Na pandemia da Invepar, o que tira o sono é o MetrôRio vazio, não Guarulhos às moscas

Passageiros lembrarão desta pandemia como aquela que os impediu de voar, mas a empresa que opera o maior aeroporto do país tem preocupações mais terrenas — algo debaixo da terra, mais precisamente. A despeito do tombo de 96% do fluxo internacional em Guarulhos no segundo trimestre, é o sumiço dos passageiros do metrô do Rio que desestabiliza a Invepar, holding que opera os dois.

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O volume de passageiros do MetrôRio despencou 77% no segundo trimestre, para 12,3 milhões. No momento mais agudo do isolamento social, a concessionária chegou a receber apenas 120 mil passageiros por dia, contra uma média de 900 mil no pré-pandemia.

Hoje, o número de clientes diários está em 275 mil, metade do necessário para cobrir os custos operacionais (não inclui o custo financeiro) de R$ 50 milhões mensais. Como resultado, a Invepar tem dito que o caixa do MetrôRio só dura até agosto.

— Guarulhos está parado e vai demorar a retomar, mas encontramos uma solução. Tivemos ajuda do governo. Postergamos para o fim do ano o pagamento de R$ 1,4 bilhão em outorgas, além do standstill (suspensão temporária de pagamento) do BNDES. Já nas rodovias que operamos, o impacto foi bem menor. Na Via 040, estamos próximos do nível pré-pandemia. O grande problema é mesmo o metrô — explica Abel Alves Rochinha, que assumiu a presidência da Invepar no fim do ano passado, depois de ter passado por Enel e Lojas Americanas.

Custo rígido

O “grande problema” que representa o metrô está na rigidez dos seus custos. A energia elétrica para fazer os vagões rodarem — que pesa 40% nos custos da concessionária — é comprada por meio de contratos de longo prazo, com volume mensal garantido, o que dificulta economias em casos de choque de demanda como agora.

Diferentemente das empresas aéreas, a oferta de trens do metrô é bem menos aderente à flutuação de demanda dos passageiros. Se a concessionária enxugasse a frota na mesma proporção da queda de bilhetes comprados, os intervalos seriam tão grandes que o serviço seria praticamente inútil.

— Uma empresa de ônibus pode colocar o veículo na garagem e parar de gastar com combustível. A gente não pode. Além disso, a empresa de ônibus não precisa fazer manutenção da rua, enquanto o metrô precisa fazer manutenção dos trilhos — queixa-se o presidente do MetrôRio, Guilherme Ramalho, que foi ministro da Secretaria de Aviação Civil no governo Dilma Rousseff.

Agetransp: ‘Não há dúvida que operação será descontinuada’

A concessionária até reduziu a jornada e suspendeu contratos no corpo de 1.400 funcionários, diminuindo as despesas com pessoal em 21,6% entre março e maio. Além disso, enxugou a oferta dos ônibus do Metrô na Superfície e tomou R$ 18 milhões em empréstimo de capital de giro. Mas nada disso cobre o buraco deixado pelo desaparecimento da demanda.

Nota técnica da agência reguladora Agetransp, à qual a coluna teve acesso, concluiu que, desde março, a concessionária tem prejuízo operacional. A perda acumulada daquele mês até maio foi de R$ 94,8 milhões. Se as projeções da concessionária se concretizarem, o caixa do MetrôRio terminará agosto com um rombo de R$ 3,6 milhões.

“Podemos afirmar que não existe a menor dúvida ao fato de que a operação será descontinuada, caso não ocorra algum tipo de aporte de recursos externos na concessionária, pelos acionistas e/ou pelo Poder Concedente”, concluiu a nota.

Pelo menos R$ 150 milhões

O MetrôRio calcula que o aporte necessário no curto prazo para continuar funcionando seria de algo entre R$ 150 milhões e R$ 200 milhões. O problema é que não há qualquer indicação firme sobre qual daquelas figuras citadas pela Agestransp colocará a mão no bolso. Rochinha, da Invepar, conta que tem havido reuniões com os governos estadual e federal e com o BNDES para discutir uma solução, mas sem conclusão à vista.

— Eu, de fato, não sei qual será a solução. Do nosso lado, estamos fazendo tudo o que podemos, mas estamos levantando a mão para sinalizar que o caixa termina em agosto — admite Rochinha.

Perguntado sobre a possibilidade de os sócios da Invepar injetarem dinheiro na concessionária do metrô, o presidente da Invepar diz que não está em posição de responder pelos acionistas. Três quartos do capital da Invepar pertencem a grandes fundos de pensão de estatais: a Previ (do Banco do Brasil), a Funcef (da Caixa) e a Petros (Petrobras). Os 25% restantes estão no FIP Yosemite, que reúne credores da OAS.

— Só posso dizer que, até onde eu sei, eles continuam firmes na aposta sobre o futuro da Invepar como uma plataforma de infraestrutura — desconversa.

Alívio de curto prazo com credores

Enquanto a bomba-relógio operacional segue sua contagem regressiva, a holding e a própria concessionária tentam reduzir a pressão dos credores.

Em abril, a MetrôRio conseguiu reestruturar parte das dívidas junto a um grupo formado por Santander, Banco do Brasil, Bradesco e Banco ABC. Eles permitiram que a companhia postergasse o inicio do cronograma de pagamentos de suas debêntures (títulos de dívidas) de abril para outubro.

Em troca, o Metrô teve que aceitar pagar mais juros nessa dívida, que soma R$ 585 milhões: em vez de 3,1%, pagará agora 5% ao ano acima da taxa DI (que segue a Selic, juros básicos do país). Além disso, recompensou os credores com uma taxa de 1,5% sobre o valor remanescente. A agência Moody’s calculou em R$ 155 milhões o tamanho do alívio de curto prazo com a reestruturação para o MetrôRio.

Para piorar, o Metrô Rio garante parte (R$ 95 milhões) de uma dívida emitida pela Linha Amarela, companhia da Invepar que tem sido menos afetada pela pandemia.

Pós-pandemia desanimador

Já a Invepar, depois de ter sido rebaixada pela agência de risco S&P, conseguiu este mês que o Mubadala, fundo soberano de Abu Dhabi que é seu maior credor, não decretasse o vencimento antecipado de uma dívida. O fundo deu um fôlego de dois meses para a companhia, comprometendo-se a não tomar qualquer medida até lá.

Mas mesmo antes disso, no início da pandemia, o vencimento dessas debêntures já era considerado desafiador — R$ 1,37 bilhão em abril do ano que vem. Foi essa pressão, aliás, que levou ao rebaixamento do rating da Invepar pela S&P em março.

Se atravessar a pandemia está difícil, o que espera a companhia do outro lado tampouco é animador. A expectativa da Invepar é que o coronavírus deixará marcas de longo prazo na demanda dos usuários pelo Metrô.

— Estamos com apenas metade da demanda necessária para cobrir os custos operacionais do metrô e, de jeito nenhum, voltaremos aos 900 mil que tínhamos antes disso tudo. A tendência é que pessoas usem mais o carro, que o desemprego permaneça elevado no Rio e que o Centro sofra um esvaziamento. O que virá depois não compensará a perda que houve até agora — lamenta Rochinha.

Na pandemia da Invepar, o que tira o sono é o MetrôRio vazio, não Guarulhos às moscas | Capital – O Globo

https://blogs.oglobo.globo.com/capital/post/na-pandemia-da-invepar-o-que-tira-o-sono-e-o-metrorio-vazio-nao-guarulhos-moscas.html

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