Broadcast Energia
15:42 23/06/2021
A redução das emissões de carbono virou prioridade no mundo pós-Covid. Para atingir a meta do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global a 1,5ºC acima da temperatura média de antes da Revolução Industrial, governos, instituições e empresas discutem formas de alcançar um total líquido de zero emissões em 2050.
A queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural) é a causa principal para o aumento da concentração de gás carbônico na atmosfera. Outras fontes não têm a mesma visibilidade.
Não resta dúvida que a transição energética deve ser acelerada e que a matriz energética deve mudar. Como vem mudando desde a antiguidade, quando virtualmente toda a energia era fornecida pela queima de árvores, gravetos, grama ou esterco.
Depois da biomassa, o carvão foi a primeira grande fonte de energia. Possibilitou a revolução industrial. Na metade do século XIX era importante na matriz energética global. Meio século depois foi a vez do petróleo.
O desenvolvimento dessas fontes energéticas formatou o mundo moderno. A energia abundante e barata permitiu que se desenvolvessem o transporte, a indústria, a medicina moderna e, mais recentemente, os computadores, a internet e as comunicações sem fio. O ar-condicionado possibilitou o crescimento de cidades nos trópicos.
Há 200 anos a luz noturna era escassa. Em 1800, um operário precisava trabalhar seis horas para adquirir uma vela que durasse 60 minutos. Em 1880, com a lâmpada a querosene, bastavam 15 minutos. Atualmente, o custo de uma hora de luz equivale a uma fração de segundo da remuneração de um trabalhador médio. A redução radical no custo da iluminação teve reflexos extraordinários na educação, na inclusão e na modernização da sociedade.
A expectativa de vida cresceu vertiginosamente. No mundo pré-moderno, era de 30 anos. Desde 1900, subiu para 70. Hoje, em nenhum país se vive menos do que se vivia nas regiões mais desenvolvidas em 1800.
Nada disso teria sido possível sem os hidrocarbonetos. A indústria de petróleo e gás, além de ter tido um papel fundamental na construção do mundo moderno, também teve outros impactos positivos. O óleo de baleia surgiu como insumo para velas e como combustível para lâmpadas. Quando a indústria do petróleo nasceu, o cachalote era buscado por seu óleo, que foi substituído pelo querosene, quando dois terços da população da espécie tinham sido dizimados.
Antes do surgimento do motor a combustão, o cavalo representava um risco para a saúde pública nas grandes cidades. Havia 130.000 em Nova York. Cerca de 15.000 carcaças eram retiradas da cidade anualmente. Moscas atraídas pelo esterco disseminavam doenças como tifo, cólera, tuberculose e diarreia infantil, que causavam a morte de mais de 20.000 pessoas por ano. O quadro era similar em outras metrópoles. Em Londres, 300.000 cavalos serviam de meio de transporte. Em 1894, o Times estimou que, em 50 anos, a cidade poderia estar coberta por uma camada de um metro de estrume. O automóvel resolveu esses problemas.
Na segunda metade do século XX, o gás natural começou a despontar. Mais recentemente foi a vez das renováveis. No entanto, a maior transformação no setor energético na última década não veio de uma fonte nova. Surgiu do petróleo não convencional (shale). A produção cresceu vertiginosamente. Os EUA alcançaram a condição de maior produtor mundial e passaram por um processo de reindustrialização.
Apesar de os combustíveis fósseis responderem por mais de 85% da geração de energia, o consumo absoluto de biomassa dobrou desde 1800. Para cerca de 1,1 bilhão de pessoas ainda é a fonte primária de energia. Como 2,5 bilhões de cidadãos dependem de lenha, carvão e querosene para cozinhar, a poluição doméstica provoca a morte de 2,8 milhões de indivíduos por ano.
A energia abundante e barata permitiu que se viva melhor. Desde o ano 2000, 1,2 bilhão de pessoas ganhou acesso a eletricidade, 70% gerados por combustíveis fósseis. O mundo é 100 vezes mais rico que 200 anos atrás. Nos últimos 25 anos, mais de 1 bilhão de pessoas deixou a pobreza extrema. Amenidades como luz elétrica, ar-condicionado e TV, que não estavam disponíveis para as elites 150 anos atrás, são disfrutadas por bilhões de indivíduos. Dois séculos atrás apenas 1% das pessoas vivia em democracias. Hoje são dois terços. Esse gigantesco processo de inclusão precisa continuar. Respeitando as questões contemporâneas.
Enquanto a necessidade de desenvolver fontes mais eficientes para substituir a biomassa e a tração animal era o desafio no passado, agora é preciso aumentar a oferta de energia a preços acessíveis e diminuir as emissões de CO² e os impactos ao meio ambiente. Ao mesmo tempo.
As mudanças serão profundas. A eficiência energética vai melhorar. As fontes renováveis crescerão mais rápido. A disponibilidade de energia vai aumentar. A matriz energética será mais diversificada. A redução das emissões será gradual. A transformação se dará sem ruptura. Da mesma forma que a biomassa ainda tem um papel relevante, apesar do ativismo que envolve as questões ambientais, petróleo e gás continuarão sendo importantes por muito tempo e serão fundamentais na manutenção da qualidade de vida durante a transição para uma economia de baixo carbono. Os grandes avanços, como acontece desde que o homem deixou as cavernas, virão da inovação e da aplicação de novas tecnologias.
*Décio Fabrício Oddone da Costa é engenheiro e CEO da Enauta S.A. Foi Diretor-Geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Escreve mensalmente para o Broadcast Energia.
Este artigo representa exclusivamente a visão do autor.
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