Integrantes do atual conselho aceitaram ir para a empresa dentro de um projeto bem estruturado, que não previa a intervenção do presidente Jair Bolsonaro na companhia

— Foto: Alexandre Cassiano/Agência O Globo
A decisão de quatro conselheiros da Petrobras, indicados pela União, de não aceitarem ser reconduzidos para os cargos, anunciada na noite de ontem, se relaciona com o aumento dos riscos depois da intervenção do presidente Jair Bolsonaro na companhia.
Os riscos são de duas ordens: para a empresa, que vinha avançando na estratégia de negócios, tendo como um dos pilares a venda de ativos; e para os próprios conselheiros, que passaram a ver uma chance maior de serem responsabilizados na pessoa física (no CPF) pelos seus atos.
Não que o risco de processos contra a companhia e os conselheiros fosse inexistente antes da intervenção de Bolsonaro, mas era “mais controlado”, segundo uma fonte.
Existe avaliação, entre conselheiros, que a troca de Roberto Castello Branco do comando da Petrobras, da forma como foi feita, “empodera” aqueles que são contra as mudanças de gestão que vinham sendo feitas e que estavam desenhadas no plano estratégico da companhia.
Como resultado, aumentam as chances de processos contra os executivos que estão no conselho, seja por investidores no Brasil e no exterior e também por sindicatos de trabalhadores.
“O conselho atual é muito bom, com pessoas com experiência e complementariedade. A governança da companhia melhorou e tem uma diretoria eficiente conduzida por um bom executivo. De repente o negócio acaba e você pensa: ‘Vou ficar aqui correndo risco?’”, disse um conselheiro.
Os integrantes do atual conselho aceitaram ir para a Petrobras dentro de um projeto bem estruturado, que não previa intervenção do governo. A gestão era baseada em uma diretoria que apresentou um plano estratégico que “fazia sentido” na visão dos conselheiros indicados pela União, quando o governo começou, no distante janeiro de 2019.
Havia ainda um conselho de administração alinhado em apoiar a transformação da Petrobras em uma empresa de mercado, eficiente e moderna, que pudesse chegar mais próxima das melhores do setor em termos internacionais. A avaliação é que a companhia estava no caminho certo, mas era apenas o começo.
Os resultados de 2020 foram uma amostra do trabalho feito em dois anos de administração, disse uma fonte.
Um executivo elogiou a gestão atual, apoiada pelo conselho, e que introduziu uma política de sucessão, em termos de recursos humanos, baseada na meritocracia e não no apadrinhamento, na indicação política. “Era uma transformação efetiva”, disse um executivo.
Um dos pilares do plano da Petrobras é vender ativos que não geram resultado para reduzir dívidas e investir em negócios melhores, com concentração no pré-sal.
A intervenção da União na empresa criou uma série de incertezas, e mudou o cenário.
Ontem a Petrobras informou que João Cox Neto, Nivio Ziviani, Paulo Cesar de Souza e Silva e Omar Carneiro da Cunha Sobrinho, todos indicados pelo controlador, a União, não pretendem ser reconduzidos ao conselho de administração da companhia na próxima Assembleia Geral Extraordinária (AGE).
No dia 19 de fevereiro, quando Bolsonaro anunciou a troca de Castello Branco pelo general da reserva Joaquim Silva e Luna, a União sinalizou, em ofício enviado à Petrobras, que deixava a porta aberta para recondução dos conselheiros eleitos, no ano passado, pelo sistema de voto múltiplo.
Por esse sistema de votação, a destituição de Castello Branco leva automaticamente aos demais conselheiros eleitos por esse processo a também terem que deixar os cargos e se submeterem a nova eleição na AGE. São sete vagas de um conselho de 11 cadeiras.
A decisão dos quatro conselheiros de não participarem da recondução tem uma questão prática envolvida, que se relaciona ao fato de que eles tiveram os mandatos interrompidos a partir da intervenção na empresa.
Os conselheiros vão continuar nos cargos até a AGE e depois deixam as funções.
Um conselheiro disse que não houve um “motim”, o que poderia parecer uma vez que a decisão foi anunciada ontem de forma conjunta. O que aconteceu é que os conselheiros tinham que definir a situação pois estavam no limite de tempo para encaminhar documentos necessários à recondução a tempo da realização da AGE, que deve ocorrer no começo de abril. “Esse processo [de análise da documentação] demora e, se eles não começassem imediatamente, não daria tempo até a assembleia”, disse uma fonte.
Antes de anunciar a saída os conselheiros conversaram muito, individualmente com pessoas de sua confiança e advogados. Foi uma decisão refletida desde que todo esse processo de mudança na Petrobras foi oficializado, na sexta-feira, 19 de fevereiro.
Agora a União terá que indicar nomes substitutos para os conselheiros que desistiram de ser reconduzidos. Será preciso encontrar quem queira o cargo e, mais importante, que consiga preencher os requisitos de governança exigidos pela Petrobras.
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