MPF apaga nota e procurador reage: ‘Não vou varrer nada para debaixo do tapete’
Thank you for reading this post, don't forget to subscribe!A Procuradoria da República no Distrito Federal (MPF-DF) apagou de seu site uma nota publicada na sexta-feira, assinada pelo procurador-chefe em exercício da MPF-DF, Cláudio Drewes, que era crítica a Raquel Dodge. O texto expressava preocupação com o futuro da operação Zelotes, que investiga fraudes da ordem de R$ 50 bilhões no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), após Dodge negar a lotação provisória de um procurador em Brasíia. Em entrevista à coluna, Drewes afirmou que a ordem partiu da procuradora-chefe do MPF-DF, Ana Carolina Roman, que está em viagem de férias e é substituída por ele. Drewes, que não foi consultado, viu no ato a violação de sua independência funcional, assegurada pela Constituição.
"Esta decisão viola minha independência funcional. Não sou moleque. Eu falei com procurador-chefe em exercício, e não pela Procuradoria. Expressei a preocupação legítima porque acho que o cidadão tem o direito de saber que uma investigação importante como esta está em risco. Não vou varrer nada para debaixo do tapete", afirmou.
Leia a entrevista com Drewes.
O que houve com a nota?
Publiquei a nota na sexta-feira, expressando minha visão sobre o risco que a operação Zelotes está correndo. Fui supreendido com a nota ter sido apagada, por ordem da procuradora-chefe Ana Carolina Roman, que não falou comigo alegando estar na Europa. Curioso ela não ter falado comigo, mas ter conseguido falar com a equipe de comunicação para mandar apagar a nota do site.
O que o senhor dizia na nota?
Na nota, eu mostrava como a não prorrogação da cessão de um colega, de Roraima para Brasília, coloca em risco a operação Zelotes. A decisão de não prorrogar foi da procuradora-geral Raquel Dodge.
Por quê?
A Procuradoria em Roraima não queria a extensão da cessão do procurador para Brasília, alegando que há necessidade lá. No ano passado, alegaram a mesma coisa, mas a PGR o manteve aqui. Ele chegou a propor um meio-termo, em que viajaria para Roraima para fazer parte das audiências lá. Dessa maneira, atenderia a Brasília e a Roraima. Ele queria ficar na Zelotes porque ele é muito importante para o caso, tem o caso todo na cabeça. Eu escrevi inúmeros e-mails para a PGR, para explicar como isso afetaria a Zelotes, mas nunca fui recebido.
Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo
Como assim?
Nunca fui recebido pela PGR. Fui recebido pelo secretário-geral, a quem expliquei a situação, mas de quem ouvi que havia um desgaste muito grande para a PGR, e, por isso, ela não deveria manter o procurador aqui. O que acho estranho é não ser recebido pela PGR, quando consegue-se ser recebido até em ministérios do Poder Executivo com relativa facilidade. A chefe da minha instituição, entretanto, não me recebe.
Como o senhor viu a decisão de apagar a nota?
Esta decisão viola minha independência funcional. Não sou moleque. Eu falei com procurador-chefe em exercício, e não pela Procuradoria. Expressei a preocupação legítima porque acho que o cidadão tem o direito de saber que uma investigação importante como esta está em risco. Não vou varrer nada para debaixo do tapete. Soube que a PGR não gostou do teor da nota, ficou chateada comigo. Eu tenho uma visão diferente. Acho que o cidadão tem o direito de saber a informação direto da fonte. E foi o que eu fiz, expressando a minha preocupação. Decidi publicar a nota quando vi que a procuradora-geral estavan um dia tomando café e comendo bolo com a força-tarefa da Lava Jato, e, em outro momento, praticamente inviabilizando a força-tarefa da Zelotes. Preferi deixar tudo claro para que não houvesse outra interpretação do que está acontecendo.
Existe o risco para outras operações, além da Zelotes?
Sim. A operação Greenfield (que investiga fundos de pensão) também está em risco. A PGR não pode deixar isso acontecer.
(Atualização às 18h50 de 22 de julho: A procuradora Ana Carolina Roman enviou nota à coluna explicando que, na visão dela, a questão tratada na nota de Drewes é interna da PRDF e que, por isso, discordou da divulgação. “Que o procurador Cláudio Drewes agiu no exercício da Chefia Administrativa da Unidade, em sua substituição, e que assim não há que se falar em independência funcional. A objeção foi o fato de ele ter falado em nome da PRDF como um todo e não em nome próprio”, afirmou em texto enviado à coluna.)
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