Vale fica pressionada após Union Investment vender participação

FRANKFURT, SÃO PAULO, OSLO E LONDRES – A Union Investment, terceira maior administradora de ativos da Alemanha, vendeu todas suas ações e bônus do grupo minerador Vale, depois do rompimento da barragem de rejeitos em janeiro no Brasil que deixou mais de 220 pessoas mortas e mais de 70 desaparecidas.

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O rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, em Minas Gerais, em 25 de janeiro, foi a segunda catástrofe do tipo envolvendo a Vale desde 2015.

As ações da Vale, maior produtora mundial de minério de ferro, caíram 25% na primeira sessão depois da segunda catástrofe. O executivo-chefe Fabio Schvartsman renunciou temporariamente.

As ações recuperaram a maior parte das perdas nos últimos meses, mas a companhia está sob pressão dos investidores para melhorar seu desempenho de segurança.

A Igreja Anglicana vendeu sua participação na Vale, de menos de 10 milhões de libras esterlinas (US$ 13 milhões), dias depois do desastre. Em março, o conselho de ética da Suécia, que assessora vários fundos de pensão, instou seus clientes a vender suas ações na Vale, argumentando “ter perdido a confiança” na companhia.

Na sexta-feira, a Igreja Anglicana e o conselho de ética sueco solicitaram a todas as mineradoras de capital aberto que divulgassem “todas as instalações individuais de armazenamento de rejeitos sob seu controle”.

O fundo de petróleo da Noruega, maior fundo soberano do mundo, que detém participação de 1,1% na Vale, informou ao “Financial Times” que mantém conversas com a empresa desde o desastre e que o conselho de ético da Noruega, que assessora o fundo de petróleo sobre a venda de certas participações, está estudando a Vale.

A Union Investment administra 338 bilhões de euros em ativos e tem participação de mercado de 15% na Alemanha. Era uma pequena acionista da Vale e vendeu a participação no fim de março.

“A Vale foi excluída de todos os produtos administrados ativamente por [nós]”, disse o chefe de questões ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês) na Union Investment, Henrik Pontzen.

Outra pessoa a par das discussões internas na Union Investment disse ao “Financial Times” que a decisão foi tomada após discussões com a Vale que levaram à conclusão de que a mineradora tinha “falhas estruturais” significativas e não havia implementado “medidas suficientes” para evitar catástrofes similares.

A Allianz Global Investors, segunda maior gestora de ativos da Alemanha, informou ao “Financial Times” que havia reduzido sua exposição à Vale depois do desastre com a barragem em 2015 e havia deixado de ser acionista da Vale bem antes de janeiro.

Susana Penarrubia, chefe de integração de questões de ESG na administradora de ativos DWS, maior da Alemanha, havia comentado em fevereiro o rompimento da barragem à Reuters. “Confirma mais uma vez nosso ponto de vista muito cauteloso em questões ESG do setor minerador”. Também havia dito que a DWS já havia excluído a Vale de seus investimentos ESG e iria reavaliar as posições de investimento mantidas em nome de clientes institucionais.

Os investidores estrangeiros evitaram a Vale por anos, algo que apenas mudou quando a companhia mudou sua estrutura acionária pouco depois da chegada de Schvartsman em meados de 2017. A mudança quebrou um pacto dos acionistas controladores que estava em vigência há 20 anos.

Dois dos quatro fundos de pensão brasileiros que formam o grupo chamado Litel, maior acionista da Vale, com participação de 21%, não responderam os pedidos para comentar o assunto. Os outros dois não quiseram comentá-lo, assim como a Vale.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que tem participação de 6,3%, também não quis comentar o assunto. O banco privado Bradesco informou ao “Financial Times” que vai manter sua participação de 5,7%.

Em março, a polícia e promotores brasileiros citaram em documentos jurídicos “evidência” de que a Vale tinha ciência do alto risco de ruptura da barragem e que exerceu “pressão” sobre os inspetores para que a certificasse como segura.

Alertaram para a possível aplicação de multas em dinheiro sobre a Vale, assim como para “sanções mais drásticas, como a suspensão parcial ou proibição de suas atividades e até a dissolução compulsória da companhia”.

O ministro da Ambiente do Brasil, Ricardo Salles, disse ao “Financial Times” que “a maior responsabilidade é da companhia, sem dúvida”, acrescentando que o monitoramento das barragens em geral precisam ser melhorado.

Nesta semana, a Vale anunciou a suspensão das operações em dez de suas barragens em Minas Gerais. A decisão foi tomada depois da adoção de novos critérios pelas autoridades para avaliar os graus de risco.

A Igreja Anglicana pediu em carta para 683 empresas mineradoras de capital no mundo listarem suas instalações de armazenamento de rejeitos em 45 dias. “É essencial que os investidores possam estabelecer uma linha de visão clara sobre quais empresas têm quais instalações de armazenamento de rejeitos e como essas instalações estão sendo administradas”, disse Adam Matthews, diretor de ética e engajamento do Conselho de Pensões da Igreja Anglicana. A carta foi apoiada por 96 investidores, com US$ 10,3 trilhões em ativos sob administração.

Vale fica pressionada após Union Investment vender participação | Valor Econômico

https://mobile.valor.com.br/empresas/6202327/vale-fica-pressionada-apos-union-investment-vender-participacao

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