Objetivo deve ser equilibrar a carteira para ganhar no longo prazo

O investimento previdenciário é desafiador, em função de horizontes de investimento mais longos, riscos de reinvestimento e riscos atuariais envolvidos. Não é uma tarefa simples traçar metas de rentabilidade críveis ao longo do tempo para os planos de previdência, no melhor interesse de seus participantes, além de identificar e pesar variáveis, entre riscos e oportunidades, que possam impactar os retornos esperados. Também é preciso compreender o perfil do investidor para atender aos seus objetivos e, ao mesmo tempo, trazer alternativas que possam eventualmente superá-los, por meio da diversificação da carteira, especialmente importante para planos de contribuição definida/ variável.
Ajudar alguém a construir o seu futuro financeiro e reserva de valor de longo prazo sempre é um trabalho complexo, que requer disciplina e expertise. Quando o presente se torna mais volátil e incerto, como agora, em meio à crise da Covid-19, esse trabalho se torna ainda mais desafiador e fundamental para buscar garantir os retornos almejados, especialmente no momento em que o investidor está mais preocupado e apreensivo.

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De fato, no Estudo Global de Investidores 2020 da Schroders sobre aposentadoria, uma parcela significativa (41%) dos 23 mil investidores pessoas físicas ouvidas, em 32 localidades no mundo todo, expressou a preocupação de que a sua renda na aposentadoria poderia não ser satisfatória. Além disso, 55% acreditam que a previdência pública não será suficiente. No Brasil, esses percentuais eram de 33% e 62%, respectivamente. O estudo também mostrou que essas apreensões estão refletidas na boa parcela de renda que os entrevistados disseram reservar para a aposentadoria: 15,2% globalmente e 16% no Brasil.
Por outro lado, 38% dos investidores disseram não entender as opções disponíveis para eles com suas economias para a aposentadoria. No Brasil, 36% disseram se sentir dessa forma. Ou seja, apesar de ser positiva a parcela de renda dedicada para a aposentadoria, ainda falta uma compreensão maior do investidor sobre as alternativas para aplicação dos recursos de maneira eficiente e diversificada. Porque não basta reservar um bom percentual da renda para a aposentadoria: é preciso investi-lo de maneira eficaz, com foco no longo prazo e com diversificação no portfólio, combinando renda variável, renda fixa, multimercados no Brasil e no exterior.

Segundo a pesquisa, em três anos, aumentou de 5% para 21% a parcela dos aposentados em todo o mundo que estão investindo a sua renda disponível de volta em suas poupanças para a aposentadoria, dada a maior longevidade e o maior custo de vida que o vislumbrado anteriormente nessa fase da vida. Hoje, apenas 26% dos aposentados colocariam dinheiro em outro tipo de investimento, como ações, títulos de dívida ou commodities. Após um ano de incertezas significativas, talvez isso não seja surpreendente, mas certamente não é o ideal.
O estudo da Schroders também mostrou maior aceitação dos critérios ambientais, sociais e de governança (ESG) para investir com foco na aposentadoria. No geral, 42% dos investidores globais e no Brasil afirmaram que o investimento sustentável é atrativo devido à probabilidade de retornos mais altos. E apenas 8% das pessoas não investem em fundos que consideram os aspectos de sustentabilidade por acharem que eles não oferecem retornos mais altos. Ainda assim, os aposentados têm quase duas vezes mais probabilidade do que os não aposentados de ter essa percepção, indicando que eles podem estar perdendo as oportunidades oferecidas por esse tipo de investimento.

O ESG ganhou ainda mais relevância após a Covid-19 e, na perspectiva das finanças, diz respeito à probabilidade de o ativo continuar gerando retornos acima do mercado no longo prazo, o que é o foco do investimento previdenciário para uma renda satisfatória na aposentadoria. Empresas que têm uma abordagem ESG na condução de seus negócios tendem a ser mais resilientes e mais bem preparadas para os desafios futuros. Ou seja, incluir esses ativos no portfólio contribui para mitigar riscos de cauda (eventos com baixa probabilidade de ocorrer, mas que, se ocorrerem, têm efeitos muito agudos).
Como vimos com o caso da Covid-19, as crises podem ser totalmente inesperadas e impor perdas mais fortes a um portfólio de investimentos pouco preparado para eventualidades do tipo. Ainda assim, a situação exige ajustes eficazes e agilidade por parte do gestor para proteger o patrimônio e buscar manter as rentabilidades almejadas no longo prazo. No Brasil, o estudo da Schroders mostrou que, entre fevereiro e março de 2020, quando os mercados de ações passaram por um período de volatilidade mais intenso, 79% das pessoas fizeram alterações em sua carteira, com 70% delas modificando o nível de risco. Entre os entrevistados no país, 27% disseram ter transferido porções consideráveis da carteira para investimentos de risco mais baixo; e 16% fizeram o mesmo movimento, mas para investimentos de risco mais alto.

A crise da Covid-19 também provocou um foco maior do investidor nas suas aplicações, com quase metade (49%) das pessoas entrevistadas afirmando que agora pensam em seus investimentos pelo menos uma vez por semana, em comparação com 35% antes da pandemia. No Brasil, essa porcentagem é ainda maior: 65% dos investidores pensam nas suas aplicações frequentemente (ao menos uma vez na semana) desde o começo da crise. Antes da crise, a parcela era de 52%.

Mas, apesar de toda a movimentação dos mercados e dos ajustes necessários aos investimentos, é preciso se ater aos princípios e objetivos previdenciários, equilibrando a carteira para ganhar no longo prazo, e não apenas para não perder no curto prazo. Separar o barulho e ansiedade do curto prazo da trajetória e objetivos de longo prazo é muito importante. O papel do strategic asset allocation como bússola nessa trajetória é ponto central para os investidores e gestores de fundos de pensão, ainda mais relevante quando as taxas de juros estão nas mínimas históricas, e o câmbio, desvalorizado. É natural que um momento de incerteza gere apreensão e aversão a risco no primeiro momento, mas pode-se observar uma busca por mais conhecimento financeiro dos clientes, bem como uma mudança relevante na composição dos portfólios.

Torna-se cada vez mais crítico persistir com os objetivos de acumulação para aposentadoria no longo prazo, com foco na diversificação, nas contribuições mensais, em rentabilidades baseadas em juros reais e após impostos, apesar das oscilações momentâneas do mercado, considerando a ótica ESG. Esse desafio foi intensificado pela crise em 2020 e persistirá em 2021. Para superá-lo com mais segurança, o investidor pode contar com a orientação de um profissional, capacitado a olhar para o cenário mais amplo e com recursos para avaliar as múltiplas variáveis em jogo nesse panorama cada vez mais complexo. A mudança de mentalidade do investidor, concentrado no desempenho das suas aplicações e olhando para o futuro, já está em curso. Trata-se de transformá-la efetivamente em realidade, para perseguir bons resultados e, assim, atingir as metas para a aposentadoria.

Daniel Celano é Diretor responsável pela gestão de recursos de terceiros da Schroders Brasil

https://www.investidorinstitucional.com.br/sessoes/gente/ponto-de-vista/35370-objetivo-deve-ser-equilibrar-a-carteira-para-ganhar-no-longo-prazo-daniel-celano.html

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