Embora a petroleira tenha exposto suficientemente o que pretende fazer, ela não explicou de forma adequada como planeja conseguir seus objetivos

— Foto: Bloomberg
A BP está em uma batalha difícil para acalmar o nervosismo dos investidores porque suas ações caíram para seu menor valor em 25 anos poucos dias depois de a empresa ter apostado seu futuro em um grande programa de transição energética.
O executivo-chefe da BP, Bernard Looney, e seus principais gerentes fizeram uma série de apresentações aos acionistas na semana passada, para convencê-los de que a virada da principal empresa de petróleo e gás do Reino Unido – parte da meta mais ampla de tornar-se uma empresa com emissões líquidas zero – vai compensar.
Mas desde então o preço de suas ações tem caído de forma contínua e fechou a 232,4 pence na quinta-feira, o nível mais baixo desde outubro de 1995, já que as preocupações com uma nova onda de casos de infecção por coronavírus pesaram mais entre os acionistas do que qualquer otimismo sobre a nova estratégia da empresa.
Embora as ações tenham subido para 234,30 pence na sexta-feira, elas ainda estão em baixa de 53% este ano.
Em agosto a BP anunciou que planejava cortar a produção de petróleo e gás em 40% e aumentar em 10 vezes o investimento em baixo carbono até 2030. Também prometeu gerar retornos de 8% a 10%, menos do que os investimentos tradicionais em hidrocarbonetos, mas substanciais em comparação com outros projetos de energia limpa.
O plano de “reinventar” a BP foi saudado como uma das reformas mais ambiciosas do setor e recebeu elogios até de organizações como o grupo ambientalista Greenpeace. Alguns investidores éticos disseram que ela estabeleceu um modelo para outras empresas.
Mas outros não têm tanta certeza. Três investidores, que falaram sob condição de não terem seus nomes revelados, disseram que, embora a BP tenha exposto suficientemente o que pretende fazer, ela não explicou de forma adequada como planeja conseguir seus objetivos e o que a diferencia das rivais.
“Eles não detalharam como planejam atingir suas metas. Havia apenas muitos slides da McKinsey”, disse um grande investidor.
Biraj Borkhataria, analista da RBC Capital Markets, disse que a BP precisa mostrar aos investidores que será capaz de cumprir suas promessas. “Nesse setor, as intenções significam muito pouco porque as empresas têm um histórico ruim de alocação de capital”, explicou ele.
Em uma entrevista ao Financial Times este mês, Looney reconheceu que é responsabilidade da BP “executar” sua estratégia. Mas ele também disse que os investidores que querem que a empresa tome medidas com relação às mudanças climáticas precisam apoiá-la com seu dinheiro.
Looney afirmou que hoje os investidores se deparam com uma escolha entre empresas como a ExxonMobil e a Chevron, dos Estados Unidos, que estão dobrando sua aposta nos hidrocarbonetos, e aquelas na Europa que tentam se diversificar. Para ele, os investidores precisam “decidir o que querem”.
A empresa está levando adiante sua estratégia de transição energética apesar de uma queda dramática nos lucros causada pela pandemia. A BP cortou pela metade os dividendos aos acionistas, prometeu reduzir os investimentos em US$ 3 bilhões, emitiu dívida nova e anunciou o corte de 10 mil empregos.
Alguns observadores afirmaram que é preciso mais tempo para poder avaliar completamente o sentimento do investidor. “Os investidores precisam digerir os números, avaliar as premissas da BP e chegar a uma visão razoável sobre a viabilidade de atingir algumas das metas. Eles precisam de mais tempo”, disse Oswald Clint, da Bernstein Research.
A queda no preço das ações esta semana ocorreu em um momento em que o petróleo tipo Brent voltou a ficar sob pressão, já que os governos tomaram novas medidas para conter novos surtos do coronavírus que devem afetar a demanda por petróleo. Depois de subir para mais de US$ 45 por barril no mês passado, o preço agora está em cerca de US$ 42 por barril.
As rivais da BP também sofreram com quedas nos preços de suas ações, já que lutam com a turbulência nos preços do petróleo e as dificuldades de gerir uma mudança para negócios de energia mais limpa com margens mais baixas enquanto enfrentam uma pressão financeira crescente.
A Royal Dutch Shell teve uma queda no preço de suas ações de 58% este ano, a Total, da França, de 45%, e a ExxonMobil de 52%.
FT: BP tenta acalmar investidores após suas ações atingirem menor cotação em 25 anos | Empresas | Valor Econômico
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