Alocação no exterior volta ao radar de fundos de pensão

Segundo consultoria Aditus, que representa R$ 260 bilhões, investimento internacional é de pouco mais de 2% das carteiras, bem abaixo do limite de 10% permitido pela regulação

Alexandre Mathias, da Petros: Fundo prepara suas primeiras alocações externas para agosto ou setembro — Foto: Leo Pinheiro/Valor

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Alexandre Mathias, da Petros: Fundo prepara suas primeiras alocações externas para agosto ou setembro — Foto: Leo Pinheiro/Valor

Os investimentos globais voltaram a ser discutidos por fundos de pensão, e entidades como Petros (Petrobras), Postalis (Correios) e Infraprev (Infraero) avançam com aplicações no exterior. O cenário de juros baixos e o recuo do dólar nas últimas semanas alimentam o debate, embora a volatilidade da moeda seja motivo de preocupação para parte dos dirigentes e participantes do segmento.

O percentual de alocações das fundações fora do Brasil ainda é baixo. Na base de clientes da consultoria Aditus, que representa R$ 260 bilhões, é de pouco mais de 2%, bem abaixo do limite de 10% permitido pela regulação. A maior concentração é nos planos de contribuição definida (CD). Porém, a estratégia ganha força em meio a necessidade de diversificação.

Considerando a base de clientes da consultoria, os investimentos no exterior são os que apresentam os melhores resultados para as fundações nos cinco primeiros meses deste ano. No período, os ganhos foram de 16,71%, apesar da desvalorização de 2,21% em maio.

“Começamos o ano com muitos pedidos para abertura de processos de seleção de gestores para renda variável e no exterior. Abruptamente, em meados de janeiro, com a piora do mercado e o dólar alto, os processos ficaram em suspenso. Agora, foram retomados com foco no exterior”, diz Guilherme Benites, sócio da Aditus. No início do ano, a consultoria estimava que a fatia investida fora do país mais que dobraria até o fim de 2021, para 5%. A agora, a expectativa é que chegue a 3,5%.

Com o dólar mais próximo de R$ 5, há uma oportunidade interessante, mas é preciso ter cautela, recomenda o consultor, já que o investimento no exterior não se restringe ao valor da moeda americana. “A oscilação do dólar é algo muito perceptível, e para os conselhos e participantes pode ficar a impressão de que a entidade perdeu dinheiro, no caso de desvalorização do real. Mas a estratégia é de diversificação”, afirma.

Com R$ 116 bilhões sob gestão, a Petros fará suas primeiras alocações externas em agosto ou setembro, segundo o diretor de investimentos, Alexandre Mathias. Para este primeiro momento, a entidade escolheu a Schroders como gestora, e já prepara novas seleções. Inicialmente, a Petros fará uma alocação de US$ 50 milhões e vai aumentar a posição até o nível indicado pelas otimizações, podendo ficar em torno de 5% a 6% de seu patrimônio.

A entidade está estruturando um fundo exclusivo que terá dois perfis: um defensivo e outro voltado para crescimento. A ideia, segundo o executivo, é não ter exposição elevada em ativos que sofrem muito diante de uma crise, como renda variável ou commodities. “Nossa estratégia sempre foi dar um viés de proteção para a alocação no exterior”, diz Mathias. A visão da Petros é a de que, nos próximos anos, com a tendência de alta de juros nos EUA, o cenário é de retornos menores para o índice da bolsa americana S&P 500.

Há um pleito do mercado para que a Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc) aumente os limites de alocação no exterior para pelo menos 20%. Se isso acontecer, parte da estratégia da Petros poderia ficar focada em proteção e parte na diversificação de risco, segundo o executivo. Nesse patamar, o ideal seria ter cinco diferentes gestores para aumentar a diversificação. Mathias não descarta a possibilidade de, mais adiante, recorrer aos fundos de índices (ETFs) de BDRs -abreviação de Brazilian Depositary Receipts, que permitem ao investidor local acessar papéis fora do Brasil. Apesar disso, esses títulos são negociados na bolsa brasileira, e portanto são considerados investimentos locais. Isso pode ocorrer à medida que a Petros criar expertise no assunto, para alocação diretamente pela fundação, de acordo com o diretor.

Nem todos os fundos, porém, estão propensos a investir no exterior. A Fundação Real Grandeza (FRG), dos funcionários de Furnas, por exemplo, segue mais receosas e analisa o melhor momento para iniciar o processo. A entidade defende maior cautela para o investimento, enquanto ainda acredita que a bolsa brasileira está barata em relação a outros pares internacionais. A política de investimentos permite uma alocação de até 2,5% no exterior, mas nenhuma aplicação foi realizada até o momento.

“Temos que ir com cuidado. Com o dólar a R$ 5,60 teríamos perdido 11% com a variação cambial. Foi bom termos sido cautelosos e estudarmos o mercado, que é novo para nós. Estamos fechando o manual de seleção de gestores com muito cuidado”, diz o presidente da FRG, Sérgio Wilson Fontes. Uma das estratégias avaliadas é a aplicação em fundos de índice (ETFs) que seguem o S&P 500.

Já o Postalis aumentará a sua participação no exterior para cerca de 9%, considerando a média dos dois planos que administra. A entidade vai investir R$ 800 milhões no exterior e contratou o BTG Pactual e a americana Franklin Templeton como gestores terceirizados. No processo de seleção, analisou 18 propostas, o que surpreendeu a própria a fundação. Desde o fim da intervenção federal, em dezembro de 2019, a administração foi reconstituída e a entidade afirma ter fortalecido a governança dos investimentos, alvo de desvios no passado.

“Estamos montando o ‘timing’ da aplicação. Contratamos uma consultoria para determinar um preço-alvo”, afirma o diretor de investimentos do Postalis, Pedro Pedrosa. A entidade busca exposição ao S&P 500 e vai dividir os recursos entre sete e nove fundos, além de ETFs. “Não vamos fazer hedge. Queremos exposição em câmbio pela correlação negativa com renda variável local”, diz.

No caso do Infraprev, fundo de pensão dos funcionários da Infraero, a alocação também vai chegar a 9%, com os investimentos planejados de R$ 330 milhões no exterior em 2021. Até o fim de 2020, a alocação era de 0,6%, basicamente em ETFs, conta a diretora de administração e finanças, Daniela Melo. Os dois primeiros gestores escolhidos foram Aegon e Morgan Stanley, para uma alocação de R$ 185 milhões, correspondente a 5% do portfólio. “Fizemos uma alocação sem hedge, em junho. Foi um bom momento porque o dólar já tinha caído”, afirma.

Uma nova seleção de gestores para renda fixa multiestratégia no exterior será realizada no segundo semestre. Para essa fase, a previsão é alocar mais R$ 145 milhões, ou 4% da carteira.

https://valor.globo.com/financas/noticia/2021/07/02/alocacao-no-exterior-volta-ao-radar-de-fundos-de-pensao.ghtml

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