Prejuízo da BRF foi estopim para troca do conselho, diz Walter Mendes

Por Graziella Valenti e Luiz Henrique Mendes

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SÃO PAULO – Walter Mendes, presidente da Fundação Petrobras, contou neste sábado, em entrevista ao Valor, que há tempos vinha discutindo a necessidade de mudanças com outros acionistas. “Fomos procurados e provocados muitas vezes, por sermos um dos maiores acionistas”, disse ele.

Entretanto, ele disse que o estopim para uma iniciativa concreta ocorreu após a divulgação do balanço anual, na semana passada, que trouxe R$ 1,1 bilhão em prejuízo. Foi só então que começou uma discussão objetiva e engajada sobre a formação de um novo conselho, junto com a Previ, e que os convites começaram a ser feitos.

A troca do colegiado resultará, na prática, do fim da gestão de Abilio Diniz, atual presidente do conselho de administração, e da gestora Tarpon, na companhia. Contudo, Mendes disse que não há nenhuma personificação sobre o movimento.

Os fundos de pensão Petros e Previ apresentaram na manhã deste sábado a chapa com os dez nomes para o conselho de administração da BRF. Juntos, somam 22% do capital da BRF e são os maiores acionistas individuais — cada um tem cerca de metade desse total. Abilio tem em torno de 4% das ações e a Tarpon, atualmente está em 8%.

O empresário assumiu a presidência do conselho de administração da BRF em abril de 2009, após um movimento liderado pela Tarpon e com apoio da Previ. Na ocasião, Abilio aplicou recursos na compra de uma participação em torno de 3% e, em seguida, investiu mais por meio de um fundo junto à Tarpon (esse veículo já foi encerrado). Quanto à gestora fundada por José Carlos Magalhães, Eduardo Mufarrej e Pedro Andrade de Faria, que presidiu até o fim do ano passado, a aposta no negócio foi ampliada, pois desde sua criação (em 2002) a Tarpon era acionista da Sadia.

Na chapa proposta pelas fundações para a mudança, o candidato à presidência do conselho de administração da BRF é Augusto da Cruz Filho, que é também o atual presidente do colegiado da BR Distribuidora. De certa forma, a indicação do executivo para o cargo é mais um recado dos fundos para Abilio. Augusto foi durante 11 anos do Grupo Pão de Açúcar (GPA), empresa fundada pelo pai de Abilio. No GPA, o executivo foi diretor financeiro e presidente-executivo.

Do atual conselho de administração da BRF, as fundações indicaram três membros. O advogado Francisco Petros, para continuar na vice-presidência do colegiado; o ex-ministro Luiz Fernando Furlan; e o vice-presidente do Banco do Brasil, Walter Malieni.

Os outros candidatos na chapa são: Guilherme Ferreira, dono da gestora Teorema; José Luiz Osório, ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e principal sócio da gestora Jardim Botânico Investimentos; Roberto Mendes, atual diretor de finanças da Localiza; Dan Ioschpe, membro dos conselhos da WEG e da Cosan; Roberto Funari, vice- presidente-executivo da fabricante de produtos de limpeza Reckitt; e Vasco Dias, ex-presidente da Raízen (sociedade entre Cosan e Shell) e atual membro do conselho de administração da Cosan.
Leia a seguir um resumo da conversa do Valor com Walter Mendes:

Valor: O que o perfil da chapa escolhida para um novo conselho de administração da BRF indica sobre os planos da fundação?

Walter Mendes: Tivemos muito apoio do mercado e muita gente boa se mostrou disponível. Nosso objetivo foi montar um conselho de administração com diversidade de competências e pessoas com tempo disponível. O trabalho nesse primeiro ano será muito intenso. A empresa é muito grande, muito complexa e rever a estratégia exigirá tempo dos envolvidos. Quero deixar muito claro que não há um plano dos acionistas para a empresa e as pessoas têm dificuldade com isso. O plano sairá do conselho. Nós, fundações, como acionistas, não queremos interferir na gestão. Com esse conselho também buscamos preservar a independência.

Valor: Não há plano, mas há um diagnóstico, então.

Mendes: Não temos nenhuma informação adicional a que o mercado tem. O diagnóstico está expresso nos resultados e nos nossos comentários na carta ao conselho de administração atual. Não precisa estar dentro para ver a perda de market share e os números. Até os relatórios dos analistas são bastante consensuais. Perder mercado para um concorrente que viveu o que viveu no ano passado [em referência à crise na JBS, dona da Seara, após as delações de seus controladores] não pode. Não é de hoje que percebemos a necessidade de mudança. Diversos acionistas nos procuraram e nos provocaram há algum tempo e as conversas começaram a acontecer, inclusive com a Previ. Mas o balanço do quarto trimestre foi o estopim para decidirmos que era hora de agir. E estamos fazendo tudo obedecendo a governança. A mídia personificou muito nossa iniciativa…

Valor: No empresário Abilio Diniz, você quer dizer.

Mendes: É você quem está dizendo. Mas eu quero deixar claro que não há isso na nossa visão. Apenas achamos que a companhia precisa de uma estratégia clara e ser colocada nos trilhos, com consenso e independência, dentro do conselho e na gestão.

Valor: Após a eleição do novo conselho, haverá mudanças na gestão executiva?

Mendes: Não há e nem poderia haver uma decisão nossa, dos acionistas, a esse respeito. É uma decisão que será do conselho e não há, aos convidados, nenhuma orientação prévia nesse sentido. Apenas esperamos que o conselho trabalhe com confiança junto com a administração executiva. O papel do conselho é orientar e fiscalizar a gestão, mas esperamos que isso seja feito de forma colaborativa e não agressiva.

Valor: Quanto tempo para que a BRF volte para os trilhos?

Mendes: Não tenho ideia de prazo. Apenas sei que o primeiro ano será determinante nesse trabalho e que os resultados não virão de imediato. Mas, não consigo ter essa estimativa justamente porque não estou lá dentro. Mais uma vez o resultado virá do trabalho do conselho.

 

http://www.valor.com.br/agro/5360449/prejuizo-da-brf-foi-estopim-para-troca-do-conselho-diz-walter-mendes#

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