.
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!“Não tem margem de manobra para mudar isso”, afirmou o general da reserva em entrevista ao Valor. Mesmo com resultados expressivos, como o lucro recorde de R$ 106 bilhões relativo a 2021 (15 vezes superior ao resultado de 2020), ele sofreu fritura pública do governo por não ceder à pressão para mudar a política de preços da Petrobras, baseada na paridade internacional.
“Com o que tem hoje de legislação, de norma, não dá [para mudar a política de preços]. É preciso considerar que a empresa toma decisão compartilhada, é uma vontade coletiva, passa pelo comitê executivo, pelo conselho de investimentos. Não vejo como alterar isso na Petrobras”, completou.
Sem alterar as normas, e sem ceder a Bolsonaro, ele conseguiu a proeza de anunciar na última sexta-feira – a cinco dias de deixar o cargo -, a redução do preço do gás de cozinha (GLP) em mais de 5%. Em comunicado oficial, a empresa justificou a iniciativa pela “evolução dos preços internacionais e da taxa de câmbio, que se estabilizaram em patamar inferior para o GLP”.
Silva e Luna argumentou que o caminho responsável para mitigar o aumento do combustível seria por meio de ações do Congresso e do governo. Lembrou que a política de subsídios foi praticada no passado “por um período curto, bem definido, para fazer um amortecimento dessas pressões”. Mas o governo recusou-se a recorrer a esse mecanismo desta vez.
O presidente da estatal alegou que um dos impeditivos para a Petrobras rever a política de preços é o alto índice de importação de combustível: “a razão é conhecida, importamos 30% do combustível. Pagar o preço mais caro e vender mais barato vai gerar desabastecimento, mesmo”, sublinhou.
Ele acrescentou que a estatal vem sendo exposta a “crises sucessivas”, que impactam os preços dos combustíveis, como a pandemia “que ainda não está concluída”. Ele citou, ainda, a “crise de energia do ano passado, que teve impacto grande no setor elétrico e energético”, e agora a guerra na Ucrânia.
Ele argumentou que a empresa está fazendo o possível para evitar aumentos. Antes de anunciar o reajuste de 18,8% para a gasolina, e de 24,9% para o diesel no dia 10 de março, que irritou Bolsonaro, havia 57 dias que a estatal não revia os preços. “O que a empresa está fazendo? Produzir o máximo que ela pode produzir em 25 anos. Todas as refinarias bateram seus recordes acima de 92% de produtividade”, observou.
Ele elogiou as escolhas do governo para a nova direção da empresa. Sobre o ex-secretário de Minas e Energia José Mauro Coelho, que vai substitui-lo no comando da estatal, Silva e Luna classificou como “grande acerto”. Disse que Coelho “vai somar muito” porque tem “grande conhecimento na área de óleo e gás, é pessoa de fácil trato, e vai se encaixar bem”.
Quanto à indicação do atual conselheiro Márcio Weber para a presidência do conselho de administração, ele classificou como “excepcional”. “Ele foi funcionário da Petrobras, é muito respeitado, vai continuar com o trabalho que estava fazendo”, avaliou.
Silva e Luna afirmou que a nova administração vai enfrentar os mesmos desafios que ele encarou quando assumiu o cargo, há um ano. Ele não vê rumo diferente para a empresa, a não ser continuar investindo no pré-sal, que responde por 71% da exploração e produção do óleo da companhia. “É uma área de grande produtividade, com baixo teor de enxofre”, salientou. Além disso, afirmou que é preciso “investir nas refinarias, e continuar olhando para a transição energética”.
O general se despede do posto com a relação estremecida com Bolsonaro, que comandou à luz do dia a fritura do antigo aliado.
Questionado se o episódio provocou rusgas na relação dos militares com o presidente, Silva e Luna disse não ter como fazer essa avaliação. Mas disse ter recebido manifestações de solidariedade de dezenas de colegas de caserna, da ativa e da reserva. “Não me sinto arranhado por nada”, afirmou.
No período de um ano que comandou a Petrobras, a estatal começou a operar a maior plataforma de óleo e gás, a FPSO Carioca, no campo de Sépia. A empresa atingiu recorde de produção no pré-sal, antecipou pagamento da dívida em R$ 64 bilhões, investiu R$ 360 bilhões em novos projetos em cinco anos, 24% acima do volume projetado pelo ciclo anterior, diz relatório parcial de sua gestão.
Ainda no período de sua gestão, a estatal conseguiu retornar ao Índice Dow Jones de Sustentabilidade, em reconhecimento às iniciativas nas áreas ambiental, social e de governança. E obteve a elevação da nota de crédito global pela agência Moody’s.
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