Com menor custo e amplo suporte tecnológico, “versão 3.0” será caracterizada pela hipercustomização e gestão integrada dos ativos durante todo o ciclo de vida
Em 2018, os ativos médios de Contribuição Definida (CD) superaram, pela primeira vez, os ativos de Benefício Definido (BD) nos 22 maiores mercados previdenciários do mundo, entre eles o brasileiro. Nessa trajetória firme de crescimento iniciada há cerca de 40 anos, impulsionada por incentivos regulatórios e maior aversão ao risco por parte das empresas patrocinadoras, os planos passaram por importantes transformações. Contudo, ainda há muito o que se avançar, sobretudo no que diz respeito à cobertura, valor dos benefícios e aparato tecnológico. A expectativa é pela consolidação da indústria como resultado de demandas comerciais, tecnológicas e de governança. O maior engajamento do participante também será primordial para o desenvolvimento dos planos daqui para frente.
O Global Pension Assets Study 2018, publicado em fevereiro de 2019 pelo Thinking Ahead Institute da Willis Towers Watson, já indicava que nos sete maiores mercados previdenciários do mundo (Austrália, Canadá, Japão, Holanda, Suíça, Reino Unido e Estados Unidos), os ativos de Contribuição Definida superavam a marca de 50%, um crescimento de 8,9% nos dez anos anteriores em comparação a 4,6% no universo BD. Os planos CD predominam na Austrália e nos Estados Unidos; em mercados tradicionalmente BD como o japonês e o canadense, esses ativos registram crescimento considerável.
Nos próximos cinco a dez anos, dizem os responsáveis pelo estudo, os planos CD passarão a ser o modelo dominante, na medida em que o seu porte aumenta, a tecnologia avança, e os programas passam de veículos de poupança para provedores de renda vitalícia. A tecnologia vai “desafiar os modelos de negócios e o capital humano, exigindo adaptações”, tendo papel importantíssimo nesse novo ambiente ao estimular o engajamento do participante.
Ainda segundo o Thinking Ahead Institute no levantamento World 300, os ativos nos 300 maiores fundos de pensão do mundo caíram 0,4%, atingindo US$ 18 trilhões em 2018. Trata-se de um movimento drasticamente diferente daquele observado em 2017, período em que tais ativos cresceram 15,1%.
Nesse universo de entidades de grande porte, os ativos de Contribuição Definida aumentaram 5,1% em 2018, contrastando com a queda de 0,2% no patrimônio dos planos BD. Os fundos de Benefício Definido representavam 64,7% do total de ativos sob gestão, mesma proporção do ano anterior. A modalidade predomina na Europa, América do Norte e Ásia-Pacífico, onde corresponde a 53,7%, 74,2% e 65,1% dos ativos, respectivamente. Os planos CD, por sua vez, já são maioria em todas as outras regiões do globo, particularmente na América Latina, totalizando 70% dos ativos.
Temas comuns
Em 2018, nos sete maiores mercados previdenciários, os ativos CD superaram, pela primeira vez, os ativos BD
Mais recentemente, em outubro de 2019, o instituto de Pesquisa da Willis Towers Watson publicou uma análise aprofundada das mudanças esperadas e desejadas para os planos CD. Intitulado “Shifts for the DC organisation of tomorrow – Insights from a global best practices peer study”, o estudo baseou-se em pesquisa e entrevistas realizadas entre maio e setembro de 2018 junto a dez organizações-líderes no segmento, em quatro continentes, com média de US$ 80 bilhões sob gestão e 900 mil participantes.
Os fundos consultados destacam-se em determinadas áreas, mas não em todas, salientam os autores. Entre os critérios adotados estão escala, investimento em tecnologia, engajamento do participante e governança, além de um bom modelo de investimentos e uma fase de pagamento de benefícios bem desenhada.
Embora cada mercado tenha características e questões específicas a serem enfrentadas, algumas preocupações revelaram-se comuns a todos os respondentes. Desafios compartilhados incluem a adequação do valor dos benefícios, a falta de credibilidade dos planos CD e a dificuldade para engajar participantes. Também ficou evidente a necessidade de favorecer as economias de escala e trabalhar na redefinição do papel do empregador. Nesse contexto, a regulação não pode ser negligenciada, devendo não só permitir, mas estimular a transição para sistemas CD mais robustos.
Série de atualizações
De acordo com o Thinking Ahead Institute, os sistemas CD vêm passando por uma série de atualizações ao longo dos anos. Inicialmente, os planos eram vistos apenas como um veículo de poupança que gozava de incentivos tributários interessantes e facilitava o acesso a produtos de investimento que levavam em conta, até certo ponto, o perfil de risco individual. Não raramente, os programas serviam como complemento a um plano de Benefício Definido.
Com o passar do tempo, no que os especialistas chamam de “versão 2.0”, os planos CD se tornaram o principal veículo de poupança de aposentadoria, promovendo uma maior integração entre as fases de acumulação e pagamento de benefícios. Os programas passaram a ter um enfoque maior nas necessidades de consumo pós-aposentadoria a fim de dar segurança financeira ao participante via uma gestão aprimorada dos riscos.
A transição para a geração de planos 2.0 e 3.0 requer missão e metas claras e bem-estabelecidas
No futuro, a evolução desses sistemas deve continuar, dando lugar a uma nova geração de planos – chamada “versão 3.0” – caracterizada pela hipercustomização e pela gestão integrada dos ativos durante todo o ciclo de vida. Haverá, portanto, uma preocupação cada vez maior com as necessidades e demandas de cada participante, além da integração do plano a um processo mais amplo de gerenciamento individual de patrimônio. Tudo isso com menos custo, gestão aprimorada e amplo suporte tecnológico.
“A necessidade de mudança é óbvia há muito tempo. Há dez anos, falávamos de uma versão 2.0 para os planos CD, cujo objetivo era prover renda de aposentadoria. Mas apenas recentemente registramos real progresso nessa frente”, assinala Bob Collie, Chefe de Pesquisa do Thinking Ahead Institute. Felizmente, diz o especialista, avanços vêm ocorrendo em ritmo mais acelerado, de forma que a expectativa é que “as coisas se desenvolvam muito mais rapidamente daqui para frente”.
Collie acrescenta que os planos CD se tornaram o veículo de previdência dominante; portanto, é necessário esforço para que esse novo papel seja desempenhado com sucesso. “Os próximos anos serão fundamentais para o desenvolvimento dos sistemas de aposentadoria em todo o mundo.”
Missão e modelo de negócios
Para que os planos CD façam a transição para a geração 2.0 e 3.0, são necessárias várias mudanças abrangendo diferentes áreas das organizações que os gerenciam: a primeira delas é ter missão e metas claras e bem-estabelecidas, assim como indicadores de desempenho.
O estudo salienta que as organizações-líderes em temas de governança se dedicaram com afinco à elaboração e execução de suas missões. Todavia, esse esforço não se estende a toda a indústria. O comprometimento do empregador para com o plano muitas vezes é fraco, levando os investidores institucionais a terem dificuldades para se manterem na direção traçada.
No que se refere ao modelo de negócios, é preciso abandonar a ideia de acumulação de ativos e focar no provimento de renda vitalícia de aposentadoria. Para tal, os fundos deixarão de depender de uma força de trabalho de qualidade mista e forte terceirização de serviços, passando a contar com equipes de alta qualidade e menos provedores externos. Os planos CD não serão mais vistos como um produto auxiliar, mas como o principal item do cardápio das entidades, sendo providos de gestão altamente especializada.
Infraestrutura tecnológica
Os investimentos são o principal, mas não o único foco dos gestores de planos de Contribuição Definida. Assuntos operacionais e administrativos também revelam-se importantes para as organizações pesquisadas. Questões operacionais são especialmente relevantes para os fundos muito grandes, em rápido crescimento ou em processo de mudança (a maioria dos componentes da amostra).
Apesar de os desafios serem diferentes, as entidades têm dedicado volumes substanciais de recursos para aprimorar a gestão. A infraestrutura tecnológica é uma das principais fontes de preocupação por ser onerosa e exigir um tempo maior de implantação/adaptação, muitas vezes em função da escala dos planos, da regulação e do alto nível de complexidade envolvido. No ambiente tecnológico, a segurança da informação se torna um problema particularmente urgente.
No futuro ambiente operacional, a governança deixa de ser fraca e resistente a mudanças para tornar-se forte, proativa e inovadora, sobretudo no âmbito dos conselhos e comitês de investimentos. Os planos passarão a contar com aparato tecnológico de ponta e sistemas bem conectados.
Escala é importante
Parte importante do desenvolvimento da indústria é a sua consolidação, refletida na criação de grandes fundos multipatrocinados. Entre os principais mercados CD, diz a pesquisa, o australiano é o que mais se afastou do modelo de patrocinador único, devido, em grande parte, a medidas legislativas adotadas nas décadas de 80 e 90. Outros sistemas parecem caminhar na mesma direção.
A consolidação tende a dar mais flexibilidade aos empregadores para que decidam que papel desejam desempenhar na provisão de renda de aposentadoria dos funcionários. Afinal, a terceirização de funções administrativas, de investimento, e até mesmo a operacionalização do plano serão facilitadas. O multipatrocínio e os ganhos de escala também favorecem a redução de custos, o acesso a uma gama mais ampla de investimentos, a competitividade e a inovação, demandando, por sua vez, uma postura diferente dos reguladores.
A consolidação da indústria deverá ser refletida na criação de grandes planos multipatrocinados
Segundo as entidades que participaram do levantamento, todas de porte grande ou muito grande, a escala, embora benéfica, traz desafios para a gestão, sobretudo se o crescimento de der em curto espaço de tempo. Na medida em que a tecnologia avança, as expectativas também aumentam, exigindo investimento constante a fim de que os fundos se mantenham competitivos.
Há de se considerar ainda que é mais difícil promover a escala de planos de Contribuição Definida em comparação ao modelo BD, opinião compartilhada pela maioria das organizações ouvidas. Quando questionadas sobre qual seria o porte desejável para um plano CD, as respostas variaram significativamente, de US$ 300 milhões a US$ 20 bilhões.
Paternalismo ou libertarianismo
Em se tratando de relacionamento com o participante, os estudiosos argumentam não haver um “vencedor claro na batalha entre paternalismo e libertarianismo”. Ou seja, não há como afirmar, com certeza, se a melhor opção é permitir que indivíduos controlem seu próprio dinheiro (libertarianismo) ou reconhecer que a maioria das pessoas não é especialista em finanças, necessitando, portanto, de mecanismos-padrão para ajudá-las nesse tipo de planejamento (paternalismo).
Houve variação significativa nas respostas em se tratando da preferência por opções-padrão ou pelo aprofundamento do relacionamento com a participante com o intuito aprimorar os resultados do plano de aposentadoria. Também há diferenças consideráveis na forma como as entidades se comunicam com seu público-alvo, organizam e disponibilizam as informações, e fazem uso de iniciativas de educação financeira em oposição à utilização de ferramentas online e ao aconselhamento individual.
Diversos respondentes foram pioneiros em incorporar projeções para a renda vitalícia, dentre outros dados mais detalhados, aos demonstrativos de benefícios. Outros já se dedicam a discutir questões financeiras com o participante, seja via programas educacionais ou ferramentas online. Metade das entidades consultadas oferece aconselhamento individual.
De maneira geral, mais cuidado vem sendo dado à linguagem e à forma como as mensagens e conteúdos chegam ao público-alvo, processo que passa por um conhecimento maior do participante, suas condições de vida e objetivos. Para tal, é primordial haver engajamento.
Inscrição automática e opções-padrão de investimento tendem a dar lugar a uma arquitetura de escolhas mais robusta
Daqui para frente, portanto, os fundos recorrerão à tecnologia a fim de fazer com que o participante interaja mais com o programa de aposentadoria. A oferta de produtos tende a ser ampliada, adquirindo um caráter personalizado e segmentado. Mecanismos como a inscrição automática e opções-padrão deverão dar lugar a uma arquitetura de escolhas mais robusta.
Uso dos recursos
A fase de pagamento do benefício, que em muitos países é transferida do fundo para uma seguradora ou instituição bancária, vem ganhando destaque à medida que os sistemas amadurecem e os saldos das contas individuais aumentam.
Embora a maioria das entidades ouvidas considere o plano CD como uma fonte de renda de aposentadoria, essa visão nem sempre é compartilhada pelo participante, que muitas vezes deseja ver parte do saldo da conta destinado a objetivos de mais curto prazo ou transformado em herança. Quando isso acontece, a situação fica mais difícil, alertam os estudiosos, tornando o engajamento fundamental para que as metas individuais sejam devidamente tratadas.
Dentre os vários objetivos possíveis para uma conta CD no período pós-aposentadoria, aquele para o qual o sistema é menos eficaz é justamente a garantia de um fluxo de renda, sobretudo em idade muito avançada. Ao contrário do sistema BD, complementam os especialistas, o sistema CD tem dificuldades para compartilhar o risco de longevidade, problema que os fundos começam – ainda que tardiamente – a enfrentar.
Renda vitalícia e sustentabilidade
A amostra de fundos de pensão do Thinking Ahead Institute, em geral, não faz uso de fundos do tipo ciclo de vida pré-concebidos, oferecidos pelo mercado. Além da idade, vários fatores são considerados na definição dos perfis, como gênero, saldo da conta, salário, condições do mercado, benefícios projetados e data-alvo de aposentadoria.
Os autores do estudo são categóricos ao afirmar que levar um trabalhador a aderir ao plano é uma coisa; outra é chegar a uma opção-padrão apropriada que leve em conta todo o ciclo de vida do indivíduo, englobando desde níveis de contribuição, estratégia de investimento e planejamento de aposentadoria, a um bom desenho de pagamento para os benefícios, cobertura para o risco de longevidade, etc.
Quando forçadas a escolher entre maximizar o volume de poupança no momento da aposentadoria ou a renda vitalícia, as entidades de planos CD revelam ligeira inclinação em favor da última opção. Tal preferência é refletida, em certa medida, no próprio portfólio de investimentos. No futuro, entretanto, a tendência é de total priorização da renda vitalícia ao invés da mera acumulação de ativos, com adensamento da busca por soluções integradas de capitalização e desembolso, além do desenvolvimento de mecanismos para lidar com o risco de longevidade.
Ainda que a sustentabilidade tenha peso variável entre os respondentes, quase todos concordam que o tema vem ganhando relevância, sobretudo em se tratando de riscos de mudanças climáticas. Os investimentos responsáveis são, até o momento, a principal forma escolhida pelas organizações para lidar com a questão, mesmo que a efetivação da prática ainda seja limitada.
O tema da sustentabilidade vem ganhando relevância, sobretudo em se tratando de riscos de mudanças climáticas
Também há evidências de tentativas de incorporação de fatores sustentáveis à opção-padrão de investimento e não somente a produtos específicos disponíveis apenas sob a demanda do participante. Atualmente, 60% da amostra afirmam que a abordagem de investimento incorpora fatores de sustentabilidade em grau bastante relevante enquanto 70% acreditam que atingirão esse patamar em até cinco anos.
Regulação
Na maioria dos países, argumentam os estudiosos, os planos não estão bem equipados para prover uma renda adequada de aposentadoria ou gerenciar o risco de longevidade. Para que haja melhorias, é fundamental o apoio do arcabouço regulatório.
Nos regimes mais flexíveis como o britânico e o australiano, cuja orientação é pela adoção de melhores práticas, os gestores de planos CD têm maior espaço de manobra para promover mudanças e gerar inovação. Em contrapartida, nos países em que vigoram regimes regulatórios mais restritivos, como os EUA, transformações significativas tendem a ser mais limitadas e lentas. Na opinião dos especialistas, independente do modelo adotado, é fundamental que a própria indústria se mobilize, exercendo pressão para que os reguladores se tornem facilitadores das mudanças necessárias.
Na prática, muitas vezes a regulação acaba restringindo ao invés de fomentar o aprimoramento dos planos de Contribuição Definida, sobretudo no que diz respeito à estruturação do risco de investimento, ao processo disciplinar, à geração de economias de escala e à gestão de custos. O ideal seria, por exemplo, que o arcabouço regulatório tivesse como prioridade a proteção dos interesses dos participantes ao invés de regras que limitem a atuação dos gestores.
Igualmente importante é que a regulação ajude os planos a ganhar escala e, assim, investir em inovação. Também cabe aos reguladores contribuir para que essa inovação se traduza, de fato, em despesas mais baixas para o participante, o que ainda não ocorreu a despeito dos avanços tecnológicos e da redução dos custos em diversas áreas.
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