Pesquisa da XP com fundos de pensão mostra que a aplicação fora aparece como uma dos mais atrativas para diversificação da carteira
Os recursos dos fundos de pensão brasileiros ainda estão quase que totalmente investidos no mercado nacional. Mas apesar de haver uma propensão maior – e não se trata apenas de uma característica do Brasil – de os investidores institucionais aplicarem em ativos domésticos, parte da indústria está se convencendo de que a diversificação internacional é importante para melhorar o desempenho do portfólio em tempos de juros nas mínimas históricas. É o caso do Postalis, fundo de pensão dos Correios, que pretende colocar o pé no mercado externo ainda em 2020, e da Fapes (BNDES), que este ano atingiu o limite máximo permitido para aplicação fora.
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!A tendência de investir em ativos domésticos, conhecida como “home bias”, é mais forte ainda em mercados em crescimento, como o brasileiro, segundo um estudo da consultoria Mercer. O levantamento mostrou que o Brasil só fica atrás da Indonésia nesse processo, com praticamente a totalidade de seus portfólios em ativos locais.
Esse viés resulta em exposição em ativos estrangeiros abaixo do ideal e reduz a eficiência dos portfólios, afirma o líder de previdência e investimentos da Mercer Brasil, João Morais. O fenômeno é explicado por questões como impostos, volatilidade cambial, barreiras regulatórias e custos de transação.
“Ao se limitarem a estratégias e produtos dominados pela exposição doméstica, os investidores renunciam a uma ampla gama de oportunidades fora do mercado local. Temos estimulado nossos clientes a revisar suas alocações estratégicas e a reavaliar a lógica do investimento direcionado ao ‘home bias’ em diferentes classes de ativos”, conta.
Pouco a pouco, essa tendência parece estar mudando. A XP mapeou o interesse de diversificação de investimentos de 58 fundos de pensão, que representam um patrimônio de quase R$ 246 bilhões, e identificou um potencial de migração de R$ 8 bilhões para aplicações no exterior, bolsa e ativos imobiliários, se as alocações crescerem alguns pontos percentuais. E o investimento no exterior aparece como um dos mais atrativos para as fundações.
A pesquisa mostrou que 45% dos fundos analisados já possuem investimentos fora do Brasil e pretendem aumentar a alocação no segundo semestre, enquanto 22% já possuem ativos no exterior e vão manter o atual patamar. Outros 22% ainda não têm, mas devem avaliar a possibilidade. E 11% que não aplicam fora do Brasil ainda não vão olhar para o assunto.
Segundo Taís Campos, que lidera a área de distribuição institucional da XP, as fundações estão entendendo pela primeira vez que a diversificação não tem a ver com o cenário atual e sim com uma necessidade estrutural. “A mudança de mentalidade vem acontecendo aos poucos”, diz. No passado, os fundos de pensão só investiam no exterior se não houvesse volatilidade no dólar. Hoje, já há uma demanda maior para fundos sem hedge, segundo a executiva. No ano, a XP já captou R$ 4 bilhões em investimentos no exterior, sendo R$ 600 milhões em recursos de investidores institucionais.
Com o juro real abaixo de 1% não há outra saída a não ser a diversificação, afirma o presidente da Fundação Real Grandeza (Furnas), Sergio Wilson Ferraz Fontes. “Durante muito tempo tivemos o pacote BBB (NTN-Bs, Bolsa e Brasil, por causa dos juros altos), não fazia diferença”, explica. A situação atual impõe uma maior diversificação que inclui investimentos no exterior e também multimercados e fundos de investimento em participações (FIPs), elencou Fontes, que também é diretor de investimentos da Abrapp, associação que representa o setor.
A política de investimentos da Real Grandeza limita as aplicações no exterior a até 4%. A estratégia para 2021 ainda está sendo formulada. Hoje, o plano de benefício definido tem 2% aplicados fora e o de contribuição definida, 3,7%. “O investimento no exterior reduz o risco da carteira e isso pode nos ajudar muito. Eu não diria que vamos aumentar [a fatia no exterior], vai depender do risco-retorno dos demais ativos e do cenário”, diz a diretora de investimentos da fundação, Patrícia Queiroz.
No Postalis, o novo plano de ALM (Asset Liability Management, mecanismo de gestão de ativos e passivos) apontou para investimentos em novas classes, incluindo no exterior, segundo o diretor de investimentos da fundação, Pedro Pedrosa. “Em dois anos vamos tentar chegar próximo do limite de 10% no exterior”, afirma.
Ainda é necessário aprovar a nova política de investimentos e fazer a seleção dos gestores, mas o diretor acredita que as alocações começarão ainda em 2020. Parte dos recursos que serão alocados pode vir do esforço do Postalis na recuperação dos ativos problemáticos. Outro ativo que o Postalis deve incluir no rol de investimentos são os fundos multimercados, com uma renovação da carteira atual.
A Fapes é uma exceção do mercado e atingiu o limite de 10% de investimentos no exterior entre janeiro e fevereiro deste ano, cerca de R$ 1,5 bilhão. “É um movimento importante de diversificação. O investimento no exterior tem correlação negativa com ativos locais”, afirma o diretor de investimentos, André Loureiro. A opção de não fazer o hedge cambial tem se mostrado vencedora. No ano, essa classe tem ganhos de 35%, ajudando a absorver perdas em outros segmentos, como em renda variável. Ao longo do ano, houve um desenquadramento passivo e o investimento no exterior chegou a 14% das alocações. “Foi uma chance de realizar ganhos”, acrescentou o diretor.
Ativos no exterior começam a fazer parte do rol de investimentos dos fundos de pensão | Finanças | Valor Econômico
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