O que você está fazendo hoje por você velhinho amanhã?

Os textos escritos com o fígado são os que saem mais rapidamente pelos dedos. Já aqueles que vêm do coração são os que dão maior prazer de escrever e os que mais ficam na memória – ao menos de quem escreve. Neste 2 de janeiro de 2019, trago um do segundo tipo.

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Para além do necessário brinde com champanhe (ou outro espumante), a virada de ano é um momento típico de reflexão, em que esse excelente truque, que é o calendário, nos leva a pensar sobre a vida e sobre onde estamos acertando e onde podemos melhorar. No meu caso, a reflexão vem em dobro, depois de passar uns dias com meus avós no Rio.

Para quem teve a sorte de conviver com os dois por algumas décadas gozando de saúde plena, é difícil lidar com o impacto do tempo impondo limitações cada vez maiores à qualidade de vida de ambos. Para os dois nonagenários então, que vivem o problema na pele, deve ser mais complicado ainda. Como diz o vovô Jayme: "A velhice é uma dureza" (ele usa outra palavra).

Se o envelhecimento em si já é desafiador, além de inevitável (a não ser para quem nos deixa mais cedo), tanto pior para quem não dispõe de dois importantes paliativos para este período da vida: a proximidade de familiares; e recursos financeiros para lidar com a explosão de gastos. Felizmente, e também por prudência e sacrifício próprios, no segundo caso, meus avós contam com os dois.

Embora reconheça que seja um caso particular, me questiono sobre de onde os especialistas tiraram as estimativas de que, no período de aposentadoria, podemos prever contar com uma renda mensal inferior àquela que temos na fase adulta. Imagino que até possa haver um "vale" nos gastos quando os filhos – de quem os têm – saem de casa e começam a pagar as próprias contas. E também uma redução nas despesas nos primeiros 10 ou 15 anos após parar de trabalhar. Mas aqueles que tiverem planos de romper essa barreira devem se preparar.

À medida que a qualidade de vida piora, os gastos aumentam. E muito.

Está sendo assim lá no Rio, e não foi diferente em São Paulo, com minha outra avó, que já perto dos 90 anos, e antes de ir para o céu há pouco mais de um ano, teve que arcar com um plano de saúde que estava longe ser uma maravilha, mas custava mais de R$ 4 mil por mês – mais do que todo o "ordenado" que ela recebia, para usar uma palavra dela.

E é neste ponto que chego ao título desta coluna: "O que você está fazendo hoje por você velhinho amanhã?".

Para quem se acostumou com um padrão de vida de classe média ou média alta, é uma ilusão contar com o INSS para pagar as contas na aposentadoria. Principalmente se você for teimoso e quiser viver até 80, 90, 100 anos, que é quando o calo aperta. Após a(s) reforma(s) da Previdência que virão de hoje até você envelhecer, será mais difícil ainda.

Então se prepare. Essa questão terá que ser resolvida em âmbito privado. E há basicamente duas opções para tratar esse caso com algum sucesso: ou você contará com filhos ou parentes próximos com recursos financeiros para lhe ajudar – e é bom que eles no mínimo sejam avisados desse seu plano; ou terá que construir, você mesmo, uma reserva financeira suficientemente grande para lidar com essa fase 2.0 da aposentadoria.

Nem todos têm condições, mesmo vivendo uma vida espartana, para acumular dinheiro suficiente para pagar planos de saúde caríssimos, cuidadores ou asilos de qualidade ao longo dos últimos anos da vida. Mas para aqueles que possuem essa chance, recomendo fortemente o segundo caminho – é mais seguro e evita rusgas familiares.

E aqui há boas e más notícias para esse segundo grupo.

A pior novidade, no nível estritamente pessoal e financeiro, é a queda dos juros reais de curto prazo no Brasil. Embora seja potencialmente ótima para o país, especialmente se for sustentável, essa redução causa um estrago na vida de quem quer ganhar dinheiro fácil e com risco quase zero no mercado financeiro.

Nos últimos dez anos, quem fez o pequeno esforço de sair da surrada caderneta de poupança e passou a aplicar o dinheiro em instrumentos que rendessem 100% do CDI, com liquidez e segurança, levou para casa um retorno médio real (acima de inflação) próximo de 4,50% ao ano, sem considerar impostos.

Com esse nível de taxa, e num exercício simplificado, alguém que recebesse R$ 10 mil mensais precisaria economizar 12% da renda, por 30 anos, para manter o salário da ativa ao longo de 20 anos de aposentadoria. O cálculo considera que essa espécie de previdência privada, que ficaria próxima de R$ 4,5 mil por mês, se somaria aos cerca de R$ 5,5 mil de teto do INSS.

Já no cenário atual, os juros reais para quem obtém retorno de 100% do CDI nas suas aplicações é de apenas 2,3% ao ano – considerando CDI de 6,4% e IPCA de 4% ao ano. Com essa taxa, a pessoa que fizesse a mesma economia de 12% citada acima teria uma renda de R$ 7,9 mil nos 20 anos de aposentaria (incluindo os R$ 5,5 mil do INSS), mais de 20% inferior àquela registrada durante os anos de trabalho.

Para compensar a diferença, uma opção seria a pessoa aumentar a economia mensal para 23% da renda, o que requereria um enorme sacrifício no presente, o que normalmente as pessoas não estão dispostas a fazer, conforme indicam os estudos de finanças comportamentais.

Uma boa notícia para o investidor é que ainda há alternativas, ao alcance da mão, que rendem mais do que o CDI. Mesmo com baixo risco. Títulos no Tesouro Direto atrelados à inflação com vencimento em 2024, 2035 e 2045, por exemplo, estão rendendo entre 4,5% e 5% ao ano de juros reais aos investidores. Com risco de crédito do governo e risco de mercado (preço do título) presente apenas se o horizonte de resgate não for condizente com o prazo do papel.

Outra boa nova é que a concorrência das corretoras independentes começou a incomodar e os grandes bancos foram forçados a reduzir para zero, ao longo de 2018, as taxas de custódia que cobram para os clientes aplicarem no Tesouro Direto. Ainda nesta seara, no finalzinho do ano passado, foi reduzida também a taxa cobrada pela B3 nesse tipo de aplicação, de 0,30% para 0,25% ao ano. A necessidade de corte nesse custo, aliás, foi tema desta coluna em setembro – só falta agora encurtar o spread do Tesouro.

Enfim, o "mercado" está fazendo sua parte. Mesmo o mais conservador nos investimentos tem chance de começar a fazer, a partir de hoje, algo por si mesmo anos à frente. Isso para não falar dos prognósticos positivos de agentes de mercado sobre bolsa de valores, com a perspectiva de retomada da economia e aprovação de reformas, que podem engordar os retornos de quem tiver perfil moderado ou agressivo para investir.

Falta só o principal, que é tomar a iniciativa de poupar. Mas você está preocupado consigo mesmo no futuro?

Fernando Torres é repórter de S.A.

E-mail: fernando.torres

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