Instabilidade deixa fundos de pensão sem cumprir meta atuarial em 2021

Aditus estima que metas do ano devem ficar em 15% em 2021, ante rentabilidade média de 8%

O recuo da bolsa, de um lado, e o aumento da inflação, de outro, prejudicaram o desempenho dos fundos de pensão no ano passado. Como resultado, a maior parte das entidades não deve cumprir suas metas atuariais, de acordo com um estudo da consultoria Aditus. Da base de clientes da empresa, que reúne fundações com R$ 300 bilhões em ativos, até novembro apenas 6% atingiram os objetivos. A instabilidade do mercado afetou as maiores fundações do país, como Previ (Banco do Brasil) e Petros (Petrobras).

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Os dados do ano fechado ainda não foram divulgados. Na Previ, até outubro, o déficit chegou a R$ 2,3 bilhões, mas o resultado positivo de R$ 407 milhões em novembro ajudou a atenuar as perdas para R$ 1,8 bilhão no Plano 1, de benefício definido. Os investimentos do plano como um todo tiveram valorização de 5,46%, ante um objetivo de 14,11% no acumulado de onze meses de 2021. Na fundação, a carteira bilionária de renda variável pressionou os resultados. Foi a única modalidade com perdas no ano até novembro, de 5,34%.

A fundação tem um plano de mudança gradativa dos investimentos da renda variável para a renda fixa em “momentos oportunos” e vai mantê-lo. “Já foram migrados em torno de 20% entre essas carteiras, ou seja, alienação de renda variável e aquisição de posições em renda fixa com prazos compatíveis com a política de ALM (casamento de ativos e passivos), mais aderentes ao passivo da Previ, com uma taxa de remuneração compatível com a meta atuarial do Plano 1. Sem esse processo, nosso equilíbrio técnico estaria mais propenso a volatilidades”, diz a fundação em nota.

Já na Petros, os resultados dos planos também mostram números abaixo das metas. As perdas no ano até novembro ficaram em torno de 5%, para um objetivo de cerca de 14%. “Ainda que os resultados tenham ficado aquém das metas, na comparação com os principais benchmarks, nossas carteiras apresentaram resultados satisfatórios”, compara a Petros. O resultado de aplicações em bolsa até novembro, por exemplo, teve menos perdas do que o Ibovespa, que recuou 14,37% no período.

Além disso, em 36 meses, os resultados da Petros são positivos, com ganhos de 33,09%. Na mesma base de comparação, o CDI rendeu 14,54%, e o Ibovespa, 28,45%, por exemplo. A Petros defende que possui uma carteira sólida, com a robustez necessária para enfrentar momentos de turbulência na economia e se recuperar de crises. Para diversificar mais o portfólio, a entidade começou a realizar investimentos no exterior a partir de outubro do ano passado.

A meta atuarial é calculada para os planos de benefício definido e de contribuição variável. As modalidades determinam o pagamento de renda vitalícia. Para isso, são necessários cálculos atuariais que levam em conta a necessidade de pagamentos dos benefícios e a valorização que os ativos devem ter para o cumprimento das obrigações. Em geral, consideram uma taxa base calculada pela Secretaria Nacional de Previdência Complementar (Previc) e um índice de inflação. Há regras que determinam a necessidade de equacionamento do déficit conforme o tamanho e sequência dos resultados negativos.

De acordo com as projeções de Guilherme Benites, sócio da consultoria Aditus, de forma geral, as metas do ano vão girar ao redor de 15% e a rentabilidade média deve ficar em 8% em 2021. No início do ano passado, o mercado tinha uma visão otimista para um cenário de juros mais baixos de forma mais prolongada e uma certa recuperação econômica depois de um 2020 complicado. Assim, houve um planejamento para migração das políticas de investimentos das fundações, com objetivo um pouco mais agressivo, mas a estratégia acabou não se efetivando. “O ano não permitiu concretizar o plano de fazer alocações mais sofisticadas”, diz Benites. Para este ano, não são esperadas alterações relevantes.

Dados da Abrapp, associação que representa o setor, mostram que, entre as fundações que tiveram déficit, o resultado negativo acumulado é de mais de R$ 50 bilhões. Já entre os fundos de pensão com superávit, o saldo soma R$ 21 bilhões, conforme os dados acumulados. A conjuntura econômica, incertezas políticas e avanço da cepa ômicron devem manter o cenário complicado pelo menos no primeiro semestre de 2022, prevê o presidente da Abrapp, Luís Ricardo Martins.

“É um momento de forte oscilação, que é impulsionado por fatores conjunturais”, afirma. A Abrapp apresentou propostas para a Previc e o Conselho Nacional de Previdência Complementar (CNPC) para buscar um congelamento dos eventuais déficits apurados em 2022 e passar a apurá-los somente no próximo ano. “Considerando que é algo muito pontual, conjuntural, e as oscilações têm sido muito agressivas. As gestões profissionais vão buscar medidas de recuperação”, diz. Uma medida parecida chegou a ser cogitada em 2020, no auge da crise dos mercados por causa do coronavírus. Com a rápida recuperação, ela não se mostrou necessária.

https://valor.globo.com/financas/noticia/2022/01/13/instabilidade-deixa-fundos-de-pensao-sem-cumprir-meta-atuarial-em-2021.ghtml

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