Sergio Moro torna-se diretor de empresa americana de consultoria

Sete meses após deixar o governo, em meio a um conflito com o presidente Jair Bolsonaro, o ex-juiz e ex-ministro da Justiça Sergio Moro estreia na iniciativa privada como sócio-diretor da Alvarez & Marsal. A partir de 1º de dezembro, Moro passa a comandar a área de disputas e investigações da consultoria americana. Vai responder à direção da companhia em São Paulo, mas continuará baseado em Curitiba, com viagens frequentes à capital paulista. E, também, a Nova York, já que sua atuação no cargo não ficará restrita ao Brasil.

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Principal juiz da Lava-Jato até 2018, quando deixou a magistratura, Moro destaca que sua experiência de 22 anos como magistrado o ajudou a construir uma expertise em temas como crimes de colarinho branco e lavagem de dinheiro. “No setor privado brasileiro, principalmente depois da Lava-Jato, houve um despertar das empresas, do setor empresarial brasileiro, em relação à necessidade de imprimir políticas de integridade e de compliance. Isso também decorre de um movimento internacional em prol da integridade”, disse ao Valor.

Com a transferência para o setor privado, num cargo em que Moro terá agenda repleta de compromissos profissionais, não fica mais distante a possibilidade de uma candidatura nas eleições de 2022? “O foco agora é trabalhar com o setor privado para implementar essas políticas de integridade e anticorrupção”, esquivou-se o ex-ministro, evitando responder também se planeja se filiar a um partido. Moro também preferiu não analisar as mudanças no cenário político decorrentes das eleições municipais.

Na consultoria especializada em reestruturação corporativa, a divisão que Moro irá chefiar trata não só da apuração de possíveis crimes corporativos. Envolve, ainda, atuação na resolução de conflitos societários, tributários e contratos de concessão, entre outras disputas.

“Ele [Moro] vai estar dentro da Alvarez & Marsal Brasil, mas com um ‘chapéu’ mais amplo”, disse o sócio-diretor da consultoria Marcos Ganut, líder nas áreas de Infraestrutura e de Disputas e Investigações, a quem Moro vai se reportar na nova função. Assim como Moro, Ganut está na filial brasileira, mas conta com equipes em outros países, como Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos e Colômbia, por exemplo.

Ao todo, a Alvarez & Marsal conta com mais de cinco mil funcionários espalhados pelo mundo. Desse total, aproximadamente 500 estão no Brasil.

Na América Latina, a divisão de disputas e investigações conta com cerca de 160 empregados, mas Moro esclarece que os colaboradores da A&M serão distribuidos por projeto. No país, a receita dessa área específica da Alvarez & Marsal cresceu a uma taxa superior a 30% nos últimos anos, informou Ganut.

“O setor privado brasileiro tem condições hoje de avançar muito mais que o setor público no que se refere à promoção de políticas de integridade porque esta é uma exigência internacional”, opinou Moro. “Há uma tendência de se buscar os standards [padrões] mais elevados. [No caso de] uma empresa, por exemplo, no Brasil que faz negócios nos Estados Unidos, que tem ações na bolsa americana, que exporta para a Europa, a tendência, cada vez maior, vai ser você ter de se nivelar pelo patamar mais alto”, acrescentou.

O fato da Alvarez & Marsal ter em sua carteira de clientes a Sete Brasil, a Odebrecht e a Queiroz Galvão, todas investigadas na Lava-Jato, não é encarado por Moro como fonte de potenciais constrangimentos. “O papel da Alvarez & Marsal não é de atuar em defesa dessas empresas. É buscar o aprimoramento, a reestruturação, em alguns casos, ou, às vezes, como se diz aqui, a adoção de políticas efetivas de conformidade”, frisou o ex-ministro.

O contrato do ex-ministro com a A&M inclui cláusula prevendo que ele não atue em casos que possam gerar conflitos de interesse. A Alvarez & Marsal é administradora judicial da Odebrecht e atua como assessora financeira na recuperação da Sete Brasil. Ambas as empresas pediram recuperação judicial na esteira dos escândalos de corrupção descobertos pela Lava-Jato. A Queiroz Galvão, que também teve executivos presos pela Lava-Jato, contratou a A&M para reestruturar o grupo.

“A Lava-Jato teve esse efeito colateral também positivo de não só gerar uma expectativa de mudança no setor público mas de ser um motivador do setor privado para despertá-lo quanto a uma necessidade [para qual] deveriam ter despertado mesmo sem a Lava-Jato”, disse Moro. A operação de combate à corrupção teve, também, impacto direto sobre a saúde financeira de empresas de construção pesada e infraestrutura, como a Odebrecht e a Andrade Gutierrez, e sobre a cadeia de fornecedores destas companhias.

https://valor.globo.com/politica/noticia/2020/11/29/sergio-moro-torna-se-diretor-de-empresa-americana-de-consultoria.ghtml

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