O DILEMA DE KAFKA – Míope metamorfose. O que será a PETROBRAS?

FERNANDO SÁ

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Prosseguindo com nossas publicações, precisamos falar um pouco sobre esse posicionamento estratégico da Petrobras, onde basicamente (i) se desconsideram novas energias – já não alternativas à luz dos resultados econômicos que geram em outras “majors” do setor, (ii) saída do mercado de refino – onde se geram produtos de valor agregado a partir da commodity produzida, e (iii) foco exclusivo no upstream – produção de commodity com preços declinantes.

A questão mais se agrava, quando a mídia informa sensível queda nas reservas de petróleo da Petrobras, ao que a Petrobras não consegue espancar com argumentação firme, nem mesmo com a claudicante ajuda da ANP.

Assevera-se a situação fática quando há previsão de declínio de preços que prejudicariam a viabilidade econômica na exploração de algumas reservas, o que parece indicado pelo glorioso fracasso da ANP nos últimos leilões, que se supunham garantia de atolamento do caixa da União Federal com seus resultados.

Vale aqui nos reportarmos, então, ao texto “Míopia em Marketing”, de Theodore Levitt, onde basicamente se trata de:

  • organizações que são voltadas para o produto, mantendo uma relação romântica com ele, ao invés de se orientar para o mercado e seus clientes;
  • exemplificar o risco que correm as organizações que buscam orientar sua produção em torno de seu próprio produto (concentrando seus esforços em vender e entupir o mercado, ao contrário de compreender do que o mercado necessita);
  • a culpa na ameaça às empresas quanto à crescimento, desaceleração ou estagnado, pela falha de administração e não por uma possível saturação do mercado.

Antes de tudo, sugiro a leitura do artigo, de fácil acesso na internet. Em parte, a Petrobras ao desintegrar sua atuação no setor, com a venda da distribuidora, já se afastou de seu principal mercado, que sempre foi a sociedade em geral, cujo atendimento foi inclusive a razão de sua criação.

A seguir, já falamos da saída da Petrobras de várias áreas (gás, refino, biocombustíveis e energias renováveis) por desinvestimentos, cujos resultados mereceriam uma auditoria detalhada e minuciosa de forma independente e transparente.

Ademais, não se pode falar na certeza da colocação de petróleo nas refinarias vendidas para fins de processamento. Primeiro, tais refinarias podem ter outros parceiros estratégicos no setor, ou na realidade podem se transformar em polos de venda de produtos importados às distribuidoras por seus potenciais logísticos, com refino em segunda opção. E nem entraremos aqui, novamente, no risco de falta de estoques de segurança para o país.

Portanto, nos deparamos com um claro posicionamento romântico da atual administração com o upstream, para uma venda de commodity (petróleo) dentro de um mercado futuro determinável, cujo alcance impede foco efetivo. Nitidamente há uma crença de que conseguirá entupir o mercado (?) com petróleo, quando existe uma tendência com sustentabilidade que traz, cada vez mais, restrições no uso de tal commodity e incerteza quanto a demanda do “mercado refinador vendido”.

Você achou que tal análise aproximou a situação da Petrobras ao texto de Levitt? Pois é, ele trabalha com a apresentação de exemplos contundentes no setor ferroviário e mesmo cinematográfico. Mas vem surpresa por ai.

A Petrobras vive hoje, o que Levitt chama de “ciclo auto-ilusório”, ou seja: acredita, independente de qualquer outro fator, que (i) a produção e colocação de petróleo é garantida, (ii) não existe um substituto competitivo para o petróleo, (iii) a produção em grandes volumes com redução de custo é certeza de rentabilidade crescente no presente e no futuro.

Nos valendo de um trabalho excelente de Clebson Costa, sobre a “Miopia em Marketing”, mais especificamente quando Levitt fala da indústria do Petróleo:
“A indústria do petróleo é a mais largamente utilizada como exemplo no texto de Levitt, principalmente por já ter passado por “maus lençóis” ao longo de sua história e ter conseguido se sobressair, mas não aprendendo com os fatos ocorridos. … Utilizando o exemplo do petróleo ou mais especificamente na indústria petrolífera, Levitt expõe com maior objetividade seu ponto de vista (que é também um apanhado da literatura presente em Peter Drucker, McKitterick, Wroe Alderson, John Howard e Neil Borden): enquanto uma organização ou segmento estiver com uma visão restrita de negócios, fechada a possibilidades e acreditando não existir um produto que melhor substitua o seu próprio, um destino cruel a estará esperando para o declínio ou extinção, seja pelas oportunidades perdidas em virtude do romantismo com seu produto, seja pela concorrência que soube entender as necessidades do mercado e supri-las da melhor forma, ou seja pela falta de compreensão de que, para sobreviver, seria necessário utilizar-se do que o autor chama de destruição criativa.”

Nitidamente, a Petrobras vive esse romantismo, retornando inclusive ideias propostas e mortas no início do século sobre sua saída do mercado de produtos de maior valor agregado (produzindo-os e vendendo-os). Já tratamos desse ponto anteriormente.

A criatividade negocial na Petrobras passa hoje por uma alteração digital, quando a maioria dos empregados reclama da qualidade da internet e dos sistemas básicos para realização de suas tarefas administrativas. Isto está bem longe de ser uma “destruição criativa”.

A redução da empresa a menos de 50% do seu tamanho pode ser destrutiva, mas não demonstra ser muito criativa.
Mais parece que a pretensão, como já supomos aqui, seja na descaracterização da Petrobras, enquanto empresa do setor petróleo, para tornar-se uma empresa financeira de investimento na área de petróleo. Mas, mais uma vez, uma empresa, com foco tão rígido e restrito de investimento, em um produto de preço declinante e, cada vez mais, possuirá restrição de uso, que isso demonstraria também uma miopia administrativa, somente que em setor distinto.

O quanto do posicionamento estratégico da Petrobras, hoje, não é míope e fruto de um ciclo auto-ilusório, a partir de uma visão arcaicamente romântica com toques de crença no mercado financeiro como salvador de tudo e de todos?

Candidato ao CA da Petrobras – FERNANDO SÁ – 1912

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