Exclusivo: Petrobras tem de enxergar ‘questões sociais’, diz Silva e Luna, que pretende ‘ouvir muito’ Guedes

Indicado por Bolsonaro para substituir Castello Branco no comando da empresa, general negou que o presidente tenha pedido mudanças na política de preços da estatal

Indicado pelo presidente Jair Bolsonaro para substituir Roberto Castello Branco na presidência da Petrobras, o diretor-geral de Itaipu Binacional e general da reserva, Joaquim Silva e Luna, disse ao Valor que uma empresa tem que enxergar as questões sociais, ao ser questionado sobre as queixas dos caminhoneiros sobre o preço do diesel. Ele negou que Bolsonaro tenha pedido mudanças na política de preços da empresa. Para ele, “liberal” ou “estatal” são carimbos, e afirma que pretende ouvir muito o ministro da Economia, Paulo Guedes, se for confirmado no novo cargo pelo conselho de administração.

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O convite para presidir a Petrobras foi feito durante o Carnaval, segundo relatou, quando teve uma longa conversa por telefone com Bolsonaro. No entanto, ponderou, foi lhe pedido reserva pelo presidente por ser “obviamente” uma empresa de economia mista. Ao mesmo tempo, acrescentou, sente-se confortável com a necessidade de manter silêncio sobre os assuntos da empresa, pois ainda terá seu nome avaliado pelo conselho da companhia.

“Se for para servir o Brasil, eu estou pronto”, destacou o general da reserva. “Ainda serei avaliado pelo conselho de administração de empresa, tenho um caminho a ser percorrido”, acrescentou Silva e Luna, segundo quem isso deve ocorrer nesta terça-feira, em reunião do conselho que já estava prevista. “O conselho é independente, tem a sua visão de mercado. Não conheço os conselheiros, mas têm lá os seus critérios. Vai ser rigoroso.”

O general Joaquim Silva e Luna — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O general Joaquim Silva e Luna — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A indicação de Silva e Luna ocorre num momento de acirramento da crise dos combustíveis, e em meio ao desconforto no governo com declarações de Castello Branco relativizando a insatisfação dos caminhoneiros com o preço do diesel. “Não se trata de um problema da Petrobras”, afirmou Castello Branco no dia 28 de janeiro, durante um evento online do Credit Suisse.

Silva e Luna negou que Bolsonaro tenha pedido mudanças na política de preços da estatal. “O presidente declarou que jamais iria interferir em uma empresa, declarou de público isso, comigo ele não tratou disso”, disse o general, lembrando a fala de Bolsonaro em evento em Sertânia nesta sexta-feira.

O diretor-geral de Itaipu ponderou que qualquer coisa que falar agora sobre Petrobras seria “indelicado e ilegítimo”, porque não teve o nome submetido ao conselho. No entanto, admitiu que está atento aos desdobramentos da crise. “Eu estou acompanhando, estou atento a tudo isso, ao mercado, ao aumento dos preços”, afirmou.

Silva e Luna acompanhou de perto a greve dos caminhoneiros que paralisou o país em 2018 quando era ministro da Defesa no governo de Michel Temer. Ele disse que dois fatores da equação que envolve o preço dos combustíveis – valorização do câmbio e do petróleo – têm impacto social.

“Resumindo: o preço do diesel e da gasolina impacta toda a cadeia produtiva do país. O caminhoneiro está se manifestando, mas a sociedade inteira percebe isso. Isso aí são considerações que têm que ser analisadas junto com o conselho [da empresa], junto com a equipe”.

Questionado se um presidente de estatal tem de conciliar a capacidade de gestão com responsabilidade social, Silva e Luna afirmou que “qualquer servidor público, que serve à Nação, tem que ter consciência social”. Acrescentou que o mesmo se aplica à empresa: “uma empresa tem que estar totalmente incluída na sociedade, tem que enxergar as questões sociais”.

Para Silva e Luna, os conceitos de empresa liberal ou estatal são carimbos quando o mais relevante é a entrega de resultados. “Esse carimbo de estatal, privado, sociedade aberta ou mista, são conceitos importantes sobre o capital, mas em termos de eficiência de uma empresa, o que importa são processos e pessoas”, afirmou. “Se as pessoas são competentes, e são bons processos decisório e de investimentos, ela vai dar resultado, poderá ser a mais competitiva do mundo”.

Ainda segundo o general, “política liberal, estatal, são carimbos que se perdem quando você toca para entregar o melhor resultado possível. Liberal, ou não, é um carimbo a ser superado pelos fatos”.

Ele disse que, se for confirmado no cargo, quer estreitar a relação com Paulo Guedes. “Se eu for confirmado, é uma das primeiras autoridades com que vou fazer contato, vou conversar bastante com ele, e ouvi-lo, eu tenho capacidade de ouvir e aprender com todo mundo”.

Silva e Luna nega que tenha sido escolhido pela patente militar. “Essa escolha pelo presidente não teve nada a ver com eu ser general, assim como minha indicação para Itaipu: o presidente se baseou em currículo e capacidade de gestão, minha experiência acumula muita informação”, diz.

Silva e Luna foi ministro da Defesa. Antes, foi secretário-geral do Ministério da Defesa por quatro anos, função em que respondia pela gestão do orçamento das três Forças militares. Além disso, ele está há dois anos à frente de Itaipu Binacional, a “maior produtora de energia elétrica do mundo”. “Vou entregar uma empresa enxuta, em condições de competir no mercado com qualquer outra empresa”, diz o general, que implantou medidas de austeridade na binacional quando assumiu o cargo.

O general ressaltou que, enquanto seu nome ainda não recebe a chancela do conselho de administração da Petrobras, continua na direção geral de Itaipu Binacional. “Minha atividade voltada para ações aqui”, disse, complementando que semana que vem Bolsonaro, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, e a cúpula de Furnas participarão de solenidade promovida por Itaipu para a inauguração de um projeto de revitalização de uma linha de transmissão.

Silva e Luna afirmou não temer o “gigantismo do desafio” e assegurou estar pronto para encará-lo. “É um grande desafio pela conjuntura do momento… Talvez o maior da minha vida”, disse. “Não me sinto confortável, mas me sinto seguro.”

https://valor.globo.com/politica/noticia/2021/02/20/silva-e-luna-diz-que-petrobras-tem-de-enxergar-questoes-sociais-e-que-pretende-ouvir-muito-guedes.ghtml

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