É #FAKE que procurador-geral dos EUA disse que Lava-Jato foi criada para atender aos interesses do país

Mensagem que circula nas redes faz interpretação equivocada de discurso e atribui cargo errado a funcionário do governo americano

Gisele Barros

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29/03/2019 – 15:00 / Atualizado em 29/03/2019 – 15:34

Kenneth Blanco não é Procurador-Geral dos EUA Foto: ReproduçãoKenneth Blanco não é Procurador-Geral dos EUA Foto: Reprodução

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RIO — Circula nas redes sociais um vídeo em que um homem, identificado como procurador-geral dos Estados Unidos, fala sobre a Operação Lava Jato. Na descrição, são atribuídas a ele as falas de que a "Lava-Jato foi criada para atender aos interesses dos EUA" e que a cooperação entre os setores de investigação dos dois países é feita de forma "clandestina". Todo o conteúdo da publicação é #FAKE .

Quem aparece no vídeo não é o procurador-geral dos Estados Unidos, mas sim o procurador-geral assistente em exercício do Departamento de Justiça americano, Kenneth Blanco. O evento no qual Blanco fez o discurso foi realizado em 2017 e se chamava "Lições do Brasil: crise, corrupção e cooperação global". O então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, participou do encontro.

Ao contrário da mensagem que circula nas redes, Blanco reforça em diversos momentos o trabalho de cooperação entre os países, e não de submissão da Lava-Jato aos EUA. Odiscurso completo está disponível no site do Departamento de Justiça.

Blanco não diz no vídeo que a Lava-Jato foi criada para atender aos interesses dos Estados Unidos. No discurso, o procurador informa que a cooperação entre a Divisão de Crimes de Fraudes dos EUA e a Lava-Jato auxiliaram na resolução de investigações. Ele cita quatro casos: Embraer, Rolls Royce, Braskem e Odebrecht. Ele destaca este último e declara que, trabalhando juntos, o Brasil e os EUA "não apenas ajudaram uns aos outros na coleta de evidências e na construção do caso, mas também garantiram o pagamento de multas e penas para cada país, ao invés de impor penalidades duplicadas".

A legenda que acompanha o vídeo de Blanco afirma ainda que ele teria dito que "o relacionamento íntimo entre procuradores dos EUA e do Brasil na Lava-Jato é feito de forma clandestina com o objetivo de se apoderarem do patrimônio público do povo brasileiro, como o Pré-sal e a própria Petrobras".

Na verdade, o que Blanco disse foi que a "cooperação entre os dois países é um relacionamento baseado em confiança. Essa confiança permite que procuradores e agentes tenham comunicações diretas em busca de evidências". Como exemplo, o funcionário do governo dos Estados Unidos cita que no início da investigação, um promotor ou agente de um país pode ligar para o outro e solicitar informações financeiras que possam identificar contas bancárias".

Ele completa ainda que "dada a estreita relação entre o Departamento e os promotores brasileiros, não precisamos depender somente de processos formais, como tratados de assistência jurídica mútua, que geralmente levam tempo e recursos significativos para redigir, traduzir, transmitir formalmente e responder a eles”.

O procurador ressaltou, no entanto que "uma vez que a investigação tenha progredido ao ponto de os promotores estarem prontos para o julgamento, as evidências podem ser solicitadas através do canal de assistência jurídica mútua, de modo que possam ser admissíveis no julgamento".

Kenneth Blanco apenas cita a Petrobras uma vez durante o discurso, para exemplificar a atuação de promotores na investigação contra o ex-presidente Lula, informando que ele havia sido acusado de receber propina da OAS em troca de contratos da empresa com a Petrobras.

É #FAKE que procurador-geral dos EUA disse que Lava-Jato foi criada para atender aos interesses do país – Jornal O Globo

https://oglobo.globo.com/fato-ou-fake/e-fake-que-procurador-geral-dos-eua-disse-que-lava-jato-foi-criada-para-atender-aos-interesses-do-pais-23560001

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