Eleições, por sua vez, devem colocar preços dos derivados da estatal nos holofotes da política em 2022
O ano de 2021 marcou uma virada de página no processo de reestruturação financeira da Petrobras. Após pagar US$ 70 bilhões em dívida desde 2014, a empresa, enfim, abriu espaço para aumentar a remuneração aos acionistas e bateu recorde de distribuição de dividendos, neste ano. A expectativa, para 2022, é que os proventos cresçam mais e que a companhia entre também num ciclo de aumento dos investimentos. Ao mesmo tempo, o ano que vem promete ser agitado para a petroleira, diante da perspectiva de intensificação da politização dos preços dos combustíveis num ano eleitoral.
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!Como reflexo da alta do petróleo no mercado internacional, a Petrobras elevou em 69,4% os preços da gasolina e em 65,5% o diesel nas refinarias em 2021. O custo político da inflação dos combustíveis colocou a estatal sob pressão do governo. Já nos primeiros reajustes do ano, o presidente Jair Bolsonaro interviu para trocar o economista Roberto Castello Branco pelo general Joaquim Silva e Luna no comando da empresa, em abril, numa substituição que abalou os ânimos do mercado financeiro, temeroso quanto a uma interferência mais radical na companhia.
O analista da Ativa Investimentos, Ilan Arbetman, afirma que, desde então, 2021 se tornou um “ano de provação” para a Petrobras. Sob a desconfiança dos investidores, a nova administração adotou um discurso de continuidade ao manter o foco no pré-sal e na disciplina financeira. Em relação aos derivados, a gestão Silva e Luna manteve os preços abaixo da paridade internacional durante boa parte do segundo semestre, sob queixas dos concorrentes. Os reajustes, no entanto, continuaram a acontecer, embora numa frequência menor, e a estatal voltou aos holofotes da pauta política.
“A ruptura acabou não se verificando, mas um dos pilares [da gestão passada], que é a paridade internacional dos preços dos combustíveis, segue na corda bamba. Temos uma agenda eleitoral longa até outubro, mas temas recorrentes como os preços dos derivados acabam tendo espaço desde já e continuarão no radar”, disse.
Cobrado por políticos do governo e da oposição a adotar um olhar mais social na questão da alta dos preços dos combustíveis, Silva e Luna respondeu com um aumento significativo dos dividendos – sob a justificativa de que a maior contribuição que a estatal pode dar à sociedade é manter-se financeiramente saudável e pagar tributos e dividendos ao Estado, para que ele, então, possa executar as políticas públicas com o dinheiro recebido.
Ao todo, a Petrobras pagou em 2021, em dividendos antecipados, relativos aos resultados do ano, US$ 12 bilhões aos acionistas – sendo um terço para a União. O valor é quase o dobro de tudo o que a estatal distribuiu aos acionistas no acumulado entre 2018 e 2020. Para 2022, a expectativa é que as cifras sejam ainda maiores, uma vez que a meta de redução da dívida bruta da empresa, para menos de US$ 60 bilhões, foi finalmente alcançada neste ano.
O diretor financeiro da Petrobras, Rodrigo Araujo, disse, em novembro, que a companhia espera iniciar, no primeiro trimestre de 2022, a nova política de distribuição de dividendos – que prevê pagar um valor equivalente a 60% da diferença entre o fluxo de caixa operacional e os investimentos. A fórmula será acionada sempre quando a dívida bruta for igual ou inferior a US$ 65 bilhões e houver lucro acumulado. Ainda pelas novas regras, o pagamento deverá ser feito trimestralmente, para torná-lo mais previsível. Também foi definido um desembolso mínimo de US$ 4 bilhões/ano quando o preço do barril superar US$ 40.
Arbetman conta que, com o preço do petróleo acima de US$ 70 o barril, segundo as projeções para o ano que vem, a Petrobras entra em 2022 num cenário macroeconômico melhor que o do início de 2021 – embora ainda haja incertezas relacionadas à variante ômicron. “Se a companhia fizer o dever de casa, tem tudo para passar ano sem maiores sustos”, afirma.
Além disso, o plano de vender a Braskem em 2022 pode aumentar ainda mais a remuneração aos acionistas. O Goldman Sachs acredita que, com a alienação dos 36% que detém na petroquímica, a Petrobras pode entregar um rendimento de dividendos (“dividend yield”) superior a 31% em 2022.
O “dividend yield” é uma razão entre os dividendos pagos por uma companhia em determinado período e o preço individual da ação. O indicador mede a performance da empresa de acordo com os proventos distribuídos. O UBS BB estima que, sem considerar os desinvestimentos, o rendimento de dividendos da Petrobras deve ficar em 21% em 2022, o índice mais alto entre as 21 petroleiras internacionais analisadas pelo banco. Na avaliação do Goldman Sachs, o grande percentual de pagamento de dividendos compensa os riscos relacionados ao ambiente político e sobre a política de preços de combustíveis da estatal.
As eleições podem aumentar a volatilidade das ações da Petrobras, mas o UBS relativiza o potencial do impacto eleitoral sobre os papéis da companhia. Ao analisar o desempenho das ações da estatal nos 180 dias pré e pós eleições presidenciais no país, o banco concluiu que, em prazos amplos, não há uma correlação clara entre performance e as urnas que possa colocar esse quesito nos riscos de 2022 para o papel.
Por outro lado, o calendário eleitoral pode afetar o ritmo da abertura do refino. O ano de 2021 foi um marco para a quebra do monopólio da estatal no setor, com a conclusão da venda da refinaria Rlam (BA), para o Mubadala, por US$ 1,8 bilhão. A petroleira tem ainda outros dois contratos assinados, para alienação da Reman (AM) para o grupo Atem, por US$ 189,5 milhões; e da SIX (PR), por US$ 33 milhões, para a F&M Resources. A Petrobras assumiu compromisso com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para vender oito unidades, mas não teve sucesso na primeira tentativa de negociar a Refap (RS), Repar (PR) e Rnest (PE).
O diretor de refino e gás da Petrobras, Rodrigo Costa Lima e Silva, afirmou, em novembro, que a companhia deve relançar em 2022 os desinvestimentos da Repar e Refap, mas que “provavelmente não pedirá as ofertas vinculantes antes da eleição” – o que torna improvável a alienação dos ativos em 2022.
Desafogada pelas dívidas, a companhia também promete aumentar os investimentos a partir de 2022. O orçamento para o ano que vem é de US$ 11 bilhões, ante os US$ 10 bilhões originalmente previstos para 2021. Dentre os principais projetos previstos para o ano está a entrada em operação, no primeiro trimestre, da plataforma Guanabara, a primeira unidade do sistema de produção definitivo do campo de Mero, no pré-sal.
Do lado operacional, 2022 deve ser um ano de baixa na produção. A meta é produzir, na média, 2,3 milhões de barris diários de óleo equivalentes (BOE/dia), ante a média de 2,48 milhões de BOE/dia acumulada em 2021, até setembro. A queda é justificada por atrasos de projetos, por conta da pandemia, e por desinvestimentos.
https://valor.globo.com/empresas/noticia/2021/12/27/petrobras-deve-manter-dividendo-alto.ghtml
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