Inspiração canadense no turnaround da Petros

Na gestão do jovem advogado carioca Bruno Dias, fundação começa a sair do buraco e tem primeiro resultado positivo em nove anos para os maiores fundos de benefício definido

Segundo maior fundo de pensão do país, a Petros comunicou hoje a seus participantes e funcionários o primeiro resultado positivo em nove anos em seus maiores planos – e consolidou o primeiro balanço sem ressalvas pela auditoria externa em sete anos.

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“Hoje a gente começa a sair desse grande processo de turnaround, que entramos em setembro de 2019”, afirma Bruno Dias, presidente da Petros. A gestão do jovem advogado carioca, que veio da diretoria da Susep e passou anos no BNDES, tem menos de dois anos mas já virou a fundação de ponta-cabeça.

Dias gastou retórica e sola de sapato para começar a colocar a fundação nos trilhos – trazendo uma visão de gestão corporativa para o negócio, que costuma ser tratado como uma asset e um conjunto de balancetes e posições.

Dias, presidente da Petros há menos de dois anos: renegociação geral de termos e gestão — Foto: Divulgação/Cícero Rodrigues

Dias, presidente da Petros há menos de dois anos: renegociação geral de termos e gestão — Foto: Divulgação/Cícero Rodrigues

“Chamamos todo mundo para mesa, colocando a Petros como protagonista da solução. Viajei por vários estados conversando com participantes e sindicatos, até chegarmos a uma solução que reduziu a contribuição extraordinária média”, conta Dias. Essa contribuição estava em 25% e caiu para a faixa de 10% a 15% e a meta atuarial dos planos, que era de IPCA mais 5,27% também foi reduzida – nos dois planos principais, o índice passou a acompanhar taxas de 4,43% e 4,37%.

Ele descreve o cenário de conflito que encontrou, em que todos os stakeholders estavam insatisfeitos – patrocinador, participante, sindicatos, equipe e mais de mil ações correndo na Justiça, e um déficit de quase R$ 37 bilhões. “Também não havia eficiência nas responsabilizações de pessoas ou atores que trouxeram algum impacto negativo para a Petros no passado, e a cultura era muito engessada e burocratizada. Era claro que a companhia precisava de um freio de arrumação rápido.”

É fato que todo novo presidente de fundação deficitária anuncia, logo na sua chegada, um grande plano para salvar o balanço da lama – e assim justificar também mais uns ajustes pelo caminho. Mas Dias, até aqui, já tem um mérito de resultados e em um contexto pouco favorável para as fundações baterem suas metas atuariais, que são os juros baixos e inflação em alta.

O rendimento consolidado da fundação no ano passado foi de 8,45%, o que significa um retorno líquido de R$ 7,6 bilhões nos investimentos, aumentando em 9% o patrimônio total, para R$ 116 bilhões. Os dois maiores planos de benefício definido (tipo que é o maior desafio para fundações) somaram superávit de R$ 1,5 bilhão, batendo as metas atuariais de cada um. Claro que ajudou o fato de suas metas terem ficado menores, mas isso não afeta quanto o participante vai receber no futuro, explica Dias.

Em real estate, a vacância da carteira da Petros caiu de 42% para pouco mais de 20%. As posições em bolsa responderam por boa parte dos retornos da carteira no ano passado – inclusive em fundos de gestão ativa da fundação.

A equipe da Petros ficou 30% mais enxuta e, no número final, houve um turnover de outros 30%. Toda a diretoria e gerência executiva passou a ser selecionada por headhunters. “Foi uma mudança grande no perfil do quadro funcional, trouxemos muita gente de mercado, de grandes bancos”, conta. Isso foi fundamental para a Petros voltar a ter uma mesa interna – o que já foi ponto de crítica da indústria no passado, já que os gestores não eram especializados.

O FIA Petros Ativo rendeu 11,84%, superando o Ibovespa em 8,7 pontos, e o FIM Carteira Ativa, ganhou 4,73% no ano. “Na comparação com multimercados no biênio de 2019-20, ficamos em sétimo lugar em rentabilidade, considerando o consolidado”, compara. “A gestão interna está começando devagar e a ideia é que seja uma proporção pequena, mas nos ajuda a ter um senso mais apurado do mercado e sobre os gestores externos.”

A definição da política de investimento e da governança tem sido estabelecida olhando para os benchmarks canadenses, com a consultoria da McKinsey – o principal modelo é o CPPIB.

“Temos olhado muito para os fundos de pensão canadenses e aplicado nas nossas políticas, como já incorporar o passivo nas métricas de investimento”, diz Dias.

A fundação contratou a Deloitte para averiguar seus controles e como tratar investigações e, nesse ajuste, foi criada uma área específica no jurídico para correr atrás de prejuízos causados por administrações anteriores ou por gestores a quem a Petros entregou seu capital. Essas investigações, conduzidas pela Grant Thornton por licitação, fazem a mensuração de dano e apontam que medidas podem ser tomadas.

No ano passado, a fundação concluiu 17 investigações, que é mais do que fez em toda sua história, e ficou proativa nas brigas – passou a ser assistente de acusação do Ministério Público, por exemplo, em algumas ações em andamento. No ano passado, foram R$ 108 milhões recuperados nesses processos.

A caminhada para chegar aos parâmetros canadenses é longa. No CPPIB, a diversificação geográfica e a estratégia de private equity são bastante relevantes. Na Petros, a discussão sobre alocação internacional foi iniciada, mas ainda não praticada. Para 2021, private equity está fora de cogitação. Os 28 FIPs que a fundação tinha na carteira foram reduzidos a sete e a Petros só vai voltar a investir no ativo quando tiver equipe preparada para isso e segurança jurídica, afirma Dias.

https://pipelinevalor.globo.com/mercado/noticia/inspiracao-canadense-no-turnaround-da-petros.ghtml

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