Previ revê estratégia de investimento com juro baixo

A Previ, maior fundo de pensão do país, com mais de R$ 200 bilhões em ativos, vive um dilema em sua estratégia de investimentos. No cenário atual de juro baixo, em que o retorno dos títulos públicos já não é suficiente para cobrir a meta atuarial, a entidade dos funcionários do Banco do Brasil vem encontrando dificuldades na busca por alternativas de aplicação. Caberá ao novo diretor de investimentos, Marcelo Wagner, a tomada de decisões diante desse cenário e da necessidade de diversificação das aplicações, desafio comum ao setor como um todo.

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Além dos títulos públicos, a Previ tem uma fatia relevante em renda variável — somente em seu maior plano, são R$ 86 bilhões, com maior concentração em 12 ativos. A entidade, na verdade, vinha fazendo o caminho inverso, com o objetivo de reduzir essa fatia, e decidiu rever a estratégia. Agora, vai reduzir o ritmo de migração de ativos em bolsa para renda fixa e também busca diversificar essa posição.

“A questão dos investimentos não é trivial”, afirma o diretor, acrescentando que as taxa de juros baixas são o “novo normal”. “O país passou muitos anos acelerando o fiscal e freando o monetário. No mundo, as taxas de juros caíram e no Brasil ficaram altas até que essa questão fosse endereçada. Estamos buscando o que está acontecendo ao redor do mundo”.

Assim, além do movimento de diversificação em renda fixa e variável, a internacionalização dos portfólios é um caminho natural. “O processo acompanha o desenvolvimento do mercado de capitais. A Previ, como gestor institucional mais relevante do sistema das entidades fechadas, precisa acompanhar esse processo ‘pari passu’”, diz.

Do lado da renda fixa, o movimento de migração dos títulos públicos federais para títulos de dívida privada deve ser acompanhado. O antecessor de Wagner, Marcus Moreira, citou em diversas entrevistas o interesse da fundação nestes ativos, mas faltavam emissões no mercado condizentes com o passivo e o apetite do fundo de pensão. O novo diretor acredita na tendência do aumento da oferta de crédito privado. “Não faz sentido para a Previ olhar para tickets muito pequenos por uma questão de eficiência. Então isso vai acontecer e vamos acompanhar”, disse.

Já na bolsa, a tendência é incorporação de uma gestão mais ativa. A Previ tem um processo de seleção de gestores para fundos imobiliários — já concluído — e também multimercados. “Vamos estudar todas as oportunidades. O mercado bursátil brasileiro é concentrado, tem alguns setores relevantes e não reflete o PIB. Na medida em que outros setores acessam a bolsa é natural que nós, como maior gestor institucional, iremos olhar e acessar estes outros setores. O pipeline de operações está sendo analisado e monitorado”, disse.

Em relação às aplicações no exterior, a política de investimentos prevê aumento das alocações, hoje em 0,1% das aplicações, para até 1,5% do portfólio.

E os investimentos internacionais podem ser um caminho para a Previ poder acessar produtos que atendam aos critérios ambientais, sociais e de governança corporativa e integridade — conhecidos como ASGI. A Previ é signatária da iniciativa internacional Princípios para o Investimento Responsável (PRI), que estimula a inserção destes critérios nos processos de investimento.

“A Previ é precursora do tema aqui e vamos continuar sendo relevantes”, disse Wagner. No Brasil ainda faltam ativos voltados para investimentos de impacto, mas tem enorme potencial para criá-los, notadamente os ambientais, acredita.

“Uma maneira interessante de operacionalizar esse ASGI é usar a estratégia de offshore [no exterior] como alavanca. Em um primeiro momento isso não precisa ser relevante no portfólio” afirma o diretor da Previ. Os ativos no exterior tendem a ter uma baixa correlação com as carteiras locais e aumenta a diversificação. Além disso, com os investimentos ASGI — caso, por exemplo, de ETFs de água ou carbono — se abre um canal de aprendizado. “O Brasil ainda tem que trilhar esse caminho. Começamos a aprender com quem faz isso. Isso cria um canal de comunicação, práticas e metodologias”, afirma.

A Previ ainda estuda o tema e a que velocidade poderia introduzir o assunto e colocá-lo em prática.

O discurso é alinhado com os participantes globais do mercado. Em recente evento no Rio, Rina Kupferschmid, responsável pela estratégia de clientes do UBS Global, disse que a indústria brasileira caminha de forma positiva em relação aos investimentos responsáveis e de impacto, mas ainda faltam produtos mais robustos que possam atrair investidores globais. “Há uma grande oportunidade para abrir mais [produtos de] investimentos. O tamanho dos recursos são muito pequenos e talvez [a indústria] esteja perdendo oportunidades”, afirmou, ao participar da conferência Converge Capital.

“Estudos mostram que, quando se investe em questões sociais, de governança, ou equidade, tem no longo prazo menos risco”, defende o diretor da Previ. Mesmo os gestores internacionais que são vocais no assunto ainda investem em papéis de empresas fora do perfil ESGI, caso de Vale e Petrobras — em que a Previ detém fatias relevantes. “É uma questão de mercado e as coisas são de longo prazo”, completa.

Indicado pelo Banco do Brasil, Wagner assumiu o cargo no final de janeiro depois de atuar por mais de 12 anos na Brasilprev, braço de previdência privada do BB, responsável pela gestão de quase R$ 300 bilhões. Nos últimos dois anos, foi diretor de investimentos da instituição. O diretor também teve passagens pelo banco em São Paulo, Brasília e em Londres.

A migração da previdência aberta para a fechada não traz muitas mudanças, na visão de Wagner. “Os negócios são parecidos, mas existem diferenças regulatórias. No mundo de previdência, as expectativas dos participantes são parecidas. O grande desafio da indústria previdenciária como um todo é o de contribuir para que a pessoa forme riqueza previdenciária”, disse. A recente discussão sobre a reforma da Previdência no país foi “pedagógica” para a sociedade, na visão dele, mas as pessoas ainda não pensam no longo prazo. “As sociedades ainda não se atentaram que envelhecer no século XXI será mais caro do que envelhecer nos séculos anteriores”.

Previ revê estratégia de investimento com juro baixo | Finanças | Valor Econômico

https://valor.globo.com/financas/noticia/2020/02/19/previ-reve-estrategia-de-investimento-com-juro-baixo.ghtml

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